Pandemia adia expansão da Jerónimo Martins para a Roménia

Grupo dono das redes Pingo Doce e Biedronka suspende para já entrada num quarto mercado. Em Portugal, só prevê retoma no segundo semestre de 2022.

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Andreia Carvalho

Há pouco menos de um ano, o grupo de distribuição Jerónimo Martins oficializava a Roménia como potencial quarto mercado de operação, incluindo o país no plano estratégico de 2020-2025. Mas, um ano depois, a crise sanitária e económica levaram a que a companhia que lidera o retalho alimentar na Polónia adiasse os seus planos a Este.

Numa conjuntura em que “o bom senso é o maior aliado”, o plano de expansão para a Roménia em 2020 foi adiado, explicou esta quinta-feira Pedro Soares dos Santos. Em conferência de imprensa, o presidente do conselho de administração e administrador-delegado da Jerónimo Martins SGPS afirmou que o grupo irá “reconsiderar” esse movimento de expansão. “Ainda é um bocado cedo para saber” se o plano sempre vai avançar, acrescentou.

“A Roménia é um processo que foi adiado em 2020 essencialmente porque a incerteza obrigou-nos a tal” e “havia que proteger o que nós tínhamos e não começarmos novas aventuras”, explicou Pedro Soares dos Santos aos jornalistas.

A expansão para a Roménia “será uma coisa que iremos reconsiderar logo que vejamos que existe estabilidade e previsibilidade para podermos continuar a crescer – crescer é o nosso negócio e disso não vamos abdicar”, sublinhou.  

O que está posto de parte é a entrada da cadeia polaca de para-farmácias Hebe na República Checa e na Eslováquia – igualmente prevista no plano de 2020-2025, há um ano. A Hebe “reestruturou o seu negócio” e vai agora focar-se no comércio online.

A Jerónimo Martins, empresa cotada na bolsa portuguesa, actua no sector da distribuição em três mercados: em Portugal, através da rede retalhista Pingo Doce e da grossista Recheio; na Polónia, através da rede alimentar Biedronka e da cadeia de para-farmácias Hebe; e na Colômbia, através da marca Ara. A Roménia seria – ou será, mas não para já – o seu quarto mercado.

Com 3115 lojas em território polaco, em 2020 a Biedonka representou 69,8% das vendas (ou 13,46 mil milhões de euros, mais 6,7% em euros do que em 2019) e 87,98% do EBITDA consolidados pelo grupo; com 453 hiper e supermercados, a cadeia Pingo Doce fez 20,1% das vendas da SGPS (ou 3,86 mil milhões de euros, menos 1,9% do que em 2019); e com 42 “cash & carry”, a Recheio teve um peso de 4,4% das vendas consolidadas (ou 847 milhões de euros, com uma queda de 15,9% face a 2019). 

Igual percentagem (4,4%) nas vendas do grupo teve a Ara, com as suas 663 lojas de proximidade e a vender 854 milhões de euros em 2020 (mais 8,9%, em euros, face a 2019); e finalmente a Hebe representou 1,3% das vendas consolidadas pela holding (o equivalente a 245 milhões, uma queda de 5,4% face a 2019, em euros).

Retoma só no segundo semestre de 2022

“Em 2020 tivemos a gerir numa imprevisibilidade enorme”, frisou Pedro Soares dos Santos, num ano em que o impacto directo da pandemia representou custos adicionais de 64 milhões à companhia. E em que “de repente, a Recheio [líder no fornecimentos do canal de hotéis, restaurantes e cafés no país (Horeca)] viu perder 50% dos seus clientes”.

“Este ano”, acrescentou o presidente da JM SGPS, “já não navegamos na mesma imprevisibilidade, não no mesmo nevoeiro”.

É por isso que o grupo prevê investir 700 milhões este ano (face a 450 milhões em 2020), dos quais 60% na Polónia – embora Pedro Soares dos Santos garanta que irão ser “muito criteriosos na forma como vamos gastar ao longo do tempo” –, que os prémios aos trabalhadores irão ficar “em linha” com os 189 milhões de prémios do ano anterior, e que os accionistas têm a estimativa de receberem 181 milhões de euros (50% dos lucros, sem IFRS16) em dividendos, este ano, relativos a 2020. Pelo menos será essa a proposta que a gestão irá levar à próxima assembleia geral de accionistas, em que “não vai haver absolutamente alteração nenhuma” na actual composição do conselho de administração, afirmou Pedro Soares dos Santos.

Questionado sobre para quando antecipava a retoma económica, o administrador-delegado da JM não a estima antes do “segundo semestre de 2022 em Portugal”, onde é o segundo maior operador de retalho alimentar. Já na Polónia, onde lidera o mercado, acredita que a retoma acontecerá já no segundo semestre de 2021.

O grupo Jerónimo Martins consolidou, à luz das normas contabilísticas IFRS16, resultados líquidos após interesses minoritários de 312 milhões de euros em 2020, um decréscimo de 19,9% face ao ano de 2019. O resultado antes de juros, impostos, amortizações e depreciações (medido pelo EBITDA), foi de 1423 milhões de euros, uma queda de 1% face a 2019.

O grupo consolidou vendas totais de 19,29 mil milhões de euros em 2020 – ainda assim, não muito longe da vontade declarada há um ano de chegar aos 20 mil milhões –, melhor em 3,5% do que os 18,63 mil milhões realizados em 2019.