Eduardo Lourenço defensor do colonialismo? Uma “ideia” infundada

Em nome do rigor, importa desmontar a interpretação precipitada e desastrada que Henrique Raposo faz do pensamento de Eduardo Lourenço sobre o colonialismo português.

Na sua coluna de opinião do Expresso, com a data de 24 de Fevereiro, Henrique Raposo apresenta o que poderá parecer uma revelação. Segundo ele, “o recém falecido Eduardo Lourenço, por exemplo, foi porventura o maior luso-tropicalista e quinto-imperialista do século XX, defendendo com unhas e dentes o destino colonizador de Portugal”. A “ideia” nem sequer é inteiramente nova, pois num depoimento em vídeo realizado logo após a morte do ensaísta de O Labirinto da Saudade, Boaventura de Sousa Santos defendeu idêntica tese. Ora, em nome do rigor, importa desmontar esta interpretação precipitada e desastrada do pensamento de Eduardo Lourenço sobre o colonialismo português.

Na “leitura” de Henrique Raposo, “em 1959, Eduardo Lourenço criticava o caráter pouco africanista de Salazar; em 1975, dizia que Portugal deixaria de ser Portugal se perdesse as colónias”. Quais os textos de Eduardo Lourenço que se prestam a esta interpretação aparentemente escandalosa? Quais as fontes de onde parte Henrique Raposo para efectuar a sua interpretação sobre o pensamento de Eduardo Lourenço? Pegamos no livro mais acessível sobre a temática, Do Colonialismo como Nosso Impensado (Gradiva, 2014), no qual constam ensaios escritos entre 1960 e 2014, e depressa nos damos conta que em lado nenhum Eduardo Lourenço critica o carácter pouco africanista de Salazar. Aliás, esta frase de Henrique Raposo pode até significar várias coisas distintas. Que Salazar não se importava com o destino das colónias portuguesas em África? Ou que não atendia aos interesses independentistas dos povos africanos que nessas colónias viviam? A formulação de Henrique Raposo é capciosa porque sugere que Eduardo Lourenço, em 1959, ou seja, dois anos antes de a guerra começar, se queixa de que o Presidente do Conselho não estaria atento à situação africana, algo que, no entender deste Lourenço (lido assim por Raposo), seria censurável. Ora, a perspectiva de Eduardo Lourenço é inteiramente distinta.

Em todos os textos que escreveu sobre a Situação Africana antes do 25 de Abril, Eduardo Lourenço contestou a legitimidade política e moral do colonialismo defendido pelo Estado Novo. O que o irritava sobremaneira era o silenciamento, na Metrópole, do que se passava nas colónias, quer da parte dos adeptos do regime, quer da maior parte dos oposicionistas a Salazar. Mais: o ensaísta sempre denunciou a fragilidade teórica e sobretudo historiográfica do luso-tropicalismo, doutrina defendida pelo sociólogo brasileiro Gilberto Freyre e que serviu de fundamento ideológico para o discurso oficial do regime salazarista. Dizer que Eduardo Lourenço é “o maior luso-tropicalista” constitui, portanto, uma óbvia desleitura. Por outro lado, associar o “luso-tropicalismo” ao chamado V Império é também uma manobra falaciosa, pois, apesar da conhecida admiração de Eduardo Lourenço pelas obras do Padre António Vieira e de Fernando Pessoa, nada está mais distante da verdade do que sustentar que estes dois autores podem servir de caução ao colonialismo português, tal como o faziam os ideólogos do Estado Novo. Em texto publicado no jornal brasileiro Portugal Livre em 1960, Eduardo Lourenço é categórico, afirmando que “o nosso colonialismo, ao contrário do que se afirma, é a mais retrógrada, a mais implacável, a mais sofística, a mais imbecil de todas as formas de colonialismo hoje. Ele é exactamente, à imagem da situação política e social da Metrópole, a mais anacrónica e estúpida do mundo ocidental” (Do Colonialismo como Nosso Impensado, p. 32). Como pode ser isto compatível com a tese de que Eduardo Lourenço defendeu “com unhas e dentes o destino colonizador de Portugal"?

E daqui passa-se para a segunda tese de Henrique Raposo, de acordo com a qual Eduardo Lourenço, “em 1975, dizia que Portugal deixaria de ser Portugal se perdesse as colónias”. Mais uma vez, trata-se de uma leitura que não resiste ao confronto com os textos, pelo que aconselho a revisitação de todo o segundo capítulo de Do Colonialismo como Nosso Impensado. O que espanta Eduardo Lourenço é que, tal como o Estado Novo procurou silenciar o problema africano, no Portugal democrático vigore a mesma incapacidade de se olhar de frente a situação das colónias. Dizer isto não é, evidentemente, o mesmo do que defender a ilegitimidade da descolonização. Trata-se de, pelo contrário, indagar os motivos pelos quais Portugal não consegue interrogar o seu destino como país. Recorde-se que, de acordo com Eduardo Lourenço, a expansão imperial foi um dos alicerces da nossa independência nacional. Ora, procurar sair à socapa de África, isto é, sem reflectir seriamente sobre as consequências desse gesto, seria – como, de facto, o foi – esbanjar uma oportunidade única para nos repensarmos como nação.

Penso que ao colocar a questão nestes termos, Eduardo Lourenço foi uma voz solitária entre os intelectuais de esquerda que, apressadamente, pensavam que entregar as colónias significava, por si só, resolver o problema africano. Em texto escrito no mês de Setembro de 1974, podemos ler: “A não problematização da história portuguesa (com a excepção de Oliveira Martins) é uma das características capitais da consciência nacional, e essa ausência de olhar crítico sobre nós está relacionada justamente com o facto de sermos os prodigiosos actores de uma gesta de colonização que nunca nos pôs problemas. (…) Assim, como a Colonização nunca pôs problemas de consciência à Metrópole, partilhada entre o sonambulismo e a histeria históricos, também a Descolonização os não porá. (…) Depois do 25 de Abril, o conteúdo da nossa relação típica Metrópole-Colónias alterou-se, e felizmente, no único sentido justo em que podia ser alterado. Mas a forma, o estilo do nosso comportamento enquanto comportamento colonizador metropolitano, continua a depender de uma estrutura mental análoga” (Ibidem, pp. 190-191).

Desta citação, gostaria de destacar um primeiro ponto. De acordo com Eduardo Lourenço, depois do 25 de Abril, o conteúdo da nossa relação com as colónias alterou-se, e felizmente, no único sentido justo em que podia ser alterado. Nesse sentido, Portugal fez bem em terminar um império anacrónico. No entanto, e este segundo ponto não pode ser negligenciado, a descolonização fez-se o mais rapidamente possível porque tudo funcionou como se nunca tivesse havido colónias. Ora, o que é certo é que houve. E a existência de Portugal como país autónomo desde cedo disso dependeu. Por outras palavras, se Portugal não tivesse partido para as regiões ultramarinas, dificilmente seríamos coisa muito diferente do que a Catalunha, por exemplo.

A obra de Eduardo Lourenço é extremamente vasta e plurifacetada. O estilo da sua escrita nem sempre é fácil, pelo que o pacto que estabelece com os leitores é um desafio exigente. O texto de Henrique Raposo é um bom exemplo de como se pode “citar” Eduardo Lourenço e, ao mesmo tempo, deturpar o sentido essencial do seu pensamento.