Morreu Maria José Valério, a voz de Viva o Sporting, vítima de covid-19

Depois de ter sido internada no dia 20 de Fevereiro, Maria José Valério, a cançonetista que deu voz à marcha do Sporting, morreu nesta quarta-feira, aos 87 anos, vítima de covid-19, disse fonte da Casa do Artista.

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David Clifford/Arquivo

Depois de ter sido internada no dia 20 de Fevereiro, Maria José Valério, a cançonetista que deu voz à marcha Viva o Sporting, morreu nesta quarta-feira, aos 87 anos, vítima de covid-19, disse fonte da Casa do Artista. A intérprete de Menina dos telefones (1961) morreu no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. As cerimónias fúnebres realizam-se no sábado, às 18h, no Centro Funerário de Cascais, informou a Casa do Artista.

A cantora foi uma das cinco pessoas que, infectadas com o novo coronavírus na sequência de um surto na Casa do Artista, em Carnide, Lisboa, tiveram de ser hospitalizadas. Então, o número de infectados no surto de covid-19 era de 33 pessoas. Entre os residentes do espaço, havia “18 casos activos, 13 dos quais estão na instituição, devidamente separados dos negativos, e cinco estão internados”, informava a Lusa no dia 19 de Fevereiro. A Casa do Artista tem cerca de 70 residentes e 30 funcionários.

De seu nome completo Maria José Valério Dourado, a artista nasceu a 3 de Maio de 1933 na Amadora, e é um nome associado ao Sporting Clube de Portugal, tanto pela sua voz, que empresta à marcha Viva o Sporting (tão famosa que acabou por ser confundida com o hino oficial do clube), como pelo seu afecto, que vestiu da cabeça aos pés, com o seu cabelo verde a ser uma espécie de imagem de marca.

No entanto, o percurso artístico de Maria José Valério é mais vasto, tendo passado pela Emissora Nacional e conquistado notoriedade pela sua interpretação de marchas como Olhò polícia sinaleiro, da autoria de António Silva e Maria José Figueiredo,​ ou de canções como a bem-humorada Menina dos telefones, de Manuel Paião e Eduardo Damas, ou As carvoeiras, de Alberto Ribeiro. 

Sobrinha do compositor Frederico Valério (1913-1982), desde a década de 1950 que participava em espectáculos de variedades da Emissora Nacional, assim como em emissões experimentais da RTP, na Feira Popular, em Lisboa. Além de cantar também participou em séries televisivas, contracenando com actores como Carmen Dolores, Raul Solnado, ou Artur Agostinho, entre outros. 

Em 1962, casou-se com o matador de touros José Trincheira, numa cerimónia que foi transmitida na RTP e celebrada pelo então cardeal-patriarca de Lisboa, Manuel Cerejeira, na igreja do Mosteiro dos Jerónimos. Anos mais tarde, o casal viria a separar-se. 

Quer o município de Lisboa quer o da Amadora homenagearam a artista. Em 2004, recebeu a Medalha de Mérito da Cidade de Lisboa, grau ouro, das mãos de Santana Lopes. Em 2009, o seu nome foi atribuído ao centro cultural da freguesia da Venteira, na Amadora.

O seu clube do coração já se pronunciou nas redes sociais lembrando: “Criou e cantou a marcha/Que é a de todos nós/Cantam todos os do Sporting/Desde os netos até aos avós cantou a marcha.” Acrescentando: “A sua voz vai soar eternamente nos nossos corações. Até sempre, Maria José Valério.”

No seu site, o Sporting Clube de Portugal publicou uma nota de pesar pela morte da cançonetista. “Voz inconfundível e imagem singular, Maria José Valério, como era artisticamente conhecida, interpretou várias canções e deu voz à marcha do Sporting. A artista, sportinguista de coração, marcava presença em Alvalade sempre que podia e participava em várias das festas leoninas espalhadas pelo país”, recorda, agradecendo ainda “os anos de amor e dedicação ímpar de Maria José Valério ao clube”.

Outras reacções surgem sobretudo entre os artistas. Na sua conta de Instagram, Manuel Luís Goucha, que iniciou o seu percurso na RTP, recorda a generosidade da cançonetista: “Não havia vez que não fosse cantar à televisão que não levasse flores para maquilhadoras, produtoras e senhoras da plateia. Não havia aniversário que lhe escapasse, por isso o telefone tocava sempre para lhe ouvirmos os parabéns, até com a minha mãe o fazia, a sua Lurdinhas como gostava de a chamar. Rapaziada, ouçam bem o que vos digo e gritem todos comigo: Viva a Zé Valério!”

Também a apresentadora da RTP Tânia Ribas de Oliveira recorda o lado mais generoso da artista: “A Zezinha era a pessoa mais doce, querida e generosa que tive oportunidade de conhecer na minha vida profissional. Perdi a conta às vezes que me ligou e que eu lhe liguei. Sempre com o mesmo carinho e o mesmo amor. Fará falta a Zezinha e as suas paixões sempre ao peito. Que o seu, nosso, Sporting honre da melhor maneira a marcha com a sua voz e que este ano se faça a festa — também — em sua homenagem. Vamos ter saudades.”

A apresentadora e sportinguista Rita Ferro Rodrigues acredita que a cantora será sempre recordada pelos adeptos: “Um exemplo de desportivismo e fair play. Tinha amigos em todos os clubes, amava loucamente o seu Sporting e sabia que seria eterna no seu clube, onde será para sempre a voz da festa e da alegria nas bancadas.”