Anticorpos antivirais na resposta europeia anticovid-19: é tempo de recuperar o atraso!

O esforço impressionante dos EUA para acelerar o desenvolvimento e produção de anticorpos anti-SARS-CoV-2 está em forte contraste com o escasso apoio fornecido até agora pela Comissão Europeia e outras organizações governamentais, empresariais e filantrópicas.

A Comissão Europeia está empenhada em assegurar aos cidadãos europeus um acesso rápido aos melhores produtos biofarmacêuticos disponíveis contra o SARS-CoV-2. Até ao momento, a única acção concreta consistiu em celebrar acordos prévios de aquisição com produtores de vacinas em nome dos 27 Estados-membros. Dar prioridade a vacinas era a coisa óbvia a fazer, mas agora é tempo de investir também em anticorpos antivirais como parte de uma estratégia integrada de saúde pública. Anticorpos monoclonais neutralizantes direccionados à proteína spike do SARS-CoV-2 são cada vez mais reconhecidos como um importante instrumento para preencher a lacuna criada pela escassez de vacinas e o ritmo lento de vacinação na União Europeia. Além disso, mesmo se a distribuição de vacinas for melhorada, as vacinas não serão eficazes para todas as pessoas, dependendo da idade e condição de saúde. Anticorpos monoclonais e nanocorpos produzidos por engenharia genética oferecem as perspectivas mais promissoras para lidar com estas questões.

Anticorpos monoclonais e nanocorpos representam a versão moderna da chamada imunização passiva, uma terapia pioneira no final do século XIX. Nessa época, muitos milhares de crianças com difteria foram salvas por um tratamento de soro de cavalo que continha um elevado número de anticorpos contra a toxina da difteria. Este grande avanço foi originado simultaneamente em França, com Émile Roux, e na Alemanha, com Emil von Behring, a quem foi atribuído o Prémio Nobel em Fisiologia ou Medicina em 1901.

Ao longo dos anos, a imunização passiva contra agentes infecciosos foi melhorada através do uso de anticorpos purificados de plasma de indivíduos imunes e, posteriormente, ao tirar partido da tecnologia de anticorpos monoclonais, outro grande avanço feito na Europa pelos laureados com Prémios Nobel Cesar Milstein, no Reino Unido, e Georges Kohler, na Alemanha.

No campo das doenças infecciosas, um anticorpo monoclonal do vírus sincicial respiratório faz parte do padrão de tratamento de bebés com um risco elevado de desenvolver bronquiolite e um cocktail de anticorpos monoclonais é actualmente utilizado no tratamento do vírus do Ébola em conjunto com vacinação. Um complemento adicional são nanocorpos, que são fragmentos de anticorpos que compreendem apenas um local de ligação. Estes são derivados de anticorpos de cadeias pesadas de certas espécies animais. Poderão ser produzidos a um custo menor e mais facilmente do que os anticorpos monoclonais.

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Coronavírus SARS-CoV-2 NIAID

Uma vez que anticorpos antivirais e nanocorpos poderão ser potenciais tratamentos revolucionários para a covid-19, não é surpreendente que tenham conseguido atrair os interesses de muitas empresas de biotecnologia e grandes empresas farmacêuticas. Pelo menos 14 anticorpos anti-SARS-CoV-2 ou cocktails de anticorpos estão actualmente sob investigação clínica.

Tal como no caso das vacinas, o Governo federal norte-americano assumiu a liderança ao facilitar o desenvolvimento, aprovação da regulamentação e produção de anticorpos monoclonais. O investimento precoce da Defense Advanced Research Agency (DARPA) em plataformas de descoberta de anticorpos permitiu a identificação de anticorpos neutralizadores altamente potentes que foram rapidamente avaliados em ensaios clínicos de fase I, seguidos por planos de desenvolvimento acelerados apoiados pela Biomedical Advanced Research and Development Authority (BARDA) e pelo Departamento de Defesa dos EUA.

A Regeneron, que estava a liderar a corrida de anticorpos, recebeu um apoio de 450 milhões de dólares que facilitou o arranque de ensaios clínicos que resultaram numa autorização de uso de emergência do seu cocktail de anticorpos anti-SARS-CoV-2 (administrado ao ex-Presidente dos EUA) pela Food and Drug Administration (FDA) em Novembro de 2020. A AstraZeneca também recebeu um apoio de 486 milhões de dólares da BARDA para o desenvolvimento dos seus anticorpos anti-SARS-CoV-2. Paralelamente, os National Institutes of Health (NIH) estabeleceram a parceria Accelerating Covid-19 Therapeutic Interventions and Vaccines (ACTIV), que aproveitou a experiencia de investigadores académicos e industriais para avançar neste campo. A colaboração entre empresas tem sido notável, sendo o exemplo mais recente o acordo assinado entre a Eli-Lilly, a Vir Biotechnology e a GSK.  

O esforço impressionante dos EUA para acelerar o desenvolvimento e produção de anticorpos anti-SARS-CoV-2 está em forte contraste com o escasso apoio fornecido até agora pela Coronavirus Global Response desenvolvido juntamente pela Comissão Europeia e outras organizações governamentais, empresariais e filantrópicas no âmbito da Covid-19 Tools Accelerator (ACT-A). Apenas muito recentemente a ACT-A preparou um cenário de investimento no qual 365 milhões de dólares estariam comprometidos para reservar capacidades de produção de anticorpos e assegurar um volume de nove milhões de tratamentos a preço de custo. Este plano é altamente bem-vindo, mas não irá responder a uma necessidade imediata, nomeadamente a de oferecer uma solução terapêutica para prevenir doença grave em indivíduos de alto risco imediatamente após terem sido infectados ou após um contacto próximo com indivíduos infectados.

Esta situação levou o Governo alemão a aprovar e adquirir 200.000 doses do cocktail de anticorpos da Regeneron por 400.000 euros, independentemente da Comissão Europeia. Do mesmo modo, a França acaba de conceder uma autorização de uso temporário para o anticorpo desenvolvido pela Eli-Lilly. Enquanto o cocktail de anticorpos da Regeneron está neste momento em revisão na Agência Europeia do Medicamento (EMA), é agora tempo de assegurar acesso a estes tratamentos para todos os cidadãos europeus, possivelmente através da negociação de acordos de fornecimento conjuntos e apoio activo para investigação e desenvolvimento em anticorpos terapêuticos e nanocorpos na Europa.

O recente aparecimento de várias variantes do SARS-CoV-2 que reduzem a potência da maioria das vacinas desenvolvidas e a eficácia de vários anticorpos monoclonais já desenvolvidos proporciona a oportunidade para que a Europa tenha um papel de liderança em anticorpos de segunda geração capazes de oferecer uma protecção alargada contra variantes emergentes.

Ainda assim, permanecem vários desafios de forma a optimizar a imunização passiva contra a covid-19 e assegurar um acesso global em todo o mundo. São necessárias soluções inovadoras para aumentar a estabilidade de produtos anticorpos, desenvolver formas de administração mais convenientes do que a injecção intravenosa, assegurar que as variantes emergentes sejam efectivamente neutralizadas e, mais importante, desenvolver tecnologias de produção inovadoras para produzir estes produtos biológicos em escala sob condições financeiras sustentáveis. Cientistas e biotecnológos europeus estão na vanguarda da investigação neste campo, mas recebem um apoio muito limitado nos programas actuais da Comissão Europeia. Neste momento, todas as esperanças estão na Health Emergency Preparedness and Response Authority (HERA) que, supostamente, emula a BARDA norte-americana. É tempo de recuperar o atraso e restaurar a liderança europeia no desenvolvimento passivo de estratégias de imunização contra a covid-19 e outras ameaças infecciosas que virão!

Alexandra Calmy
Chefe da Divisão da Unidade de HIV/AIDS do Hospital da Universidade de Genebra (Suíça);

Godelieve Debree
Líder da H-Team no Centro Médico da Universidade de Amesterdão (Países Baixos);

Michel Goldman
Professor emérito da Universidade Livre de Bruxelas (Bélgica), ex-director executivo da Iniciativa sobre Medicamentos Inovadores;

Andrzej Gorski
Professor de Medicina e Imunologia na Universidade Médica de Varsóvia (Polónia)

Stefan H.E. Kaufmann
Director emérito do Instituto Max Planck para a Biologia Infecciosa, em Berlim, e do Instituto Max Planck para a Química Biofísica, em Göttingen (Alemanha), ex-presidente da Federação Europeia das Sociedades de Imunologia e da União Internacional das Sociedades de Imunologia

Michel Kazatchkine
Membro sénior do Instituto de Altos Estudos Internacionais e de Desenvolvimento, em Genebra (Suíça), ex-director executivo do Fundo Global de Luta contra a Sida, Tuberculose e Malária

Karine Lacombe
Chefe do Departamento de Doenças Infecciosas e Tropicais do Hospital Saint-Antoine, em Paris (França)

António Parreira
Director clínico do Centro Champalimaud para o Desconhecido, em Lisboa (Portugal), professor emérito de Hematologia Oncológica da Universidade Nova de Lisboa

Rino Rappuoli
Director científico da GlaxoSmithkline Vaccines, director do Laboratório de Descoberta de Anticorpos (MAD Lab) da fundação Toscana Life Sciences, Universidade de Siena (Itália)