ONU: Dezenas de milhares de sírios detidos durante a guerra ainda estão desaparecidos

Relatório denuncia detenções arbitrárias de homens, mulheres e crianças e acusa o Governo e as forças rebeldes de levarem a cabo torturas e execuções.

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Prisão em Hasaka, no Norte da Síria, supostamente gerida pelo Daesh em 2019 GORAN TOMASEVIC/Reuters

Dezenas de milhares de civis que foram detidos ao longo dos últimos dez anos na Síria ainda estão desaparecidos. Um relatório das Nações Unidas, publicado na segunda-feira, denuncia inúmeras detenções arbitrárias de homens, mulheres e crianças durante a guerra civil, levadas a cabo pelo Governo de Bashar al-Assad, por organizações terroristas e por vários grupos rebeldes e opositores sírios.

A investigação da Comissão Internacional Independente de Inquérito à República Árabe da Síria – estabelecida pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas – acusa ainda os vários actores da guerra de, entre outros crimes e abusos, terem torturado e executado milhares de detidos, incluindo opositores, jornalistas, activistas, profissionais de saúde, minorias religiosas entre outros crimes e abusos praticados.

“Dezenas de milhares de pessoas foram ilegalmente privadas da sua liberdade na Síria. As detenções e os encarceramentos têm sido deliberadamente instrumentalizados para incutir medo e suprimir a dissidência entre a população civil ou, menos frequentemente, para ganhos financeiros”, denunciam os investigadores no relatório, que se baseia em mais de 2600 entrevistas e na investigação de perto de uma centena de centros de detenção espalhados pelo país.

Nos últimos dez anos morreram cerca de 400 mil pessoas, 5,6 milhões abandonaram a Síria, outras 6,5 milhões foram deslocadas dentro do país e entre 100 e 250 mil foram detidas ou desapareceram.

Entre os testemunhos obtidos pela comissão de inquérito há relatos de presos que estiveram em estabelecimentos do Estado e que acusam os guardas prisionais de lhes terem aplicado choques eléctricos, queimado partes do corpo ou arrancado unhas e dentes, com o intuito de extraírem informações.

Várias fontes referem ainda que milhares dos detidos que morreram ou foram executados nas prisões ou em edifícios militares foram enterrados em valas comuns, algumas delas nos arredores da capital, Damasco.

De acordo com uma investigação recente da Associação de Detidos e dos Desaparecidos na Prisão de Sednaya – uma cadeia nos arredores de Damasco – muitos sírios são obrigados a pagar subornos aos funcionários prisionais para lhes serem permitidas visitas aos familiares

O facto de muita gente na Síria não ter dinheiro para essas visitas faz com que estejam durante vários anos sem ter notícias dos familiares detidos.

O relatório da ONU também dá conta da prática de tortura nas prisões da aliança jihadista e rebelde Hayat Tahrir al-Sham e do grupo terrorista Daesh. Estas incluem choques eléctricos nos genitais e violações sexuais.

Grupos opositores a Assad como o Exército Livre da Síria (FSA), o Exército Nacional Sírio (SNA) ou as Forças Democráticas da Síria (SDF) são ainda responsabilizados por desaparecimentos e outros abusos “em grande escala”.

“Centenas de milhares de familiares têm o direito a conhecer a verdade sobre o destino dos seus entes queridos”, defende o presidente da comissão de inquérito, o brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, num comunicado. “Isto é um trauma nacional que precisa de ser tratado urgentemente através da acção das partes e da comunidade internacional”.