O ananás é a nova arma do conflito entre China e Taiwan

A China decidiu parar de importar ananases taiwaneses por recear que as pragas encontradas se propaguem nos seus campos. Mas onde Pequim vê uma ameaça à agricultura, Taiwan vê mais uma ameaça à sua soberania.

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Uma plantação de ananases em Kaohsiung, Taiwan, 27 de Fevereiro de 2021. BEN BLANCHARD/Reuters

Se até ao início desta semana mais do que 90% dos ananases de Taiwan tinham a China como destino, agora a trajectória desta fruta tropical terá de ser outra. O Governo chinês baniu a sua compra na segunda-feira, dizendo ter descoberto “pragas prejudiciais”. Para Taiwan, porém, este corte abrupto nas suas importações é visto como mais uma jogada geopolítica para a prejudicar.

Enquanto as autoridades chinesas defendem ser uma decisão “totalmente racional e necessária” para proteger a sua própria agricultura, a presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, diz que esta “súbita decisão unilateral não tem por base a saúde nem o comércio justo”. E sublinha que 99,79% dos ananases passaram no controlo de qualidade.

Anunciada na sexta-feira passada, de forma inesperada, a medida entrou em vigor no início desta semana, por um tempo indeterminado, atingindo uma época especialmente importante para os agricultores, por ser o início da colheita do fruto.

Por esta razão, o governo de Taiwan já anunciou medidas de auxílio aos seus produtores, a começar por apoios financeiros e incentivos à compra local, bem como novas estratégias de marketing para arranjar exportadores alternativos. O governo avançou que o valor total destinado ao apoio é de mil milhões de novos dólares taiwaneses (cerca de 30 milhões de euros).

No ano passado, 97% das exportações de ananás de Taiwan tiveram como destino a China, e os restantes 3% foram para o Japão e para Hong Kong, pelo que alcançar “mercados internacionais”, como os Estados Unidos e Singapura, é agora uma nova prioridade do governo de Taiwan, segundo o The Guardian.

De acordo com a Reuters, as autoridades chinesas, reagindo às acusações da ilha, referiram que o “Partido Democrático Progressista [o partido taiwanês liberal que está no poder] deturpou deliberadamente e interpretou maliciosamente questões técnicas”, acrescentando que “aproveitaram a oportunidade para atacar e desacreditar a China”.

Mas as autoridades de Taiwan vêem semelhanças entre a suspensão da compra dos ananases desta semana e as sanções que a China impôs, em 2018, ao vinho australiano, através de novas taxas alfandegárias. Como tal, avançaram com uma campanha de sensibilização à qual chamaram de “ananases da liberdade”, aludindo à campanha anterior “vinho da liberdade” da Austrália, apelando aos “amigos à volta do globo que se juntem à causa de Taiwan”, como escreveu no Twitter Joseph Wu, o Ministro dos Negócios Estrangeiros de Taiwan.

Tsai investe em apoios

Além de promover uma sensibilização internacional, a Presidente Tsai Ing-wen tem acompanhado de perto os seus produtores locais, tendo-se deslocado no domingo a uma das plantações de ananases no Sul da ilha, em Kaohsiung, para mostrar o seu apoio. “O governo apoia-vos”, disse Tsai, citada pelo South China Morning Post. “Não precisam de ficar preocupados nem de entrar em pânico”, prometeu.

Também as grandes cadeias de distribuição de Taiwan já se colocaram ao lado dos produtores locais, tendo-lhes prometido comprar, ou encomendado já, uma maior quantidade de ananases, que vão de 30 a 10 mil toneladas.

Segundo os dados divulgados pelo Conselho da Agricultura da ilha, em 2020 foram exportadas quase 42 mil toneladas de ananases, 10 mil menos do que em 2019. Tendo em conta que as exportações de ananases de Taiwan representam 40% de todas as suas exportações de fruta, das quais mais do que 90% vão geralmente para a China, a decisão da China em parar de comprar esta fruta tropical está a ser recebida com muitas críticas.

Numa altura em que as relações entre a China continental e a ilha de Taiwan se encontram num nível crítico, com a Pequim a intensificar os exercícios militares no estreito de Taiwan, cada intervenção chinesa é vista com desconfiança em Taipé.

Desde que Tsai Ing-wen foi eleita para Presidente em 2016 que o statu quo, marcado pelo princípio de “uma só China”, tem sido alvo de uma crescente oposição e, consequentemente, também as relações entre os territórios têm vindo a piorar.

Pequim e Taipé concordam que a ilha integra o mesmo espaço político e territorial e que a China é una e indivisível. Os chineses entendem, no entanto, que Taiwan é uma província sua, “temporariamente ocupada”, enquanto os taiwaneses vêem-se como representantes do poder executivo legítimo chinês, “temporariamente deslocado”. 

Um e outro governo defendem que a reunificação, quando e se acontecer, irá permitir o ajustamento do restante território ao seu próprio regime político.

Texto editado por António Saraiva Lima