Físicos norte-americanos não se querem reunir em cidades com histórico de racismo policial

Sociedade Americana de Física vai passar a escolher os locais para as suas conferências tendo em conta a actuação policial: cidades com crimes das autoridades contra pessoas de diferentes cores de pele saem da agenda.

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O episódio do homicídio de George Floyd desencadeou a ideia Reuters/Lucas Jackson

Espaço, catering, transportes, hotéis, restaurantes… Uma conferência pode implicar uma entrada de capital significativa para uma cidade, servindo de motor para a economia, tanto em receitas directas como indirectas. E é tendo essa noção que a Sociedade Americana de Física decidiu ser pioneira ao anunciar que não voltará a agendar eventos para localidades onde a actuação da polícia esteja associada a incidentes racistas.

A ideia germinou, ainda em Maio do ano passado, na mente do físico Philip Phillips, investigador da Universidade de Illinois, no rescaldo do homicídio de George Floyd por um agente da polícia de Mineápolis, que lhe calcou o pescoço com um joelho, enquanto outros efectivos assistiam sem intervir, considerando que as instituições científicas deviam fazer mais contra estes episódios: “O ultraje já devia ter existido há muito tempo”, disse, citado pela revista Nature.

A partir daí, Philip Phillips e o colega Michael Weissman elaboraram uma carta aberta a pedir que as sociedades científicas considerassem a tomada de uma posição e medidas tangíveis contra a violência policial. A proposta foi precisamente para “castigar” as localidades cujo histórico incluísse incidentes do mesmo género. Mas, não só: passa também por proteger os conferencistas de todas as etnias e tons de pele.

E houve um grupo que os ouviu atentamente: a Sociedade Americana de Física que, com mais de 55 mil associados, anunciou que irá considerar a conduta da polícia ao escolher cidades para futuras reuniões, ainda que os eventos já agendados não sofram quaisquer alterações, como é o caso da reunião geral de 2024, que vai acontecer precisamente em Mineápolis, onde se deu o homicídio de George Floyd pela polícia, que viria a desencadear uma onda de protestos e tumultos por todo o país e não só.

Ainda assim, a Sociedade Americana de Física vai remeter “os critérios [futuros] a todas as cidades que já estão no calendário” e monitorizar a forma como os responsáveis pelas urbes respondem às suas perguntas. Estas, elaboradas por Phillips e Weissman com a ajuda do criminologista Greg Ridgeway, da Universidade da Pensilvânia, em Filadélfia, passam por perceber, entre outras coisas, se a polícia da cidade tem formação em medidas de contenção de protestos sem que evoluam para uma situação de violência, se existe um organismo independente para investigar tiroteios e mortes sob custódia policial ou se uma cidade fornece dados sobre o uso da força pela sua polícia, bem como informações demográficas sobre os alvos dessa força.

Ouvida pela revista Nature, a presidente do Departamento de Física da Universidade Estatal da Califórnia, Dominguez Hills, em Carson, e activista, Ximena Cid, considerou “um grande passo” para a Sociedade Americana de Física, explicando que os cientistas BIPOC (acrónimo para “Black, Indigenous and People Of Color") têm de ter cuidados redobrados quando participam em conferências longe das suas zonas de conforto. “Isso pesa na capacidade mental de estar presente numa conferência e de estar envolvido com a comunidade científica”, avaliou.