Burguesia do teletrabalho

Numa sociedade que não queira ter vergonha de se olhar ao espelho, é justo que os que foram sacrificados mereçam o apoio de quem menos sofreu.

Em entrevista ao jornal i, a professora de Economia e colunista do PÚBLICO Susana Peralta defendeu: “Houve uma parte substancial das pessoas em Portugal que não perdeu rendimentos, toda a burguesia do teletrabalho, todas as pessoas do sector dos serviços que, aliás, são as pessoas mais bem pagas, o que também me inclui a mim. Esta crise poupou muito as pessoas que trabalham neste sector e que são as pessoas com mais escolaridade. Podia-se perfeitamente ter lançado um imposto extraordinário sobre essas pessoas para dividirmos os custos desta crise.”

A expressão “burguesia do teletrabalho”, trazida para a primeira página do jornal, causou incómodo, até porque não há muitos que se sintam especialmente “burgueses” com o acumular de dias de confinamento forçado. “Burgueses” não serão também os que trabalham a partir de casa com salário mínimo ou a recibo verde. Até se poderá discutir, como o faz Susana Peralta, que a expressão indica que o imposto extraordinário não deveria ser sobre os rendimentos do trabalho, mas sobre os de capital.

Mas a “burguesia” não nos deve desviar da discussão que interessa, a de que há sectores da sociedade que não sofreram quebra de rendimentos na sua actividade porque puderam continuar a trabalhar enquanto outros, para o bem de todos, tiveram pura e simplesmente de parar, viram o seu salário cortado, foram para o desemprego, e muitos outros poderão ainda juntar-se a eles. Numa sociedade que não queira ter vergonha de se olhar ao espelho, é justo que os que foram sacrificados mereçam o apoio de quem menos sofreu.

Num país onde ainda vigoram contribuições extraordinárias criadas pelo executivo de Passos Coelho para enfrentar a última grave crise, a possibilidade da criação de uma taxa extraordinária, defendida também por nomes como Luís Aguiar-Conraria ou Poiares Maduro, deveria suscitar menos estranheza e mais discussão. Porque este é ainda, em largos traços, o mesmo país dessa crise, com recursos escassos e com necessidade de controlar – mesmo que desejavelmente muito menos nesta altura – o seu défice.

Para auxiliar os muitos que precisam, o dinheiro tem de vir de algum lado, e contar só com a “bazuca” ou a “vitamina” europeia é uma solução, mas poderá ser muito tardia para os mais sacrificados pela pandemia, que, inevitavelmente, pertencem aos sectores mais frágeis da sociedade. No mínimo, este debate serviria para ter bem presentes as prioridades na altura de distribuir as verbas europeias e para obrigar o Governo e o Presidente da República a olharem com sentido de urgência para a crise económica que se avoluma quando, confinando, nos concentramos a resolver a outra.