As perguntas

Digo-lhe: atribuo a mesma importância a um professor catedrático e a um jardineiro: ambos sabem o que fazem. A arte do jardineiro não é menor quando ele sabe fazer o que o professor não tentaria.

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Mag Rodrigues

Passeamos junto ao mar, num longo passadiço, e ele sempre repetindo o seu “curioso” como quem descobre a cada parágrafo, novas formas de entender o mundo. Quem tem essa curiosidade vive de outra forma. E vê muito para além do mensurável.

É comum jantarmos sem ver a ementa porque ele chega ao sítio e pede sempre as mesmas coisas. Aí já a curiosidade lhe escapa porque não quer mais do que aquilo que é certo para o saciar. Talvez a humanidade se divida entre os que se dão por satisfeitos por cumprir essa necessidade básica e os que teimam em experimentar: saber a que sabe o desconhecido mesmo que a experiência possa comprometer a fome. Deixem-me voltar a pensar sobre o assunto porque na verdade posso estar nestes dois lados da humanidade. O acto de comer tem muito que se lhe diga. É por isso que precisamos de beber para digerir tudo isto…

Voltemos ao passeio. Longo. Multiplicado por mil palavras, uma extensão infinita de verbos e perguntas. A pergunta empurra-nos para mais um passo e a caminhada estende-se no pensamento. Digo-lhe: atribuo a mesma importância a um professor catedrático e a um jardineiro: ambos sabem o que fazem. A arte do jardineiro não é menor quando ele sabe fazer o que o professor não tentaria. Não menosprezo nenhum ofício. Todos são valiosos. Ele para no passadiço e diz: “Curioso, está certa, muito certa no que diz, e eu nunca tinha pensado verdadeiramente sobre isso.” Está de mãos atrás das costas e vejo-lhe desenhado nos olhos o espanto. Abre os olhos ainda mais e volta à questão: “É isso mesmo.” Depois ri, feliz, por se ter erguido diante dele uma nova forma de pensar. Dali a pouco estaremos a jantar no mesmo sítio sem ver a ementa. O mar afasta-se um pouco de nós e a conversa traz-nos para terra: “Sabe a razão de eu nunca estar triste? Olho em volto e vejo a beleza das árvores, a natureza e a forma como tudo se organiza” e levanta o copo para um brinde. Talvez aí não repare ele no brilho dos meus olhos e de novo como o pensamento se estende à nossa frente: a possibilidade de pensar o mundo é um privilégio sobre o qual pairamos pouco. Validamos as palavras dos outros espalhadas nos livros sobre tudo e não pensamos sobre nada.

O prazer do encontro e da conversa é estendermos as nossas ideias (nesse longo passadiço construído sobre a racionalidade) e não ter medo de avançarmos sobre ela. Com elas.

Saímos do restaurante e ele está de novo com as mãos atrás das costas. Cumprimenta um sem-abrigo acabrunhado que construiu um forte entre cartões: “Depois passo aqui para falar um bocado com ele.” Seguimos em passada lenta. Seguro o olhar na beleza das árvores que abraçam a avenida e penso na tal organização da natureza. Como chegámos aqui?

Apanho um táxi. Despedimo-nos com um abraço. Eu levo mais perguntas saciadas como a fome. Nem as perguntas nem a fome são sempre as mesmas apesar de a ementa ser dispensável. Ele fica para trás e voltará ao sem-abrigo que trata pelo nome. Sobe e desce a avenida antes de regressar ao hotel. A vida dele é uma missão.

Sigo no táxi com as luzes encadeadas nas árvores (não é Natal, longe disso) mas há sempre essa vontade de regressar a um Natal que nunca foi verdadeiramente cumprido. O que dele idealizamos é que é feliz.

Penso nas árvores, sim. No jardineiro e no professor catedrático. Na curiosidade a que demos luta em mais um encontro.

Mais tarde, receberei um e-mail dele a dar-me conta da sua satisfação com esta amizade. Um brinde permanente.

Ele da Teologia, eu só das perguntas estendidas.

A cada um, a sua arte. Todas válidas.

É como se as árvores, no seu silêncio, concordassem.