Daft Punk e a humildade

Desde o seu início controverso até à finalidade humilde do grupo, Daft Punk demonstraram-nos o prazer e a simplicidade da vida nos seus momentos desapaixonados. Não é necessário grandes extravagâncias ou eruditismo para apreciar o presente.

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Reuters/Ivan Alvarado

Após 28 anos, os Daft Punk acabaram. Lançaram Epilogue, onde, no videoclipe da música, Guy e Thomas se juntam pela última vez,não para demonstrar mais um projecto ou a possibilidade de uma tour futura, mas sim para se despedirem, com um dos artistas a detonar-se e o outro a terminar o vídeo, em direcção ao pôr do Sol. Souberam quando terminar, neste caso, permanecendo lendas na sua sonoridade.

O duo francês criou esta essência à volta deles que raramente algum projecto ou banda consegue verdadeiramente alcançar: independentemente da idade e do subjectivismo cultural estético, aparentemente a música dos Daft Punk é apreciada por todos, seja uma alma jovem ou um sábio idoso.

O grupo não criou uma sonoridade particularmente difícil de entranhar. Comparando o duo com os seus contemporâneos, estes não aplicam poliritmos nem compassos idiossincráticos em 5/9, como Aphex Twin, não aplicam uma vertente estética musical baseada em equipamento análogo, com gravações lo-fi, como Boards of Canada, e de certeza que não escolhem samples e batidas em estilo lócrio desconfortáveis como Autechre.

Não, os Daft Punk aperfeiçoaram a arte da simplicidade e ingenuidade numa nova tendência que começaram, tal como os seus contemporâneos, em 1990, que foi o techno. Ouvindo a experiência sonora com que nos agraciaram em casa, em concertos, em festas, ou até mesmo a ajudar o nosso pai a sair um bocado da nostalgia da era dourada dos Pink Floyd, é de entender a vertente das coisas simples da vida. Apaixona-te. Descobre novas experiências. Chora ocasionalmente. Viaja. Ahh, os prazeres hedonistas da realidade.

Desde o início, com o seu primeiro álbum Homework, que os músicos Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo demonstravam a sua ingenuidade (tinham medo do palco, sendo essa a razão das máscaras e eram geralmente tímidos de tal forma que esconder a sua humanidade com fatos e máscaras robóticas fez parte do visual próprio do duo). Com a estreia de Homework, em conjunto com o seus visuais incomuns, ficaram quase imediatamente enquadrados na visão do público. Desde Da Funk, onde se ouve o som característico nos sintetizadores escolhidos, sempre puxados a dedo, até Burnin’, demonstrando que, desde o início, linhas de baixo persistentes e funk são um dos principais interesses do duo.

Com o seu retorno em Discovery, Daft Punk, tal como trouxeram novas máscaras, também trouxeram uma nova sonoridade, esta agora baseada no house dos anos 80, continuando com o funk, tendo como influências Funkadelic e Kool & The Gang  sonoramente presente em One More Time e Around The World — e, obviamente, com o techno com Voyager e as suas melodias irrequietas.

Após o projecto Human After All não ter sido muito bem recebido e apenas terem lançado alguns singles do filme Tron, lançaram Random Acess Memories em 2013. O duo, agora maturo e crescido, assentou na sonoridade do funk, som que já tinha sido explorado em álbuns passados, mas agora mais refinado. Adicionando artistas como Panda Bear e Nile Rodgers, e com uma forte produção e masterização de Pharrel Williams, singles icónicos como Get Lucky fortemente hedonista e virtuosamente ignorante — Doin’ It Right divertido e despreocupado.

Desde o seu início icónico controverso até à finalidade humilde do grupo, oa Daft Punk demonstraram-nos o prazer e a simplicidade da vida nos seus momentos desapaixonados. Não são necessárias grandes extravagâncias ou erudição​ para apreciar o presente. Ambas essas características têm o seu lugar. Contudo, relembrando as simples viagens de carro e os convívios informais entre amigos, Daft Punk encaixam-se perfeitamente, especialmente agora, em que estamos à espera de voltar a saborear esses momentos.