O país cumpriu, o Governo está a falhar

Respeitar o enorme esforço dos profissionais de saúde é preparar e organizar em vez de correr permanentemente atrás do prejuízo. Sobre o futuro próximo, o Governo continua a navegar à vista.

O número de novos casos de covid-19 diminuiu drasticamente em Portugal com o confinamento. Foi a resposta drástica a uma evolução pandémica que colocou em causa a resposta do Serviço Nacional de Saúde. Lembramo-nos das filas de ambulâncias à porta dos hospitais, dos hospitais de campanha, do desespero dos profissionais e do número brutal de mortes. Um sinal vermelho que se impôs ao país. As pessoas perceberam a responsabilidade que carregavam nos ombros e, sujeitando-se a imensos sacrifícios, cumpriram. Nos momentos difíceis é quando nos tornamos maiores, onde falhamos repetidamente é quando, em vez de reagir, temos de preparar, prever ou planear.

O Presidente da República citou Edmund Burke na declaração que ontem fez ao país: “um povo que não conhece a sua história, está condenado a repeti-la.” Implicitamente estava a referir-se ao período de Natal, garantindo que o relaxamento das medidas desse período não se repetirá na Páscoa – o fantasma do Natal passado ainda assombra Belém e S. Bento. Mas, será esse o grande erro que o Governo corre o risco de cometer? Não me parece. Onde nós estamos a repetir os erros é na falta de preparação para o futuro próximo.

O confinamento não é só a resposta ao caos que se vivia nos hospitais, abre a possibilidade de recuperarmos o caminho perdido para o vírus. No entanto, à medida que se reduzia o número de casos, caía também o número de testes realizados. Apesar de várias vezes prometida, a alteração dos critérios de testagem ainda tarda a chegar ao terreno e estamos a testar muito menos do que os especialistas recomendaram. Em vez de aproveitar o confinamento para massificar os testes, o Governo perde tempo essencial.

A redução de novos casos permite recuperar o fôlego na realização dos rastreios epidemiológicos. No entanto, o rastreio de contactos ainda demora mais do que as 24 horas aconselhadas pela DGS e estamos longe de recuperar o controlo das cadeias de transmissão. A pandemia abrandou, mas o vírus ainda anda à solta sem que o Governo tenha aproveitado o confinamento para recuperar terreno.

Com o número de novos casos a cair, reduz-se rapidamente a pressão sobre os hospitais. Dos quase 6000 hospitalizados em enfermarias no início do mês, hoje estão ocupadas cerca de 2000 camas. Nas unidades de cuidados intensivos, depois de se atingir o número recorde de 904 doentes internados com covid-19, estamos quase a descer a barreira das 500 pessoas internadas. Ainda são números altos, é certo, mas tudo indica que em meados de março se esteja perto da meta das 200 pessoas em Unidades de Cuidados Intensivos. No entanto, com o alívio da pressão sobre os hospitais, não conhecemos ainda nenhum plano para recuperar a atividade programada que foi adiada. Respeitar o enorme esforço dos profissionais de saúde é preparar e organizar em vez de correr permanentemente atrás do prejuízo. Sobre o futuro próximo, o Governo continua a navegar à vista.

As escolas foram fechadas e não há plano para as reabrir, não foi dada prioridade à vacinação de docentes e não docentes, nem apresentado o caminho para a testagem em massa das comunidades escolares.

Com inúmeros setores da economia fechados ou com atividade reduzida, aumenta o número de pessoas no desemprego, instalam-se as desigualdades e a pobreza. O Governo pediu sacrifícios a milhões, mas está a falhar com os apoios para proteger as pessoas e a capacidade económica existente. Os apoios são parcos e sempre atrasados, deixam de fora pessoas e empresas que deviam ser protegidas. As moratórias de crédito, fundamentais neste período difícil, têm fim com data marcada, mas nenhuma solução que dê saída às famílias ou empresas. Até quando se adiarão as soluções?

Na declaração de ontem, Marcelo Rebelo de Sousa traçou pelo Governo a Páscoa como a meta para o desconfinamento. Como se verá, é critério político, não é científico. Mas, acima de tudo, fica a faltar o mais importante: o que fazer até lá, como preparar o desconfinamento, como garantir as respostas sociais e económicas necessárias? Resumindo, falta o planeamento: repetem-se os erros. O país está a cumprir com sucesso o confinamento e exige que o Governo cumpra também.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico