A perversidade e a ameaça da corrida às armas

A enormidade da despesa militar de 2020 não suscita apenas reflexão sobre as prioridades do mundo na alocação de recursos. Como a História comprova, a corrida às armas tem sempre o terrível condão de potenciar o seu uso.

Há muitas razões para a indignação sempre que se olha para a dimensão dos gastos mundiais com armas. Um título do jornal brasileiro Folha de S. Paulo revelava uma perspectiva que sublinha a imoralidade desses gastos: em cada dia de 2020, o mundo gastou mais dinheiro em mísseis ou granadas do que o Estado brasileiro investiu o ano inteiro no programa Bolsa Família. Ou, por outras palavras, a corrida às armas implicou o mesmo gasto, num dia, que todo o apoio que o Governo brasileiro deu, num ano, a 14 milhões de famílias em risco de miséria extrema. Não se trata de procurar no relatório anual do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, com sede em Londres, argumentos para a crença inocente na possibilidade de um mundo sem armas nem Exércitos: trata-se apenas de notar que o militarismo está de volta para expor com toda a crueza a injustiça do mundo e o risco do regresso dos grandes conflitos.

A potência que no ano passado representou 40% de todos os gastos militares, mais do que a soma dos gastos dos 14 países que se seguem, os Estados Unidos, é, sem dúvida, o motor maior da aceleração da corrida. Mas vale a pena temperar as somas astronómicas que gasta com o poder da sua economia – a compra ou desenvolvimento de armas representaram 3,55% da riqueza que produziu (PIB) em 2020, um valor que não tem parado de crescer desde que Trump chegou ao poder. Bem mais escandaloso é ver países pobres como o Mali gastarem 4,55%.

Há outros sinais perturbadores no retrato produzido pelo instituto britânico. A crescente agressividade na relação entre os Estados Unidos e a China reflecte-se no investimento que as duas potências fazem no seu aparelho militar. Os dois foram responsáveis por dois terços de todos os gastos de 2020. A China está ainda muito longe da despesa americana, investe menos em relação à sua riqueza nacional, mas, a par e passo, ganha um crescente protagonismo numa parte do mundo, o Sudeste da Ásia, onde os Estados Unidos são, por tradição, a potência dominante. A sensação de que os titãs se preparam para um choque é inevitável.

A enormidade da despesa militar de 2020 não suscita apenas reflexão sobre as prioridades do mundo na alocação de recursos. Como a História comprova, a corrida às armas tem sempre o terrível condão de potenciar o seu uso. Por uma e outra razão, o crescimento de 3,9% das despesas militares no ano passado justifica não só perplexidade ou indignação: suscita também natural preocupação.