Na Palavra de Viajante, os livros aguardam as suas ordens para viajar

“Aqui também se vendem sonhos”, escreveu um cliente sobre as portas fechadas desta que é a única livraria portuguesa dedicada aos livros de viagens. Celebra este ano uma década e parece resistir a tudo, até à falta de viajar. Em São Bento aguarda-se que as portas abram, mas, até lá, é encomendar para garantir que a Palavra segue em frente. Afinal, todos “queremos sempre viver um pouco daquilo que já vivemos lendo um livro”.

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Nuno Ferreira Santos
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Se num dia qualquer deste longo Inverno o leitor viajante der por si ali à beira da Assembleia da República e continuar São Bento fora, pare no número 34 – é mesmo à frente de uma das casas que acolheu Fernando Pessoa depois das suas viagens. Descontraia, deixe o 28 passar, leve os olhos a viajarem pela montra. Talvez dê por si tornado nómada no Deserto de Le Clézio, ou a navegar no Caderno de Todos os Barcos do Tejo, a envolver-se em memórias da neve e a escalar montanhas, a mergulhar em lagos balcânicos e a viver num ápice sete anos na Rota da Seda, ou partir em busca de pianos perdidos na Sibéria. Na Palavra de Viajante tudo é possível, há quase uma década que todas as viagens são possíveis. Tirando, por agora, uma, a mais simples de todas, tornada surrealmente impossível: cruzar a porta desta que é a única livraria especializada em literatura de viagens de Portugal e entrar. Assim, só os olhos entram e, lá dentro, quase uma Alice num País sem Livrarias, como se lê em manifesto na porta, está Ana Coelho na sua toca, arrumando livros como quem arruma continentes à deriva nas suas devidas lógicas. Cercam-na universos.

A livraria era um “sonho muito antigo”, “não sei se uma loucura”, dizia-nos Ana poucos dias depois de abrir as portas, com a amiga Dulce Gomes, em Outubro de 2011. Desses anos de Crise a estes anos de Crise, vai uma odisseia de resistência, de conquista de “clientes fiéis”, conta-nos agora, de “aprendizagens”, até de mudança de morada - abriu no prédio ao lado e depois mudou-se para um espaço que, por curiosidade, também teve antes nome viajante, mas estelar, o encerrado Café Spock, que lembrava o Star Trek. Hoje, confinada, a Palavra resiste sem visitas, num silêncio que parece de séculos, só metaforicamente contrariado pelos milhares de livros que se repartem sob as arcadas, cada canto seu continente. Há até um “oceano” simbólico, um poço histórico. Lá ao fundo, um auditório aguarda que regressem as conversas e apresentações. Ali numa esquina, a ilustradora Marta Teives deu asas à imaginação e recriou a Volta ao Mundo em 80 Dias que Vernes deu a Phileas Fogg e Passepartout.

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Sem quase podermos viajar, nem oito nem 80 dias, como resiste a Palavra? “Vivemos muito do boca-a-boca, mais do que qualquer outra forma de comunicação”, diz-nos Ana, enquanto pára uns segundos para ponderar: “Quase dez anos…”. Para “nenhuma livraria” a vida “é fácil”, para uma especializada por um lado é “mais difícil porque o mercado português não é muito grande”, mas também “facilita”: “Conseguimos congregar uma série de livros que normalmente não estão disponíveis noutras livrarias”, explica. Mas “os três primeiros anos foram de constante investimento” até o conceito se firmar. E este baseia-se sempre na conversa com os clientes leitores. Este “é um sítio de proximidade, em que se tenta sugerir, mostrar, mesmo sem a preocupação de vender, para que as pessoas saibam o que existe”.

Talvez por isso também a livraria desistiu, para já, de ter um site de vendas (tem agora um de divulgação). A “proximidade” é “difícil de conseguir online”, é preciso um frente a frente, uma conversa de viajante. Por outro lado, a concorrência de venda de livros online é feroz: numa altura em que as editoras e grandes sites comerciais vendem por vezes quase ao desbarato, é difícil para as pequenas livrarias independentes, a quem o espaço físico é mais do que casa, conseguirem concorrer. “Que futuro vamos construir? Um mundo onde a procura do lucro justifica tudo? Mesmo a consequente desumanização? Onde as relações entre as pessoas se fazem por intermédio de máquinas e de algoritmos?”, escrevia Ana Coelho num post recente no Facebook. 

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É nesta rede que a livraria vai comunicando com a sua comunidade. Ana publica (excelentes) textos sobre livros, há sempre quem ligue ou escreva a fazer encomendas. Até porque quem procura uma obra de viagens – ou em domínios paralelos, da História à ficção que nos transporta para outras geografias, sabe que é aqui que tem de aterrar. Mesmo livros que já podem ter desaparecido das livrarias em geral, inclusive online. “Mas falta-nos a proximidade, a conversa. E não só a proximidade dos clientes connosco, mas dos clientes com os livros. É muito importante poder pegar num livro que não se conhece”, diz Ana.

Enquanto o mundo gira parecendo parado, há sempre leitores que procuram livros “para continuarem a viajar na sua cabeça” ou para “planear viagens para os próximos ano”. Para já, durante a pandemia, Ana notou, “claro”, a grande procura por Portugal, pelas caminhadas e natureza – “há cada vez mais pessoas que viajam só para verem árvores”, pelas viagens de bicicleta. E gente a planear “o próximo ano”, “as viagens de sonho” – o Japão é muito desejado. Em novas edições, nota também uma tendência crescente de literatura da natureza, “especialmente de Inglaterra, os ingleses têm muita experiência no tema”.

E a livreira das viagens, para onde gostaria de ir viajar? “Há um sítio que gostava muito de ir e a que nunca irei, o Afeganistão. Já estão em guerra há tanto tempo que já não sei se vai ter fim”, lamenta. “Não podendo ir”, plano b: os vizinhos Tajiquistão e Uzbequistão. Naturalmente, tem andado a “ler muito sobre a Ásia Central. Mas também tem o sonho do Japão, “três ou quatro semanas”, o Sudoeste Asiático. Mas isto é tudo “depois”, são planos para um futuro potencial. Entretanto, “voltar aos Açores”, isso sim, porque só conhece São Miguel e isso não pode ser. Por agora, “vive” de memórias de São Petersburgo, onde foi no ano passado. “Essa cidade ainda me alimentou ao longo do ano, fui vivendo muito à custa das recordações dessa viagem.”

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Porque se há livros que nascem de viagens, obviamente também “há viagens que nascem de livros”. Para Ana, já houve muitas. Do Danúbio de ponta a ponta – seguindo a obra de Claudio Magris e onde ficou decidida a abertura da livraria há uma década –, à Rússia onde a levou toda a literatura russa que leu em jovem, a Odessa por causa d’ A Lebre de Olhos de Âmbar de Edmund de Waal, a Buenos Aires por ser “a cidade das livrarias por excelência”, ao País Basco por causa da Pátria de Fernando Aramburu ou mesmo a Medellín (Colômbia), porque descobriu a obra de Juan Gabriel Vásquez e foi atrás d’ O Barulho das Coisas ao Cair, longe do realismo mágico de García Márquez, mais próximo da vida numa cidade marcada pelos cartéis de droga. “Fui investigar e descobri as bibliotecas públicas criadas nos bairros mais problemáticos da cidade, cada uma desenhada por um grande arquitecto de nível mundial. Tinha de ir ver.”

Uma vontade natural nesta livreira que não consegue “conceber a vida sem ler um bocadinho todos os dias”, “uma daquelas pessoas que é capaz de estar a andar a pé e a ler ao mesmo tempo”: “Queremos sempre viver um pouco daquilo que já vivemos lendo um livro.”

E próximos planos? Sozinha na sua Palavra de terça a sábado, só quer “abrir as portas”. “Ainda no outro dia estava a queixar-me no Facebook de que as livrarias que só vendem livros não podem abrir e um cliente disse uma coisa tão bonita: ‘Mas a vossa também vende sonhos. Não é suficiente para abrir?’”.

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