Queda de 18,6% nas exportações empurrou PIB para recorde negativo em 2020

O INE reviu em baixa ligeira a variação do PIB no final de 2020, confirmando queda de 7,6% no total do ano. Investimento resistiu mais do que na última crise, mas exportações tiveram resultado bastante pior.

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Paulo Pimenta

O melhor desempenho do investimento e o contributo positivo da despesa pública não chegaram para compensar a quebra mais acentuada do consumo privado e principalmente a quebra a pique das exportações, fazendo com que a variação negativa do PIB português em 2020 fosse claramente mais acentuada do que a de 2012, o ano mais negativo da crise anterior.

O Instituto Nacional de Estatística (INE) confirmou esta sexta-feira que a economia portuguesa registou, durante o ano passado, uma contracção de 7,6%, o resultado mais negativo que é possível encontrar na série histórica do Banco de Portugal desde 1928.

Este número já tinha sido apresentado na estimativa rápida do PIB divulgada pelo INE no início deste mês. Em relação a essa primeira estimativa, a autoridade estatística reviu ligeiramente em baixa a variação em cadeia do PIB no quarto trimestre, de 0,4% para 0,2%, e a variação homóloga, de -5,9% para -6,1%, mas para o total do ano o valor apresentado não sofreu qualquer alteração.

Em relação aos dados publicados no início de Fevereiro, a informação nova divulgada pelo INE diz respeito à evolução das diversas componentes do PIB. E aqui, fica bastante evidente o contributo decisivo da queda das exportações e do consumo privado para o desempenho histórico negativo da economia no ano de 2020.

As exportações registaram uma queda anual de 18,6%, um valor que se destaca claramente do de anteriores crises. Para além de a quebra ser maior do que a registada (10%) em 2009 (o ano em que a crise financeira internacional fez travar os fluxos comerciais em todo o mundo), constitui também um contraste em relação à última grande crise da economia portuguesa, quando a troika foi chamada ao país. Em 2012, as exportações até cresceram, com uma variação de 3,1%, constituindo o único contributo para o PIB.

Agora, com as exportações de serviços, principalmente as de turismo, em forte queda, o sector externo não ajudou a economia, antes pelo contrário. As exportações caíram mais que as importações (18,6% contra 12%), fazendo com que a procura externa líquida contribuísse com três pontos percentuais para a quebra de 7,6% registada no PIB em 2020.

O outro grande factor negativo na economia no ano passado foi, sem surpresa, o consumo privado. Com as medidas de confinamento e os receios relativamente a uma quebra de rendimento a limitarem as compras dos portugueses, o consumo das famílias caiu 5,9%, uma variação negativa mais acentuada do que a registada em 2012, quando no meio das medidas de austeridade o consumo diminuiu 5,3%.

A diferença, pela positiva, do desempenho da economia face a 2012, vem do investimento. É verdade que este indicador também caiu, interrompendo a série de seis anos consecutivos que levava sempre a crescer, mas ainda assim a quebra de 4,9% registada é claramente mais moderada do que a diminuição de 17,4% que se verificou em 2012.

O crescimento de 4,8% registado no investimento em construção (que em 2012 tinha caído 20,1%) é a principal explicação para este resultado, que mesmo assim contribuiu para que o colapso da economia em 2020 não fosse ainda mais grave.

Outro contributo positivo veio do consumo do Estado. O sector público foi chamado, com a pandemia, a aumentar as suas despesas, seja para o reforço dos meios de combate ao vírus, seja para o apoio financeiro às empresas e famílias em dificuldades. A despesa das Administrações Públicas aumentou 0,5% em 2020, um resultado bem diferente do registado em 2012, em que ocorreu uma contracção de 3,6%, mas ainda assim menos que os 0,7% de 2019 e que os 0,6% de 2018.

No total, o contributo da procura interna (consumo privado, consumo público e investimento) para a quebra do PIB de 7,6% em 2020 foi de 4,6 pontos percentuais.