AL Mouraria lançam Com Vida como “sinal de esperança” em plena pandemia

O grupo algarvio AL Mouraria lança esta sexta-feira Com Vida, um disco que conta com as vozes de fadistas como Ana Lains, Cremilde, Joana Amendoeira ou Teresa Tapadas.

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O AL Mouraria, na formação actual: Teresa Viola, Tatiana Pinto, Bruno Vítor, Valentim Filipe, Paulo Ribeiro e Tiago Valentim DR

É um grupo que nasceu de um acaso, há quase 18 anos, mas desde então não tem parado. E a partir do Algarve, onde foi criado, tem corrido palcos e festivais pelo mundo. O seu mais recente trabalho, Com Vida, chega esta sexta-feira às plataformas digitais e às lojas e conta com as vozes de quinze fadistas: Ana Lains, Argentina Freire, Cremilde (referência maior do fado no Algarve), Filipa Carvalho, Filipa Sousa, Inês Gonçalves, Joana Amendoeira, Liliana Martins, Melissa Simplício, Sara Gonçalves, Tatiana Pinto, Teresa Tapadas, Teresa Viola, Vânia Leal e, único intérprete masculino nesta lista, Ricardo Anastácio. Interpretando temas originais assinados por Paulo Abreu Lima, Tiago Torres da Silva, Maria do Rosário Pereira ou Valentim Filipe (guitarrista e fundador do grupo) mas também clássicos como Veio a saudade (Carlos Ramos), Saudade vai-te embora (Amália), Fado dos sonhos (Manuel de Almeida), O ardinita (Fernando Maurício) e Em tudo na vida há fado (António Alvarinho).

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A capa do disco

Algarve e Mouraria

Tudo começou quando um empresário espanhol assistiu no Algarve, em Dezembro de 2002, a um espectáculo de fado promovido pelo guitarrista Valentim Filipe. Impressionado com sonoridades que para ele não tinham ligação ao fado, como o acordeão ou percussões, e como estava ligado à organização do Festival Músicas do Mundo, marcado para Agosto de 2003, desafiou o guitarrista a formar um grupo para participa nesse festival. Valentim Filipe ouviu-o, mas esqueceu o assunto. “É claro que nunca mais me lembrei”, recorda ele agora ao PÚBLICO. “Mas três ou quatro meses depois recebi um telefonema dele, a dizer que era mesmo para avançar e se eu arranjava o tal grupo. Só que não havia grupo. Então peguei em quatro elementos, um deles era até o [guitarrista] Ângelo Freire, na altura um miudinho, que estava a passar férias no Algarve e já tocava em tertúlias, e lá fomos.” Estavam anunciados como “Grupo de Fados Mouraria”, embora eles não lhes tivessem dado nome algum.

“A coisa correu muito bem e quando chegámos cá quisemos continuar com aquilo. Então, para dar nome ao grupo, escolhemos AL Mouraria: o ‘AL’, que é do Algarve, e deixámos o ‘Mouraria’ que ele inventou lá, não só porque ‘Mouraria’ é um bairro de Lisboa onde dizem que nasceu o fado, onde os mouros se refugiaram depois da tomada da cidade, mas porque também no Algarve existem várias localidades chamadas ‘Mouraria’, é uma terra de mouros.” E assim participaram noutros festivais e espectáculos, gravando os álbuns AL Mouraria (2005), Em Tudo Na Vida Há Fado ‎(2008), Fadinho A 2 (2010), Fado Tango (2014) e dois DVD. Até chegarem a Com Vida, gravado com a mesma formação de há dez anos (Valentim Filipe, guitarra portuguesa; Paulo Ribeiro, piano, acordeão, saxofone e clarinete; Tiago Valentim, guitarra clássica; Bruno Vítor, contrabaixo) mas com duas novas cantoras, Teresa Viola e Tatiana Pinto, que, de entre o grupo de fadistas convidadas, acabaram por se lhes juntar.

Um rapper entre fados

Houve também alguns músicos convidados: João Melro (percussões), Nuno Martins (viola e vozes), Rui Santos (vozes) e Subtil, um rapper que participou na canção Maria vai à fonte: “Fiz a música”, diz Valentim Filipe. “Chegámos ao estúdio, as ideias começaram a aparecer, e de repente surgiu um acordeão ali no meio, de um corridinho, a pedir um mandador de baile.” Andou à procura, até que acabou por encontrá-lo num rapper: “No fundo, o baile mandado é uma espécie de rap! Então convidei-o, foi lá pôr a voz e a malta adora aquilo.”

O disco já devia ter sido lançado em 2020, mas a pandemia foi adiando o lançamento até que, embalado pela abertura antes do Natal, o grupo resolveu programá-lo para este final de Fevereiro, esperando poder apresentá-lo ao vivo. O que viria a mostrar-se impossível com o agravamento da situação. Haverá um espectáculo, sim, mas em data ainda a anunciar.

Fica, para já, aquilo que o próprio título do disco sugere: “Inicialmente era Convida, com N, porque convidámos uma série de cantores e músicos. Mas, com a pandemia, quisemos mudar para Com Vida para mostrar que estamos vivos, que a vida continua. Quisemos dar assim um sinal de esperança. Mas o Convida continua lá, na leitura dessas duas palavras.”