Cientistas conseguem “entrar” em sonhos e obter respostas de quem dorme

Estabeleceu-se contacto em tempo real de dentro para fora do mundo dos sonhos lúcidos. As perguntas dos investigadores passavam a ser parte dos sonhos – houve quem as ouvisse a sair de um rádio ou numa sala de aula - e os “sonhadores” conseguiam responder no mundo real. A comunicação é difícil, mas não impossível. “É como tentar falar com um astronauta noutro mundo”, escrevem os cientistas.

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A investigação foi feita com pessoas que estavam conscientes de que estavam a sonhar Maeghan Smulders

Responder a perguntas de sim ou não ou fazer contas de somar não parece difícil – mas um grupo de voluntários conseguiu fazê-lo enquanto dormia, ao ouvir e compreender indicações que lhes eram dadas fora dos sonhos. Foi a primeira vez que se conseguiu estabelecer comunicação nos dois sentidos, para dentro e fora do sonho: são “sonhos interactivos”, como se lê num estudo publicado na revista científica Current Biology. “Mostramos que é possível apercebermo-nos e responder a questões complexas durante o sonho, e que os sonhadores conseguem responder correctamente a estas questões sem que soubessem previamente o que lhes seria perguntado”, referem os investigadores.

O estudo foi feito em quatro laboratórios (nos EUA, Alemanha, França e Holanda), com 36 participantes. Os investigadores descobriram que estes sonhadores conseguiam fazer contas simples de matemática (como “oito menos seis?”), responder a perguntas de sim ou não, e distinguir estímulos sensoriais – tudo isto enquanto dormiam. Para responder, usavam movimentos nos olhos, sorrisos, movimentos do rosto ou até padrões similares ao código Morse (no laboratório alemão).

Como explica o neurocientista Ken Paller ao PÚBLICO, “as pessoas não conseguem falar ou mexer os seus corpos durante o sono REM”, daí que os voluntários adormecidos tenham usado estes sinais. O REM (rapid eye movement, movimento rápido dos olhos) corresponde à fase do sono mais associada ao sonho em que, como o nome indica, os olhos se movimentam rapidamente. Nesta fase, há paralisia de quase todos os músculos, mas o cérebro fica num estado activo.

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O participante Christopher Y. Mazurek e os sinais eléctricos produzidos enquanto dormia Universidade Northwestern/C. Mazurek

“Descobrimos que os indivíduos no sono REM conseguem interagir com o investigador e comunicar normalmente em tempo real”, afirmou Ken Paller, da Universidade Northwestern (Illinois, EUA), que é um dos autores do estudo.

É como tentar falar com um astronauta noutro mundo, escrevem os cientistas. “Mas, neste caso, o mundo é fabricado inteiramente com base nas memórias armazenadas no cérebro.”

Neste caso, os cientistas decidiram comunicar com pessoas que estavam num estado de sonho lúcido, um “fenómeno raro” em que é conservado algum grau de consciência ou controlo consciente durante o sono. O filósofo grego Aristóteles foi um dos primeiros a escrever sobre este tipo de sonhos. Segundo um estudo de 2016, cerca de 55% dos adultos dizem já ter tido pelo menos um sonho lúcido na vida. Das três dezenas de participantes, um deles tinha narcolepsia e sonhos lúcidos frequentes. Outros tinham também sonhos lúcidos com frequência, outros nem tanto – o critério era lembrarem-se de, no mínimo, um sonho por semana.

Ainda com os voluntários acordados, os investigadores começavam por explicar o que eram os sonhos lúcidos e indicaram que lhes iriam dar pistas através de palavras, sons, luzes ou o bater dos dedos. Era pedido aos sonhadores que tentassem assinalar o momento em que entravam num sonho lúcido, ao mover os olhos de uma forma específica: mexer três vezes para a esquerda, por exemplo. Assim que adormeciam, os cientistas monitorizavam a sua actividade cerebral, o movimento dos olhos e as contracções musculares no rosto.

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O participante Christopher Y. Mazurek antes de uma sessão de sono. Os eléctrodos são para medir os seus movimentos faciais enquanto dorme Universidade Northwestern/C. Mazurek

Das 158 perguntas feitas aos sonhadores, foram obtidas 18,6% de respostas correctas. Só 3,2% eram respostas erradas, 17,7% eram respostas dúbias. Na maior parte dos casos (60,8%), não era dada qualquer resposta. Como mostram estes dados, a comunicação é difícil – mas não impossível.

Depois de acordarem, era-lhes pedido que contassem o que tinha acontecido nos seus sonhos. Alguns lembravam-se até das perguntas feitas e, num dos casos, o participante disse que a pergunta tinha saído de um rádio num carro. Para outros, parecia ser uma voz a narrar os seus sonhos “como se fosse um filme”. “Estava a lutar contra duendes quando senti o sinal feito com o toque dos dedos. Lembro-me de ficar surpreendido por conseguir fazer tantas coisas ao mesmo tempo”, relatou um dos participantes. Ken Paller diz que outra das participantes sonhou que estava a meio de uma aula de matemática.

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Os sinais da electroencefalografia do participante Christopher Y. Mazurek. O ziguezague das linhas vermelhas mostra os movimentos dos olhos ao indicar que estava a sonhar e a resposta "dois" à pergunta "quanto é oito menos seis?" K. Konkoly (animação feita por J. Stoughton)

As informações dadas durante o sono eram sempre “novidade”, perguntas que não tinham sido mencionadas antes. Este estudo levou os investigadores a “inferir que os participantes preservaram várias das suas capacidades cognitivas enquanto dormiam”: lembravam-se das instruções dadas antes de adormecerem, aplicaram-nas enquanto recebiam informações novas e respondiam externamente às questões; e faziam uso de operações de memória para resolver problemas matemáticos e responder sobre memórias das suas vidas.

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A investigadora Karen Konkoly Universidade Northwestern/K. Konkoly

Além da universidade norte-americana, foram feitas experiências de forma independente na Universidade Sorbonne (França), na Universidade Osnabruck (Alemanha) e no Centro Médico da Universidade de Radboud (Holanda). “Decidimos juntar os resultados porque parece que a combinação de quatro laboratórios independentes que usam técnicas similares confirma a realidade deste fenómeno que é a comunicação nos dois sentidos”, refere a autora Karen Konkoly, da Universidade de Northwestern. “Desta forma, conseguimos perceber também que podem ser usadas diferentes meios para comunicar.”

O neurocientista Ken Paller diz que os sonhos lúcidos podem ter alguns riscos – que ainda têm de ser investigados – e que algumas pessoas que têm estes sonhos “sentem que é um sono menos sossegado”. Ao longo desta investigação desenvolveu-se um método para facilitar que as pessoas consigam ter sonhos lúcidos – que está disponível numa aplicação (em inglês e só para Android), para qualquer pessoa experimentar em casa. São só precisos 20 minutos de “treino” antes de adormecer. 

muito ainda por explicar no mundo científico dos sonhos. A própria memória que temos dos sonhos é pouco confiável: “Quase tudo o que sabemos sobre sonhos baseia-se nos relatos da pessoa já acordada e podem estar deturpados”, com partes esquecidas, disse à revista Science Karen Konkoly. Já se sabia que comunicar num sentido era possível – como integrar o som do despertador no sonho –, mas noutros estudos a comunicação só era feita posteriormente, com os participantes já acordados.

O estudo também dá a entender que é possível aprender durante o sono, já que os participantes acordaram a saber informações externas ao sonho que não possuíam antes de adormecerem. No futuro, este método pode ser útil para ajudar a tratar o trauma, a ansiedade e a depressão.