Num mundo repleto de competências técnicas, quem tem personalidade vence

Na minha opinião, num mundo em que tudo é competências técnicas, quem tem a personalidade certa certamente vingará. Cada vez mais, o mercado procura colaboradores com mente aberta e prontos a aprender tarefas e funções complementares à sua posição-base na empresa.

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Se a volatilidade, instantaneidade e rápido crescimento quer a nível tecnológico, quer a nível intelectual vinham a ser demarcadas já há alguns anos, a pandemia mundial de covid-19 que estamos a atravessar veio intensificar todas estas características, encaminhando-as mesmo para níveis extremos. Em instantes, os processos e ferramentas utilizadas tornam-se obsoletos porque o teletrabalho obriga a diferente monitorizações, porque o mercado mudou, porque o perfil do consumidor adaptou-se e as organizações querem e têm, igualmente, de se adaptar. As competências técnicas que eram tidas como essenciais e primordiais para o desempenho de determinada função mudam e as empresas vêem-se numa equação: ou contratam profissionais qualificados para as novas tarefas e funções ou oferecem formação aos seus funcionários, qualificando-os.

Nesta linha de pensamento, e pegando no último tópico a discussão, nos períodos de confinamento foram vários os colegas e amigos que vi submetidos a tirar cursos e formações suplementares online (na verdade, também eu aderi a esta “moda”), redes sociais bombardeadas de imagens dos novos diplomas recebidos, dia após dia. Instalou-se uma necessidade de se ser muito formado, com uma data de qualificações, diplomas e certificados. Tentar mostrar o máximo de competência em diversas áreas, também porque os jovens formados prevêem uma alta competitividade por lugares de trabalho que irá advir da crise económica que se irá instalar face à presente pandemia.

Este facto acarreta umas outras quantas problemáticas. Instala-se a crise do perfeccionismo (que já vinha continuamente a crescer há diversos anos) que leva a uma ansiedade constante, a estados depressivos, devido à percepção de insuficiência por parte de indivíduos. Nisto questiono-me: será mais importante para uma organização contratar apenas pelas qualificações e competências técnicas adquiridas ou um perfil com formação suficiente, mas com uma capacidade proactiva e adaptativa exemplar?

Perante situações imprevisíveis, as empresas, tal como a presente pandemia, precisam, na minha opinião crítica, de colaboradores resilientes, com vontade de fazer mais e melhor, de se reinventarem, abertos a aprenderem novas funções e tarefas. Colaboradores que sintam e identifiquem com a cultura e propósito organizacional. “Ser é melhor do que ter” foi a frase que constantemente ouvi durante os meus tempos de infância, enquanto me definia enquanto pessoa. Ainda hoje considero que os valores e as características que me definem e me fazem ser a pessoa e funcionária que sou são os meus pontos fortes. Competências também as tenho e terei sempre de as ir constantemente adquirindo, mas aquilo que está dentro de mim, quer na vida pessoal, quer na profissional, não se compra, não se estuda, apenas se instala face à personalidade de cada e os valores base fornecidos na educação.

Com isto, não quero ser mal interpretada. Apoio e sempre apoiarei a formação constante, a vontade de fazer e saber mais. A questão não está no potencial da formação; está no potencial que um determinado perfil apenas visualizado pelas suas características intrínsecas, valores e personalidades pode ter como catalisador do sucesso de uma organização face ao mundo VUCA (Volatility, Uncertainty, Complexity, and Ambiguity).

Na minha opinião, num mundo em que tudo é competências técnicas, quem tem a personalidade e características indicadas certamente vingará no mercado de trabalho, que cada vez mais procura colaboradores com mente aberta e prontos a aprender tarefas e funções complementares à sua posição-base na empresa. Acredito que cada vez mais este ponto será valorizado no contexto organizacional e conjuntamente com o fit organizacional poderá ser uma estratégia de recrutamento eficiente por parte das empresas, principalmente aquelas que têm meios para oferecer formação complementar.

Ser antes de ter. Sempre. Considero que será o caminho para o equilíbrio. Quer para as empresas que penso que poderão retirar com isto um maior potencial para o sucesso organizacional, tal como a nível pessoal de cada colaborador, que aumenta o espírito de pertença à empresa, de satisfação, felicidade e realização, diminuindo a constante ansiedade de querer ter e ser o perfeito.

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