Ser estudante universitário em tempos de pandemia

Lamento que se tenham fechado estabelecimentos de ensino, devidamente preparados com rígidos protocolos sanitários que garantem, na grande maioria das vezes, a segurança de todos os agentes educativos, quando o verdadeiro problema residia em factores que apenas, e ocasionalmente, lhes estavam indirectamente associados.

Foto
PAULO PIMENTA

Caminhamos a passos largos para os 365 dias de covid-19 em Portugal e o impasse económico e social continua a arrastar consigo a educação num regime digital. Para os estudantes universitários, e principalmente para os caloiros, os tão prometidos “melhores anos da tua vida” tardam em chegar. Mas de uma coisa tenho a certeza, este está a ser “o melhor confinamento da minha vida”.

Quando, no ensino secundário, me anteciparam três anos de ensino superior inigualáveis, nunca imaginei que viessem a ser ímpares, mas pela negativa. Aquilo que podia fazer deste ano lectivo único, nomeadamente a praxe, os convívios para espairecer depois das aulas, as saídas à noite ou a descoberta de uma nova cidade e de novas realidades, tudo isso tem falhado até ao momento.

No entanto, quando em Julho peguei no meu computador e me candidatei à licenciatura de Gestão no Instituto Superior de Economia e Gestão, em Lisboa, já tinha comigo a perfeita noção de que nada seria fácil. Mas, se achava que a adaptação à nova faculdade seria o mais difícil, estava redondamente enganado. Nesse capítulo da hospitalidade, no meu ponto de vista, o ISEG segue destacadíssimo. Desde todos os meus colegas que agora frequentam o segundo ano na escola até aos que ocupam os últimos anos de mestrado, passando pela sempre pronta disponibilidade dos vários docentes, a verdade é que o espírito de entreajuda que sempre demonstraram me faz perceber que fiz a escolha certa.

Que todos os problemas fossem a integração social. Nesse aspecto não me posso queixar, uma vez que, também auxiliado pelas redes sociais, já antes do início das aulas conhecia alguns colegas. No entanto, tenho plena consciência das dificuldades que outros alunos têm vindo a sentir: chegados a um novo local, longe das suas famílias e amigos, onde não conhecem praticamente ninguém nem lhes é possível conhecer, dada a obrigatoriedade do uso de máscara. Nesses casos, tudo se resume a uma palavra: “solidão”. Ou então duas: “solidão” e “desistir”.

Felizmente, para a maioria dos alunos o principal problema reside no modelo de ensino actualmente em vigor devido ao estado de emergência, nomeadamente no facto de as aulas serem exclusivamente online. No meu caso, por exemplo, que frequento uma licenciatura que se baseia principalmente no cálculo, sinto que, por vezes, é difícil ter um estudo muito mais virtual e autónomo, tendo a necessidade de aulas práticas presenciais. Do mesmo modo, também a realização de trabalhos de grupo exclusivamente através de videoconferências tem vindo a ser sinónimo de maiores dificuldades no planeamento e na discussão conjunta e, por conseguinte, no alcance de projectos finais de maior qualidade. Ainda assim, se para mim é notório um acentuar das dificuldades, o que dirão os estudantes do ensino artístico e profissional, por exemplo, onde a componente prática adquire um papel fundamental no processo educativo?

No que diz respeito ao meu quotidiano, todos os dias acordo 40 minutos antes da hora de início das aulas. Embora o pijama seja uma tentação, a verdade é que tento vestir algo de forma a sentir que me estou a preparar para ir para a faculdade. Até a dor de costas provocada pela cadeira em que passo nove horas sentado me faz relembrar o peso da mochila. O próximo passo é fazer da minha secretária o pátio das francesinhas do ISEG, mas, logo que ligo o computador e vejo letras em vez de caras, toda a minha moral é deitada por terra. Se assim o é para mim, o que sentirão os professores?

Apesar de tudo, se me perguntarem se acho que, juntamente com outras medidas, o fecho das escolas e faculdades foi necessário, eu prontamente responderei que sim. Aliás, tem sido visível o impacto dessas decisões nos números diários da pandemia em Portugal. Apenas lamento que se tenham fechado estabelecimentos de ensino, devidamente preparados com rígidos protocolos sanitários que garantem, na grande maioria das vezes, a segurança de todos os agentes educativos, quando o verdadeiro problema residia em factores que apenas, e ocasionalmente, lhes estavam indirectamente associados: transportes públicos lotados, ajuntamentos nos espaços contíguos às escolas, etc.

Devido à inconsciência de uns e consciência de outros, a verdade é que, hoje, nós, alunos, nos encontramos todos em casa: impedidos de estabelecer relações afectivas; sujeitos às desigualdades no acesso à alimentação, bem como à tecnologia necessária ao ensino online; sujeitos a ter de realizar melhorias de classificações de cadeiras do primeiro semestre apenas em Setembro de 2021; e sujeitos a perturbações no campo da saúde mental, não sabendo a maioria dos alunos, nomeadamente do ensino superior, a quem recorrer para expor os seus problemas.

Na verdade, só pedia que este fosse um ano lectivo “normal”. Não só porque essa normalidade não incluiria uma pandemia que diariamente nos insiste em afligir, mas também porque enquanto caloiro sinto necessidade de sentir o espírito académico sem filtros, sem máscaras.