A liberdade de expressão está a passar por arame farpado

Tínhamos por garantido, nas democracias, que a liberdade de expressão, integrando o núcleo de direitos fundamentais, fosse intocável. Não antecipávamos que um valor tão importante fosse atacado como o está a ser em várias frentes.

Tóquio, fevereiro de 2021, flash interview do presidente do comité olímpico japonês Yoshiro Mori, saído de reunião com o Comité Olímpico Internacional. Em discussão, o aumento da quota de participação feminina no comité nacional japonês, até 40%. Perguntado sobre este ponto da agenda, Mori respondeu que se o número de membros executivos femininos aumentar e se o seu tempo de palavra não estiver limitado em certa medida, teremos dificuldades para terminar, o que é irritante. É preciso regular o tempo de uso da palavra até certo ponto, ou então nunca seremos capazes de terminar.” Ninguém quis saber se a opinião de Mori impediu o aumento da quota feminina no comité japonês, nem isso importava nada! O politicamente correto foi pisado, polémica servida, era só esperar o castigo.

Curiosidade: na direção executiva do Comité Olímpico Internacional (COI), num total de 15 elementos, apenas cinco são mulheres. Nunca uma mulher foi presidente. Tão exemplar em paridade, não admira que o COI exigisse mais quota feminina ao comité olímpico japonês.

Acontece que Yoshiro Mori, 83 anos, fez-se adulto numa época em que a liberdade de expressão só tinha como limites os direitos dos outros e a integridade do Estado. Ao dizer o que pensava, não sendo hipócrita, prefigurou que a sinceridade, valor do carácter, era o que se esperava dele. Estava redondamente enganado. Não tardaram os dardos de críticas e censura! Ainda experimentou uma explicação, não quis diminuir as mulheres, enquanto recitava mea culpa, mea maxima culpa. Tudo em vão, pois o clamor universal não parou enquanto não foi executado o castigo apropriado a estes casos: demissão a pedido próprio, cabeça baixa de vergonha, saída pela porta do fundo, mãos atrás das costas.

De nada lhe valeu a avançada idade, experiência e passado de dedicação à causa pública em elevadas funções de Estado que pontualmente foi chamado a desempenhar. De nada lhe valeram as muitas e elevadas condecorações recebidas de vários Estados, incluindo a Legião de Honra francesa, pela sua notável contribuição para o estabelecimento de relações pacíficas entre os povos! Ousar pensamentos e palavras contrários ao cânone vigente do politicamente correto merece punição exemplar, para que conste! E só não lhe exigiram harakiri porque não queriam sangue na sala do comité.

É preocupante que o sr.  Mori não possa expressar, no contexto em que o fez, o que pensa da loquacidade feminina e do potencial competitivo das mulheres e de como essas virtudes podem refletir-se no prolongamento de reuniões diretivas. Como é óbvio, o bom funcionamento de um órgão colegial dependerá mais das qualidades pessoais dos seus membros do que do preenchimento de quotas de género.

Contudo, o sr. Mori expressou uma opinião, certamente fundada na sua experiência. O que disse é ofensivo? Não parece. Ser falador e competitivo não são defeitos mas sim características, positivas ou negativas, conforme as circunstâncias e em todo o caso não exclusivas das mulheres. Quando são das mulheres, configuram o sortilégio, a cor e a alegria que o feminino espalha à sua volta, diminuindo o cinzentismo da formalidade estrita.

Tínhamos por garantido, nas democracias, que a liberdade de expressão, integrando o núcleo de direitos fundamentais, fosse intocável. Não antecipávamos que um valor tão importante fosse atacado como o está a ser em várias frentes. Vislumbra-se em franco progresso um novo Index (catálogo dos livros proibidos pelo Vaticano aos católicos, abolido em 1966), agora como rol de palavras, de tópicos e de pensamentos não permitidos. É um Index não escrito e nem precisa de o ser porque a comunicação instantânea dos tempos modernos liga, organiza e faz intervir em segundos, em qualquer lugar do mundo onde o achem necessário, os mais implacáveis zelotas. A sua arma é a censura contundente, replicada no espaço de comunicação mundial, zunindo como chicote, até ao banimento total do visado.

Vimos constatando que quem contrariar publicamente o cânone, o pensamento e a palavra oficializada pelo “politicamente correcto” sobre feminismo, minorias étnicas e sociais, direitos dos animais, causas fracturantes em geral, expõe um impedimento impediente para o exercício de cargos públicos, de forma que, aquele que os deseje exercer e pensar ligeiramente diferente, ou não abre a boca, ou acabará escorraçado, não sem antes fazer público ato de contrição.

Enquanto isto, pela Europa fora, os extremos políticos fortalecem-se e os centros moderados encurtam-se. A racionalidade e a temperança estão out. Perpassa pela sociedade uma forte pulsão de confronto e um inebriante prazer na violência e no choque. Lideranças populistas de direita e de esquerda estão excitadas, observam-se mutuamente nas trincheiras respetivas, cronometrando o tempo para o assalto.

No presente, a subida ao estrelato político nos populismos recruta-se entre influencers, uma nova profissão exercida nas redes sociais. Na semana passada, em Espanha, uma adolescente instagramer, de camisa azul legionária, lábios “rouge infer”, eyeliner feito a tira-linhas, discursa forte e com convicção, de braço estendido num cemitério, em homenagem à franquista “Divisão Azul” que combateu ao lado das tropas nazis. Afirma-se apaixonada pelo fascismo desde os 13 anos, porque, segundo diz, como sempre ouvia abominar esta ideologia, decidiu estudá-la e achou-a o melhor que há para resolver todos os problemas da sociedade. Despreza a direita política estabelecida e em breve terá milhares de seguidores porque parece ser proficiente na aplicação do manual “Kardashian" de marketing e publicidade.

Noutro plano, mas ainda no campo da liberdade, transmutam-se atos criminais sancionados com penas, em comportamentos de martírio pela liberdade de expressão política, do mesmo passo que se sustenta uma liberdade de expressão artística absoluta, como cobertura para insultar, manifestar ódio por tudo e todos, apologizar a violência e o assassinato à bomba.

Em paralelo e competindo por atenção máxima no espaço mediático, estão os militantes da obliteração histórica e do mea culpa perpétuo pelo passado. Não param de exigir às gerações atuais que arrasem todos os símbolos/imagens memorialistas do antigamente, a par com a sugestão da prática de uma flagelação coletiva perene, que não nos dê sossego, como se o mal passado pudesse ser apagado e mitigado pelo sofrimento das gerações presentes que não o praticaram e já o condenaram.

A liberdade de expressão está a passar por arame farpado e começa a sangrar.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico