Disputas entre gangues de droga nas prisões do Equador fizeram 79 mortos

A disputa entre narcotraficantes equatorianos originou um dos confrontos mais violentos de sempre nas prisões do país. Superlotação, má gestão e falta de pessoal nas prisões são causas indiretas dos motins.

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79 prisioneiros morreram em motins ocorridos em três prisões no Equador, 24 de Fevereiro de 2021. VICENTE GAIBOR DEL PINO/Reuters
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Familiares dos reclusos aguardam à porta da prisão de Guayaquil, 24 de Fevereiro de 2021. SANTIAGO ARCOS/Reuters
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Os familiares dos reclusos choram os seus mortos à porta da prisão de Guayaquil, 24 de Fevereiro de 2021. VICENTE GAIBOR DEL PINO/Reuters

Um motim de gangues de narcotraficantes em três prisões no Equador provocou 79 mortos na terça-feira, segundo os serviços prisionais. As autoridades dizem ter a situação controlada, embora tenham avisado na quarta-feira à noite que esperavam mais confrontos.

O resultado da violência foi 79 mortos, 18 deles encontrados desmembrados numa das prisões, e alguns polícias feridos, nos estabelecimentos prisionais de Cuenca, Guayaquil e Latacunga.

“A situação está sob controlo”, declararam as autoridades do serviço prisional equatoriano, citadas pela Reuters, referindo-se à operação que envolveu cerca de 800 polícias nas três cadeias.

Os motins ocorreram simultaneamente e foram usadas armas feitas à mão, pelo que as autoridades acreditam que foram “organizados a partir do exterior e orquestrados internamente por aqueles que disputam a liderança e tráfico de droga em todo o território nacional”, segundo declarações do Presidente Lenin Moreno à televisão equatoriana.

Como as autoridades não excluíram que possa haver um novo motim na prisão de Guayaquil, o estabelecimento prisional mantém-se em estado de alerta.

As rivalidades entre os gangues de droga não são uma realidade recente, tendo o país declarado em 2019 que o seu sistema prisional se encontrava em estado de emergência. Mas os conflitos que eclodiram esta semana trouxeram uma vez mais à luz as disputas entre os gangues pela liderança e o reduzido controlo que as penitenciárias têm sobre os seus reclusos, principalmente pela falta de funcionários e, por outro lado, pela sua sobrelotação.

Em estabelecimentos que oficialmente só suportam 27 mil reclusos, o Equador chega a juntar mais do que 38 mil. E além disso, como diz o professor de Ciência Política no Brooklyn College, Mark Ungar, que investigou as prisões na América Latina e foi ouvido pela Associated Press, as prisões “põem repetidamente membros de diferentes gangues dentro da mesma instalação”, o que alimenta ainda mais as tensões.

A falta de organização e controlo por parte dos guardas prisionais também se reflecte na grande quantidade de negócios que ocorrem no coração das prisões, havendo “um pouco de tudo: drogas, armas, até mesmo cães pequenos”, como disse à AFP Daniela Soria, um dos familiares de reclusos que se juntaram à porta das prisões na quarta-feira a aguardar informações.

O principal motivo que levou aos motins de terça-feira remonta a Dezembro de 2020, quando o líder de um dos gangues mais respeitados, Los Choneros, foi assassinado num supermercado pouco tempo depois de ter sido libertado. Mas as autoridades dizem que também as buscas por armas e droga levadas a cabo no início desta semana contribuíram para incitar a violência.

A Procuradoria-Geral do Equador afirmou que vai abrir uma investigação para analisar o sucedido, de acordo com a Reuters, sendo que até a Amnistia Internacional se manifestou num comunicado de imprensa na quarta-feira a solicitar uma investigação “cuidada” e “independente”, referindo que “as autoridades equatorianas não podem fugir à sua responsabilidade atribuindo os acontecimentos apenas a disputas entre organizações criminosas”.

Texto editado por Ana Gomes Ferreira