Os factos de Marcelo e o fato sem salvação de Santana

O “fato” ortográfico de Santana está há muito no fio – e não há remendo que o salve.

Muito antes de imaginar que viria a ser Presidente da República (feito que bisou), Marcelo Rebelo de Sousa foi conhecido como “criador de factos políticos”, tarefa que desempenhou afincadamente a partir de vários jornais, para gáudio de uns e desespero de outros. Já Pedro Santana Lopes, politicamente formado no mesmo PPD (hoje PSD) que Marcelo, viria a ser conhecido pela criação de um “fato” ortográfico: o acordo assinado na Ajuda em 1990.

E “fato” porquê? Porque foi ele quem escreveu, em 2012: “Agora ‘facto’ é igual a fato (de roupa).” Acrescentando, em defesa deste raciocínio: “Mas também ‘caso’ (de Justiça) é igual a ‘caso’ (do verbo casar) e ‘falta’ (no desporto) é igual a ‘falta’ (de carência). E nem vale a pena falar do que os nossos avós tiveram de se habituar, para deixar de escrever ‘pharmácia’, palavra com tantas tradições.” Se fosse ao dicionário, teria milhares de exemplos, tantas são as palavras com dois, três ou mesmo dezenas de significados, no português como noutras línguas.

Mas o que levou Santana a vestir aquele “fato” foi a defesa do acordo ortográfico (AO90) no qual se empenhou. Num artigo publicado em 14/2/2012 no semanário Sol, Santana insurgia-se contra o facto de Vasco Graça Moura “desrespeitar” o AO90 na Fundação das Descobertas: “Não é aceitável”, dizia. E dava exemplos de como se escrevia no século XIX, afirmando que “a língua mudou e a pátria […] não acabou”, numa bizarra confusão entre língua e escrita. Depois puxava lustro aos seus botões, garantindo que foi Cavaco quem lhe entregou a tarefa de “negociar e assinar o Acordo Ortográfico”: “A este propósito, Cavaco Silva foi peremptório: em seu entender, o Acordo Ortográfico era essencial para que, no século XXI, o português falado em Portugal não ficasse com um estatuto equivalente ao do latim.” É curioso que nem Cavaco escrevia no dito acordo. Em casa, escrevia “à antiga”. Depois… “traduziam-no”.

Só Cavaco? Não, Santana também continuou a escrever sem vestir o “fato” novo. O seu artigo no Sol, embora publicado em 2012, era escrito na grafia de 1945. E com esta explicação, de incomensurável descaramento: “Eu não escrevo os meus textos com a nova grafia porque ainda não o decidi fazer.” (?!) Fê-lo mais tarde, quando quis puxar as orelhas a Marcelo depois de o ter tentado fazer a Graça Moura. Sob o título “Os Presidentes também erram”, desta vez no Correio da Manhã (3/5/2016), Santana atirava-se a Marcelo por este ter posto em dúvida, numa visita oficial a Moçambique, a utilidade do AO90. E até terminava o artigo com esta gracinha: “Qualquer mudança de posição nesta matéria mereceria uma ponderação, um cuidado e uma sabedoria diplomática exemplares para Portugal não ficar mal na foto... grafia.” Na verdade, por mais “fatos” que experimente, é Santana quem fica sempre mal nesta foto… ortografia.

Primeiro, facto não é igual a “fato”, a não ser na grafia brasileira. Ele próprio o reconhece, na recente carta de despedida do partido que fundou, “A Aliança e eu”, ao escrever quatro vezes “facto” e nenhuma “fato”. Além disso, para quem se bateu também por essa inutilidade que é o AO90, Santana mostra-se nessa mesma carta ignorante das regras do palimpsesto que nos fez engolir: a par de acordismos avulsos (“atuais”, “projeto”, “aspeto”, “exceto”, “redações”), escreve “recta” com C em vez de “reta”; ignora os novos ditames do hífen ao escrever “anti-sistema” e “anti-políticos”; ou mesmo os antigos, escrevendo “cabeça-de-lista”, que não tem hífen em qualquer das normas, à semelhança de “cabeça de cartaz”; e grafa todos os meses citados, e são muitos, com maiúscula (Janeiro, Maio, Julho, Agosto, Setembro, Dezembro), quando no acordo que se orgulha de ter assinado passaram a ser, claramente, sem maiúscula.

Distracção? Não, ignorância. Três décadas após a assinatura do AO90, nem um seu defensor e arauto como Santana Lopes sabe escrever com ele! E os que pensam que sabem vão escrevendo numa mixórdia de grafias ou até inventando, por excesso de “zelo”, palavras tão lindas como “tenologia”, “ténica”, “abruta”, “compato”, “inteletual”, “nétar”, adatação”, “corruto”, oção”, etc., começando até (oh extraordinária evolução!) a transpor para a fala várias das aberrações que escrevem, o que talvez torne realidade o disparate de dizer que “a língua mudou”. O facto é este: o “fato” ortográfico de Santana está há muito no fio – e não há remendo que o salve.