“Brexit”: dois em cada três fornecedores sofreram atrasos nas importações para o Reino Unido

Resultados de um inquérito a 350 gestores de empresas exportadoras e importadoras apontam para agravamento dos obstáculos nas fronteiras externas britânicas no último mês. UE e Reino Unido continuam sem acordo sobre a questão irlandesa.

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Porto de Dover (Inglaterra) é um dos principais pontos de entrada e saída de produtos do Reino Unido PETER NICHOLLS/Reuters

Um estudo publicado esta quarta-feira pelo Chartered Institute of Procurement & Supply (CIPS), que envolveu a participação de 350 gestores de empresas de mercadorias britânicas concluiu que os atrasos e os obstáculos à entrada e saída de produtos de e para o Reino Unido se agravaram em Fevereiro.

Segundo o inquérito, dois em cada três fornecedores – 63% dos inquiridos – sofreram atrasos de pelo menos dois a três dias para importarem produtos para o território britânico. Um inquérito semelhante, realizado há cerca de um mês pelo CIPS, colocava esta percentagem nos 38%.

O cenário é menos prejudicial para as exportações para a União Europeia, embora haja 44% de gestores que apontaram esses mesmos atrasos de dois ou três dias.

Por outro lado, o estudo também conclui que 58% das empresas consideram que as demoras nas fronteiras externas do Reino Unido têm vindo a tornar-se mais longas, em comparação com o início do ano – quando chegou ao fim o período de transição do “Brexit”.

Nos termos do novo acordo de parceria política e económica alcançado entre a União Europeia e o Governo britânico, a isenção de taxas aduaneiras às transacções comerciais entre os dois blocos mantém-se.

Ainda assim, e uma vez que o Reino Unido decidiu abandonar o mercado único europeu – pondo fim à liberdade de circulação de pessoas e bens –, os veículos de transporte de mercadorias não podem entrar ou sair do país sem serem inspeccionados e sem apresentarem a nova documentação exigida por lei. 

De acordo com a maioria dos inquiridos, o tempo despendido no tratamento e avaliação da burocracia é apontado como o principal motivo dos atrasos nos postos fronteiriços.

Escassez e inflação

John Glen, economista do CIPS e professor convidado na Cranfield School of Management, acredita que a tendência de atrasos e problemas nas fronteiras será para manter. E não exclui um cenário de escassez de determinados produtos.

“O que é mais preocupante é que os atrasos continuam a aumentar, colocando cada vez mais pressão nas cadeias de fornecimento do Reino Unido e afectando a entrega atempada de produtos muito necessários”, considera Glen, em declarações reproduzidas pelo site do CIPS. 

“A papelada exigida na fronteira não vai mudar nos próximos tempos, por isso devemos preparar-nos para que estas demoras continuem, pelo menos, nos meses mais próximos”, acrescenta. “O impacto dos atrasos vai afectar as cadeias de abastecimento e, em última análise, provocar ruptura de stocks e preços inflacionados para os consumidores”. 

Um das críticas apontadas pelo universo sindical e pelas associações empresariais e industriais ao Governo de Boris Johnson está relacionada com o pouco tempo dado às empresas para se adaptarem às novas regras.

“A inexistência de qualquer período de transição é uma das razões para as dificuldades práticas que se estão a sentir”, defendeu a Associação da Indústria Farmacêutica Britânica (ABPI), num relatório entregue na semana passada a uma subcomissão do parlamento da Escócia, citado pelo Guardian.

A saída do Reino Unido da União Europeia foi oficializada no dia 31 de Janeiro do ano passado. Entre o final desse dia e o final de 2020, esteve em vigor um período de transição, durante o qual os britânicos continuaram a ter todos os direitos e deveres de um Estado membro do mercado único e da união aduaneira. 

Mas uma vez que o novo acordo de livre comércio só foi alcançado na véspera de Natal e que o Governo britânico abdicou de mais um período de adaptação, as novas regras entraram em vigor no início desde ano, forçando as empresas a um ajustamento acelerado à nova realidade.

Questão irlandesa

Um dos casos mais sensíveis desta nova fase das relações entre os dois blocos comerciais tem lugar na ilha irlandesa

Nos termos do Protocolo irlandês, anexo ao acordo de saída, a Irlanda do Norte (parte integrante do Reino Unido) mantém-se alinhada com as regras do mercado único, no mesmo sistema regulatório que a República da Irlanda (Estado-membro da UE) e fora da união aduaneira britânica.

Essa solução implica a existência de controlos alfandegários nos portos norte-irlandeses, para os produtos oriundos de Inglaterra, País de Gales ou Escócia, que também têm causado atrasos, para além de críticas e objecções do Partido Unionista Democrático da Irlanda do Norte e do próprio Governo britânico, que a negociou e ratificou.

Esta quarta-feira houve uma reunião do comité conjunto que supervisiona a implementação do acordo do “Brexit”, destinada a discutir o pedido do Governo de Johnson de estender até 2023 o período de tolerância, que termina no final de Março, para a realização dos controlos fronteiriços sobre determinados produtos que entram na Irlanda do Norte vindos do restante Reino Unido.

A reunião não trouxe, no entanto, grandes novidades. Ambas as partes comprometeram-se apenas em continuar a trabalhar até encontrarem “soluções práticas” para os problemas que envolvem a questão irlandesa.