Kitchen Dates: a casa do desperdício zero fecha portas, mas Rui e Maria prometem não desaparecer

O espaço lisboeta de cozinha vegana e de desperdício zero foi uma das vítimas da pandemia. O casal que o fundou diz ter chegado a “um ponto de desgaste mental, emocional e físico sem retorno”. Mas este é “um fim que não é o fim”.

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Maria Antunes no Kitchen Dates vera moutinho

Onze meses “de uma luta desigual contra pandemia” ditaram o fim de um dos projectos mais originais que tinham surgido em Lisboa nos últimos anos: o Kitchen Dates, um espaço de encontro, em Telheiras, em torno da ideia de uma cozinha vegana e de desperdício zero. Rui Catalão e Maria Antunes, os fundadores, anunciaram a decisão a 9 de Fevereiro, através da sua conta de Instagram, explicando que tinham atingido “um ponto de desgaste mental, emocional e físico sem retorno”. Mas, garantem, este é “um fim que não é o fim”. 

Ainda usando o Instagram, falaram com os seus clientes e seguidores que quiseram animá-los a continuar, mesmo que sob outras formas. O que ditou o fim e levou a que “um dia que nunca esperámos chegasse tão cedo”, explicaram os dois, foi sobretudo o facto de a pandemia e os confinamentos terem acabado por “destruir a essência” do que tinham inicialmente planeado: “juntar estranhos à volta de uma mesa para partilhar comida, ideias e experiências”.

Com as necessidades de distanciamento social, isso deixou de ser possível, o que obrigou, nos últimos meses, a que o Kitchen Dates se transformasse num espaço de take-away e entregas ao domicílio. Para Rui e Maria, isso, somado ao tal estado de exaustão com dias de “14 a 16” horas de trabalho, fez com que a ideia de o manter aberto deixasse de fazer sentido.

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Rui Catalão e Maria Antunes, os fundadores do projecto Kitchen Dates Miguel Manso

Antes da pandemia, “estávamos numa situação ascendente”, dizem, em conversa telefónica com a Fugas. Ainda pensaram que a solução do take-away seria rapidamente ultrapassada, e lançaram-se a ela, assumindo também as entregas – feitas pelo Rui – o que aumentou, naturalmente, a carga de trabalho. “Com o segundo confinamento, acabámos por sentir que estávamos no ponto de ruptura e que já não era viável”.

“Nunca quisemos ser só um restaurante e fomos reduzidos a isso e ainda mais reduzidos a um espaço de take-away”, lamentam. A situação económica até se revelou sustentável e conseguiram pagar sempre as contas (um dos princípios que aplicaram foi o de não se endividarem e usarem apenas capitais próprios e provenientes da campanha de crowdfunding lançada para o arranque), apesar da inevitável perda de facturação. O que, sublinham, só veio provar que um projecto como o Kitchen Dates, apostado em não ter caixote do lixo e num trabalho de grande proximidade com os produtores locais que seguem a mesma filosofia, é possível em Portugal.

No final de Fevereiro vão fechar as portas, mas já prometeram continuar presentes de outras maneiras, nomeadamente através de workshops online. “Vemo-nos como um projecto de literacia alimentar que tinha um espaço. Nos últimos tempos, o lado do restaurante acabou por se sobrepor a tudo o resto, mas esta era apenas uma das formas que acreditamos ter à disposição para levarmos a cabo estes projectos.”

Os próximos tempos serão para “recuperar o fôlego”, porque “quando investes tanto num projecto como este e acordas de manhã e a única coisa que queres é enterrar a cabeça na almofada e ficar ali mais uma série de horas, é o momento em que é preciso mudar”.