Bancos centrais tentam acalmar subida das taxas de juro da dívida

Subida das taxas de juro da dívida tem sido tendência das últimas semanas, por causa do receio de regresso da inflação. Declarações de presidente da Fed acalmaram esta quarta-feira os mercados.

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Reuters/POOL

As taxas de juro da dívida pública dos países da zona euro interromperam, esta manhã, a tendência de subida que têm vindo a registar nas últimas semanas. A garantia dada pelos responsáveis dos principais bancos centrais mundiais de que irão continuar a aplicar uma política expansionista durante mais algum tempo refreou os receios de que um regresso da inflação pudesse começar já a alterar o rumo da política monetária. Neste contexto, as taxas de juro da dívida portuguesa registam os valores mais altos desde o passado mês de Outubro.

Com a pandemia, e a enorme onda de estímulos orçamentais e monetários lançados pelos governos e bancos centrais para contrariar a crise, as taxas de juro da dívida na Europa e nos EUA caíram durante o ano passado para valores mínimos. Portugal, beneficiando do elevado volume de compras de títulos de dívida pública, viu, em meados de Dezembro, as taxas de juro da dívida a 10 anos caírem para valores negativos, o que significa que consegue obter financiamento de longo prazo de investidores que estão dispostos a pagar por isso.

No entanto, desde o início de 2021 que se assiste nos mercados a uma inversão da tendência. Principalmente desde que ficou evidente que a nova administração Biden ia conseguir fazer aprovar um plano de estímulo orçamental à economia de 1,9 biliões de dólares, começaram a ganhar força os receios de que a economia norte-americana possa vir a assistir brevemente, por causa das políticas expansionistas aplicadas, a um regresso da inflação, algo que poderia forçar os bancos centrais a recuar na sua tentativa de manter as taxas de juro baixas.

Esta aposta de que as pressões inflacionistas não permitirão aos bancos centrais manter políticas expansionistas durante muito mais tempo transferiu-se também para a Europa. E as taxas de juro da generalidade dos países da zona euro, seja no centro seja na periferia, têm vindo a subir nas últimas semanas, tendência que se acentuou nos últimos dias.

Em Portugal, se no início do ano as taxas de juro da dívida a 10 anos ainda estavam muito próximo de zero, nos 0,061%, agora encontram-se já acima de 0,25%.

Esta quarta-feira, contudo, esta escalada das taxas de juro parece ter ficado em suspenso. A acalmar os mercados obrigacionistas terão estado as declarações da véspera do presidente da reserva Federal norte-americana (Fed), Jerome Powell que garantiu que a política monetária nos EUA vai continuar a apoiar a recuperação económica durante mais algum tempo. “O que podem esperar de nós é que nos moveremos cuidadosamente, pacientemente e avisando com grande antecipação”, afirmou, defendendo que “a economia ainda está a uma grande distância dos objectivos para o emprego e para a inflação” definidos pela Fed.

No dia anterior, tinha sido a presidente do BCE, Christine Lagarde, a tentar trazer tranquilidade aos mercados, afirmando num discurso que o banco central “está a monitorizar atentamente a evolução das taxas de juro da dívida de longo prazo”, dando a entender que não irá permitir uma escalada das taxas.

Esta manhã, nos mercados, assistiu-se, no caso da Alemanha e da Itália, por exemplo, a um ligeiro recuo das taxas de juro. No caso de Portugal, as taxas de juro estabilizaram.

De qualquer forma, uma coisa parece já certa: apesar de as taxas de juro estarem ainda a um nível baixo, dificilmente se irá regressar aos mínimos históricos registados no final do ano passado. Como afirmou a presidente da Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública, Cristina Casalinho, em entrevista ao PÚBLICO, “o chão das taxas de juro baixas pode já estar para trás de nós”.