Lawrence Ferlinghetti (1919- 2021), poeta best-seller, fundador da City Lights Bookstore e editor de Allen Ginsberg

O escritor, editor e livreiro norte-americano morreu aos 101 anos em São Francisco, cidade onde fundou a famosa livraria City Lights e criou a editora independente onde publicava livros de poesia como aquele, de Allen Ginsberg, que o levou a lutar pela liberdade de expressão nos tribunais e a ficar para a História. Em 2019 lançara o romance Rapazinho, parcialmente autobiográfico, que fica como o seu testamento literário.

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Lawrence Ferlinghetti Reuters/STRINGER

Lawrence Ferlinghetti, um dos nomes decisivos da cultura Beat, escritor e poeta best-seller, editor do livro Uivo, de Allen Ginsberg, cuja publicação o levou a tribunal, pintor e fundador (em 1953) da City Lights Bookstore, morreu aos 101 anos na segunda-feira, na sua casa em São Francisco, nos Estados Unidos. Foi vítima de doença pulmonar intersticial, divulgou o seu filho Lorenzo. 

Quando fez 100 anos, em 24 de Março de 2019, Lawrence Ferlinghetti lançou nos Estados Unidos o romance Little Boy (publicado em Portugal pela Quetzal como Rapazinho), em que trabalhou durante duas décadas. Por lá passam também as suas memórias. “Rapazinho é o derradeiro testemunho e testamento literário do maior poeta da Geração Beat –​ parte autobiografia, parte recordação dispersa, parte torrente de linguagem e sentimento, e sempre com o tom mágico da escrita de Ferlinghetti. No livro, há reminiscências biográficas entrelaçadas com explosões de energia e de recordação, reflexões, reminiscências e profecias sobre o que podemos esperar da vida no futuro. Rapazinho é uma fonte de conhecimento literário com alusões ao mundo e à vida literária do autor, à sua geração, erros e descobertas –​ e um convite ao maravilhamento”, escrevia a editora portuguesa no seu lançamento. 

Foi editor de Allen Ginsberg, que ouviu a fazer a primeira leitura pública do poema Uivo na Six Gallery de São Francisco em Outubro de 1955, mas também de Charles Bukowski, Paul Bowles e Sam Shepard. Nunca se considerou um escritor beat, porém, e não dava grande importância a essa literatura, escreve Elaine Woo no obituário do Los Angeles Times, lembrando que o editor rejeitou os manuscritos de On The Road, de Jack Kerouac (Pela Estrada Fora, na tradução portuguesa), ou de Naked Lunch, de William S. Burroughs (O Festim Nu). Mas Jesse McKinley, no obituário do The New York Times, chama-lhe “o padrinho espiritual do movimento Beat”.

Era o quinto filho de um casal de descendentes de italianos, franceses e portugueses, mas quando nasceu, em 1919, o seu pai, o italiano Carlo Ferlinghetti, já tinha morrido. A mãe, Clemence Albertine Mendes-Monsanto, viria a ser hospitalizada mais tarde com um esgotamento nervoso. Por isso, Lawrence Monsanto foi aos dois anos viver com o tio Ludovic Monsanto e a sua mulher Emily, que levou a criança para França quando mais tarde se separou do marido. Viveram lá quatro anos, lê-se no obituário do Los Angeles Times, e quando regressaram a Nova Iorque Ferlinghetti esteve um tempo num orfanato até ir voltar a juntar-se a Emily na casa da família Bisland, em Bronxville. Foi esta família que o criou e lhe passou a paixão pelos livros.

Formou-se em jornalismo e, mais tarde, em Literatura Inglesa. Alistou-se na Marinha, mas a participação na Segunda Guerra Mundial fez dele um pacifista, tendo sido preso, em 1967, por protestar contra a Guerra do Vietname. Doutorou-se em 1950 na Sorbonne, em Paris, cidade em que juntamente com outros famosos expatriados americanos como Allen Ginsberg, William Burroughs e Gregory Corso era frequentador da livraria Shakespeare and Company, fundada por George Whitman.

Em 2011, o poeta Nuno Júdice recordava ao PÚBLICO alguns dos momentos em que se cruzou nessa livraria com Ferlinghetti, que nesses anos 50 seria também o autor de A Coney Island of the Mind (1958), escrito para ser lido com acompanhamento de música jazz e que se tornou um dos livros de poesia mais vendidos de sempre nos EUA. A sua primeira tradução em português, publicada nos Cadernos de Poesia da D. Quixote em 1972, teve o título Como Eu Costumava Dizer

Foi o espírito boémio que se vivia na Shakespeare and Company que quis replicar na City Lights Books, que fundou em 1953, na Califórnia, com Peter D. Martin, que um ano depois viria a abandonar o projecto. Foi a primeira livraria no país a vender só paperbacks, impulsionando o formato de bolso, livros de qualidade a preço acessível. Era também conhecida por ficar aberta até altas horas da madrugada e por ninguém ser importunado por estar a ler um livro sem o comprar, e por vender literatura LGBT. Na porta de entrada, conta o Los Angeles Times, havia um aviso para os clientes deixarem o desespero lá fora: “Abandon All DespairYe Who Enter Here”. Em 2003, quando os Estados Unidos invadiram o Iraque, fechou-a em protesto. 

Dois anos depois de abrir a livraria, em 1955, Lawrence Ferlinghetti lançou a editora City Lights. Nesta, começou por publicar as Pocket Poets Series, que inaugurou com um livro seu, Pictures of the Gone World. Mas foi a publicação em 1956 do quarto livro dessa colecção, Howl & Other Poems, de Allen Ginsberg, traduzido em português por O Uivo e Outros Poemas, que fez com que fosse detido por vender “material obsceno” e tenha ido a tribunal defender a liberdade de expressão e a Primeira Emenda, conseguindo estabelecer um precedente jurídico.

Em Portugal, a Relógio D'Água publicou em 2016 o seu ensaio A Poesia Como Arte Insurgentecujo título original é Poetry as insurgent art. Nele escreveu trechos como este: “Se te consideras poeta, não fiques aí sentado. A poesia não é uma ocupação sedentária, não é uma prática do género ‘sente-se, por favor’. Levanta-te e diz-lhes o que pensas.”

Nessa altura, a editora portuguesa recordava o que Larry Smith escrevera no livro Lawrence Ferlinghetti: Poet-at-Large: “O que resulta do panorama histórico em que Ferlinghetti se envolveu é um padrão social envolvente de experimentação literária.”. O seu papel, argumentava, foi muito além do de editor e de organizador: “Além de ter moldado a ideia do que é ser um poeta no mundo, criou uma forma poética que é ao mesmo tempo retoricamente funcional e socialmente vital.”

Em 2010 o realizador Rob Epstein estreou Uivo, em que o actor Andrew Rogers interpreta Ferlinghetti e James Franco é Allen Ginsberg.