Decisão de adiar sete dias segunda dose de vacina contra covid-19 pode acontecer esta semana

Ritmo da vacinação está a aumentar - numa semana foram vacinadas mais de 96 mil pessoas com a primeira dose -, mas ainda é muito lento. Adiar a administração da segunda dose permitirá incluir mais pessoas na primeira fase.

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LUSA/ESTELA SILVA
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Rui Gaudencio

Um aumento do intervalo entre a administração da primeira e da segunda dose da vacina da Pfizer, que permitirá abranger de forma mais rápida uma percentagem maior da população na primeira fase do plano de vacinação, pode ser decidido esta semana. A Comissão Técnica de Vacinação contra a covid-19 da Direcção-Geral da Saúde (DGS) tinha recomendado um maior espaçamento entre as doses em Janeiro, mas essa sugestão não foi então aprovada.

A ideia, agora, é adiar a toma da segunda dose em apenas mais uma semana, sete dias, bem menos do que recomendou a comissão técnica (que propôs mais três semanas, 42 dias), soube o PÚBLICO. A segunda dose da vacina da Pfizer é dada três semanas após a primeira. Em Portugal já estão a ser administradas também as vacinas da Moderna e da AstraZeneca. O intervalo preconizado para a da Moderna é quatro semanas, enquanto a AstraZeneca admite que possa ir até às 12 semanas. Mas a Pfizer é o principal fornecedor de Portugal e a AstraZeneca não está, pelo menos por enquanto, a ser dada aos maiores de 65 anos.

Mesmo sendo mais cauteloso, este adiamento de uma semana permitirá vacinar com a primeira dose mais umas dezenas de milhares de pessoas, sobretudo idosos a partir dos 80 anos, até ao final de Março. Um aumento que vai ao encontro da mudança de estratégia da nova coordenação da task-force para o plano de vacinação, que já assumiu que quer priorizar a vacinação dos mais velhos. A decisão está nas mãos da DGS, da task-force e do Infarmed, mas terá que ser validada politicamente, explicou ao PÚBLICO uma fonte ligada ao processo.

Entretanto, o ritmo da vacinação está a aumentar (numa semana foram inoculadas 96.701 pessoas com a primeira dose) mas ainda é lento, devido à escassez das vacinas. Até domingo, tinham sido vacinadas com a primeira dose mais de 433 mil pessoas e quase 249 mil já tinham a imunização completa, adiantou a DGS.

O Ministério da Saúde confirma que a hipótese de aumentar o intervalo entre doses para abranger uma percentagem maior da população está a ser ponderada, remetendo para a entrevista que o secretário de Estado da Saúde deu à RTP3.

Sales admitiu que esta possibilidade está a ser analisada com cuidado pelos especialistas para “depois [se] tomar a melhor decisão”. É, disse, “uma relação custo benefício” que tem que ser ponderada porque se sabe que a primeira dose “pode produzir uma eficácia entre os 60 e os 70%”.

 Ainda são poucos os países que avançaram neste sentido, depois de o Reino Unido ter decidido adiar até às 12 semanas a administração da segunda dose da vacina da Pfizer. Entretanto, os Países Baixos alargaram o intervalo até às seis semanas e a Irlanda ficou-se por mais uma, segundo as informações reportadas ao Centro Europeu de Controlo da Doença no início deste mês.

Em Janeiro, o ex-coordenador da task-force para o plano de vacinação contra a covid-19, Francisco Ramos, explicou que a proposta da comissão técnica da DGS não tinha passado porque Portugal estava a aguardar a avaliação da Agência Europeia do Medicamento (EMA, na sigla em inglês) sobre a vacina da Pfizer. A EMA recomendou entretanto que repeite o que está estipulado na bula da vacina, por ser escasso o número de pessoas sujeitas a uma maior intervalo entre doses nos ensaios clínicos levados a cabo pela farmacêutica.

Mas, agora, face à urgência de vacinar o maior número de pessoas possível até ao final de Março – a Comissão Europeia recomendou a imunização de 80% da população a partir dos 80 anos até essa data -, a ponderação do risco-benefício desta opção está de novo em cima da mesa.

Especialistas dividem-se

As opiniões dos especialistas dividem-se. Os que são a favor observam que há cada vez mais dados a aconselhar o espaçamento de forma a protegerem-se mais pessoas em menos tempo. Manuel Carmo Gomes, que integra a comissão técnica de vacinação da DGS, remete para um estudo divulgado anteontem na Escócia, que indica que o programa de vacinação contra a covid-19 reduziu entre 85% e 94% as hospitalizações quatro semanas após a primeira dose.

Foram analisados dados de 5,4 milhões de habitantes e concluiu-se que, tanto no caso da vacina da Pfizer-BioNtech, como no da AstraZeneca, foi possível reduzir os casos de doença grave pelo novo coronavírus. Os dados foram divulgados pelos cientistas das universidades de Edimburgo, Strathclyde, Aberdeen, Glasgow e St. Andrews e da Direcção-Geral da Saúde Pública ainda antes de terem sido submetidos a avaliação pelos pares para publicação.

Hélder Mota Filipe, ex-presidente do Infarmed, nota que há aqui uma zona “cinzenta”. “Pessoalmente, eu gostaria que as vacinas fossem usadas de acordo com o que está descrito no  RCM. Alargar o intervalo é brincar um pouco com o fogo, porque neste momento não há evidência que [o] suporte”. O professor da Faculdade de Farmácia de Lisboa concede que há margem para espaçar a toma da segunda dose numa semana (“até oito dias não tem problema”), mas considera que “assumir que isto passa a ser uma opção já é mais complicado”.

Além de sustentarem que ainda não há dados para indicar por quanto tempo uma segunda dose pode ser adiada sem comprometer a eficácia, os peritos que são contra avisam que há o risco de as pessoas perderem a confiança na vacinação.

Notando que a EMA é um regulador e que os “países são soberanos na decisão de aplicar as regras”, o virologista Pedro Simas, do Instituto de Medicina Molecular de Lisboa, que aplaude a intenção de se adiar a toma da segunda dose, recorda que o objectivo primordial da vacinação contra a covid-19 é proteger contra doença grave e morte. “Numa situação de emergência, acho que temos que tentar optimizar a vacinação e salvar mais pessoas”, afirma. E adianta que até já se fala na hipótese de ir mais além, reduzindo a

Um aumento do intervalo entre a administração da primeira e da segunda dose da vacina da Pfizer- BioNtech, que permitirá abranger de forma mais rápida um número superior de pessoas, pode ser decidido esta semana. A Comissão Técnica de Vacinação contra a covid-19 da Direcção-Geral da Saúde (DGS) tinha recomendado um maior espaçamento entre as doses em Janeiro, mas essa sugestão não foi então aprovada.

A ideia, agora, é adiar a toma da segunda dose em apenas mais uma semana, sete dias, bem menos do que recomendou no mês passado a comissão técnica (que propôs mais três semanas, ou seja, 42 dias, em vez dos actuais 21), soube o PÚBLICO. A segunda dose da vacina da Pfizer é dada três semanas após a primeira. Em Portugal já estão a ser administradas também as vacinas da Moderna e da AstraZeneca-Universidade de Oxford. O intervalo preconizado para a vacina da Moderna é de quatro semanas, enquanto a AstraZeneca admite que possa ir das quatro até às 12 semanas, tendo-se optado em Portugal pelo prazo máximo neste último caso. Mas a Pfizer é o principal fornecedor de Portugal e a AstraZeneca não está a ser dada, pelo menos por enquanto, aos maiores de 65 anos.

Mesmo sendo mais cauteloso e conservador, este adiamento de uma semana permitirá vacinar com a primeira dose mais umas dezenas de milhar de pessoas, sobretudo idosos a partir dos 80 anos, até ao final de Março. Um aumento que vai ao encontro da mudança de estratégia da nova coordenação do grupo de trabalho (task force) para o plano de vacinação contra a covid-19,  que já assumiu que pretende priorizar a vacinação dos mais velhos, o grupo em que o risco de morte é mais elevado. A decisão está nas mãos da DGS, da task-force e da autoridade do medicamento (Infarmed), mas terá que ser validada politicamente, explicou ao PÚBLICO uma fonte ligada ao processo.

Entretanto, o ritmo da operação está a aumentar (numa semana foram vacinadas 96.701 pessoas com a primeira dose) mas ainda é lento, devido à escassez de doses. Até domingo passado, tinham sido vacinadas em Portugal com a primeira dose mais de 433 mil pessoas e quase 249 mil já tinham a imunização completa, de acordo com o relatório de vacinação da DGS divulgado esta terça-feira.

Questionado sobre a possibilidade de adiamento da toma da segunda dose da vacina, o Ministério da Saúde confirma que a hipótese de aumentar o intervalo para abranger uma percentagem maior da população está a ser ponderada, remetendo para a entrevista que o secretário de Estado da Saúde, António Lacerda Sales, deu na segunda-feira à RTP3.

Sales admitiu que esta possibilidade está em cima da mesa e a ser analisada com cuidado pelos especialistas para “depois [se] tomar a melhor decisão”. “Estão a fazer a ponderação dessa matéria, porque entre o afastamento que permita vacinar mais gente com a primeira dose, sabendo que pode produzir uma eficácia entre os 60 e os 70% (...), ou ter mais gente com as duas doses vacinadas, [esta] é uma relação custo benefício que tem de ser muito ponderada”. 

Ainda são poucos os países que avançaram neste sentido, depois de o Reino Unido ter decidido, no final de Dezembro, adiar até às 12 semanas a administração da segunda dose da vacina da Pfizer. Entretanto, os Países Baixos alargaram o intervalo até às seis semanas e a Irlanda ficou-se por mais uma, segundo as informações reportadas ao Centro Europeu de Controlo da Doença (ECDC na sigla em inglês) no início deste mês.

Em Janeiro, o ex-coordenador da task-force para o plano de vacinação contra a covid-19, Francisco Ramos, explicou ao PÚBLICO que a proposta da comissão técnica da DGS não tinha passado porque Portugal estava a aguardar uma avaliação da Agência Europeia do Medicamento (EMA, na sigla em inglês) sobre a vacina da Pfizer. A EMA decidiu entretanto que se devia respeitar o que está estipulado na bula (o resumo das características do medicamento) da vacina, por ser escasso o número de pessoas sujeitas a uma maior intervalo entre doses nos ensaios clínicos levados a cabo pela farmacêutica.

Mas, agora, face à urgência de vacinar o maior número de pessoas possível até ao final de Março – a Comissão Europeia recomendou a imunização de pelo menos 80% da população a partir dos 80 anos no primeiro trimestre -, a ponderação do risco/benefício desta opção está de novo em cima da mesa e prestes a ser decidida.

As opiniões dos especialistas dividem-se. Os que são a favor observam que há cada vez mais dados a aconselhar o espaçamento da toma entre a primeira e a segunda dose da vacina de forma a protegerem-se mais pessoas em menos tempo. Manuel Carmo Gomes, que integra a comissão técnica de vacinação da DGS, remete para um estudo divulgado esta segunda-feira na Escócia, que indica que o programa de vacinação contra a covid-19 reduziu entre 85% e 94% as hospitalizações quatro semanas após a primeira dose.

Foram analisados dados de 5,4 milhões de habitantes e concluiu-se que, tanto no caso da vacina da Pfizer-BioNtech, como no da AstraZeneca, foi possível reduzir os casos de doença grave pelo novo coronavírus. Os dados foram divulgados pelos cientistas das universidades de Edimburgo, Strathclyde, Aberdeen, Glasgow e St. Andrews e da Direcção-Geral da Saúde Pública ainda antes de terem sido submetidos a avaliação pelos pares, para publicação, tendo em conta a sua relevância. 

Hélder Mota Filipe, ex-presidente do Infarmed, nota que esta discussão não pode ser feita “preto no branco” e que esta é uma zona “cinzenta”. “Pessoalmente, eu gostaria que as vacinas fossem usadas de acordo com o que está descrito no RCM. Alargar o intervalo é brincar um pouco com o fogo, porque neste momento não há evidência que [o] suporte”. Concede que há margem para espaçar a toma da segunda dose em mais uma semana (“até oito dias não tem problema”), mas considera que “assumir que isto passa a ser uma opção já é mais complicado”.

Além de sustentarem que ainda não há dados para indicar por quanto tempo uma segunda dose pode ser adiada sem comprometer a eficácia da vacina, os peritos que são contra avisam que há o risco suplementar de as pessoas ficarem confusas e poderem perder a confiança no processo.

Notando que a EMA é um regulador e que os “países são soberanos na decisão de aplicar as regras”, o virologista Pedro Simas, do Instituto de Medicina Molecular de Lisboa, que aplaude a intenção de se adiar a toma da segunda dose, recorda que o objectivo primordial da vacinação contra a covid-19 é proteger contra doença grave e morte. “Numa situação de emergência, acho que temos que tentar optimizar a vacinação e salvar mais pessoas”, enfatiza. Pedro Simas diz que podem ser consideradas três hipóteses: a mais conservadora - espaçar dentro do intervalo dos ensaios clínicos; a que está agora em discussão - ir para além do intervalo fixado; e mesmo outra que começa a ser equacionada - reduzir a quantidade da vacina administrada.