O país que queremos e o país que temos

Todos os temas relacionados com desigualdades, discriminações, misoginia, violência de género, violência doméstica, domínio do patriarcado, entre outros, devem ser abordados todos os dias até ao dia em que nenhum deles subsista.

Está quase a chegar outra vez aquele momento em que volta o recurso às estatísticas, aos números, à recordação do que se prometeu e não se cumpriu, ao muito que se diz e ao pouco que se faz, à distância entre aquilo que se quer e aquilo que, de facto, está aplicado, ao fosso existente entre um lado e o outro. Penso que já perceberam, é do Dia Internacional da Mulher que falo, o 8 de Março que, todos os anos, serve para uns fazerem as pazes com a consciência e outros usarem a hipocrisia do costume. Antecipo-me porque, na minha perspectiva, todos os temas relacionados com desigualdades, discriminações, misoginia, violência de género, violência doméstica, domínio do patriarcado, entre outros, devem ser abordados todos os dias até ao dia em que nenhum deles subsista.

Serve esta oportunidade para percebermos as diferenças entre o país que queremos e o país que temos, porque são muitas, profundas, enraizadas e algumas com a incrível tendência de aumentar. Não é difícil identificá-las, são bem simples de ver por todos, embora haja quem prefira encolher os ombros e seguir em frente com indiferença, enquanto outros fingem não ver. No país que queremos, a trabalho igual corresponde a salário igual, as oportunidades de acesso a lugares de topo não são determinadas por um género que é sinónimo de privilégio, as mulheres não têm de ficar em casa, nem ser as cuidadoras por excelência e muito menos são espancadas, humilhadas, exploradas e, enfim, assassinadas às dezenas por ano, tantas vezes precisamente por quem lhes está mais próximo.

No país que queremos, o Parlamento não tem esmagadora maioria de rostos da mesma cor e do mesmo sexo. A sociedade não é reflexo de uma tão desequilibrada distribuição de riqueza e os pobres não ficam cada vez mais pobres. Nem se flexibilizam os despedimentos ou pagam reformas de miséria, porque o valor do trabalho é um bem essencial. E, por falar nisto, a Cultura em geral e os livros em particular, no país que queremos, tal como os professores e os profissionais de saúde, são exemplos para todos.

No país que queremos, os insatisfeitos com os partidos que deviam servi-los (e não servir-se) agem para mudar, constituem-se em movimentos de cidadãos e submetem-se ao exercício da democracia, apresentando-se a votos. Não se lançam nos braços do primeiro aventureiro que lhes aparece a dizer tudo e o seu contrário para agradar, de pouco importando se lhe são gratos o racismo, a xenofobia ou o insulto. Mas também não há uma oposição que, de tão bem se expressar em alemão, finge não entender o perigo que representa a mão estendida à sua frente e que não servirá para estreitar a sua.

Nesse país que queremos, o Tribunal Constitucional que deu asas legais a um ululante cujo vocabulário se resume a uma palavra gritada até à náusea, abrindo caminho a tantos que se regem pela Constituição de 1933 e vivem com saudades do tempo até ao 24 de Abril de 1974, não é presidido por alguém que seja responsável por escritos homofóbicos. Talvez lhe ficasse melhor o cargo de presidente de um imaginário Tribunal Inconstitucional, na medida em que, dessa forma, também só seria chamado a tomar decisões imaginárias e não, por exemplo, a intervir em questões tão fulcrais como a de fiscalizar a constitucionalidade de um diploma como o da morte assistida.

No país que queremos, a Comissão Europeia não teria de abrir um procedimento por causa de uma directiva sobre lavagem de dinheiro que está por adoptar, fazendo um ultimato para que essa determinação passe a ser figura legislativa. Porque, nesse país que queremos, aos discursos de circunstância a vociferar contra a corrupção e as opacidades corresponderiam medidas eficazes, não feitas letra morta em papéis.

Porém, o país que temos, quase 50 anos depois da Revolução, por muito que tenha evoluído, permanece tantas vezes como nós, os responsáveis pelas escolhas, perdidos no nosso próprio labirinto de contradições, que me interrogo quase todos os dias: teremos o país que queremos ou quereremos o país que temos? Porque já tivemos um pequenino país durante 48 longos anos, custou muitas vidas e foi um pesadelo.