UE exige que governo da Etiópia garanta acesso da ajuda humanitária à região do Tigré

Ministro dos Negócios Estrangeiros da Finlândia liderou missão europeia a Adis Abeba, onde encontrou um executivo “em negação da magnitude dos problemas”. Três meses depois do arranque da ofensiva militar sobre os rebeldes, não há fim à vista para o conflito.

Foto
Milhares de famílias fugiram de Tigré em direcção ao Sudão Reuters/MOHAMED NURELDIN ABDALLAH

A União Europeia tem uma “mensagem forte” e urgente para passar ao governo da Etiópia, que três meses depois do arranque da sua operação militar contra as forças rebeldes da região do Tigré, tem de assegurar as condições para o acesso da ajuda humanitária aos cerca de dois milhões de pessoas necessitadas, e também avançar com a investigação dos casos “muito graves e perturbadores” de massacres de civis e abusos dos direitos humanos que foram reportados a organizações internacionais.

“Estamos atentos e muito preocupados com a situação. Reconhecemos os desafios, e compreendemos as dificuldades do governo da Etiópia, mas este conflito tem de ser resolvido”, afirmou esta terça-feira o ministro dos Negócios Estrangeiros da Finlândia, Pekka Haavisto, que acaba de regressar de uma missão ao país sob mandato do alto representante para a Política Externa e Segurança da UE.

Numa conversa com jornalistas europeus em Bruxelas, Haavisto revelou que já estão a ser preparadas conclusões do Conselho da União Europeia sobre a situação na Etiópia, que incluem o apelo à facilitação do trabalho da comunidade humanitária internacional e a exigência de investigação independente e credível às violações dos direitos humanos.

Mas a UE ainda pode ir mais longe. Para o ministro finlandês, apesar de o protagonismo em termos de intermediação política para a resolução do conflito entre o governo federal de Adis Abeba e os separatistas da Frente de Libertação do Povo Tigré (TPLF) caber à União Africana, existem no lado europeu vários canais de diálogo e instrumentos de apoio que podem ser aproveitados.

Pekka Haavisto afasta o cenário de a UE poder vir a organizar (ou participar) uma missão militar de estabilização de paz na Etiópia. Mas vê com bons olhos o apoio de Bruxelas a um processo de diálogo nacional: “Há muito azedume, divisão e um grande sentimento de exclusão de parcelas importantes da população”, assinala. “É preciso negociar e encontrar uma solução não militar para resolver o problema, e a UE pode ajudar nessa questão”, diz.

Porém, o governo chefiado por Abiy Ahmed Ali, que foi prémio Nobel da Paz em 2019, tem insistido em resolver o conflito através da força. “Podemos todos concordar que houve uma revolta militar à qual o governo teve de responder. Mas essa reacção veio abrir uma caixa de Pandora: a operação que já dura há três meses não tem fim à vista e entretanto gerou uma crise humanitária com potencial de se tornar uma nova grande crise de refugiados”, observa Haavisto.

De acordo com o governante finlandês, a prioridade do momento é acudir os milhões de habitantes do Tigré (um estado separatista no Norte da Etiópia, junto à fronteira com a Eritreia), que foram apanhados pelo conflito e se encontram já em carência profunda de alimentos e cuidados médicos. Entre eles estão mais de 200 mil refugiados eritreus que viram os seus campos destruídos.

Citando problemas de segurança, o governo federal tem bloqueado o acesso das organizações humanitárias à região. “É uma receita para a catástrofe”, considera Pekka Haavisto, que em Adis Abeba encontrou um executivo “em negação da magnitude dos problemas no país”. “Penso que a força da oposição, e o grau da resistência popular contra o governo terá sido uma surpresa para as autoridades federais, que sentem que esta crise é uma questão existencial”, interpreta.

No entanto, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Finlândia não aceita as justificações oficiais que impedem que os comboios humanitários entrem na região — e que podem levar os Estados membros a “reconsiderar” a sua assistência financeira à Etiópia. “A comunidade humanitária internacional tem uma longa experiência de gestão de operações de assistência em zonas de conflito. Precisamos que o governo dê luz verde para que estas organizações possam negociar o acesso às zonas que estão sob o controlo de milícias ou de tropas eritreias”, refere.

A urgência é absoluta, insiste. “Ninguém tem um retrato completo da situação actual. Só sabemos que é grave, e que infelizmente ainda pode piorar”, conclui.