Saí pela primeira vez de casa depois de 25 dias isolada

Não te preocupes com as crianças. Segundo uma investigação do ISCTE, que li há uns anos, quando os homens ficam sozinhos com as crianças, primeiro telefonam às mães, e depois às sogras. Por isso, entre todos damos conta do recado.

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@designer.sandraf

Querida mãe,

Saí pela primeira vez de casa depois de 25 dias completamente isolada. Nunca fiquei dentro de casa tanto tempo. Até me estava a fazer impressão sair... O ser humano adapta-se mesmo a tudo.

Agora saí. Ouvi música enquanto guiei. Telefonei às minhas amigas todas e falamos sem interrupções de miúdos. Falei com um senhor que tinha uma voz diferente e falava sobre coisas diferentes. Foi emocionante. Ainda que só me estivesse a pedir para eu premir o código multibanco dei-lhe toda a minha atenção e respondi-lhe com o meu melhor sorriso!

Fiquei dentro do carro a escrever uma música que há meses precisava de acabar e durante uns minutos esqueci-me que tinha que preparar mais uma refeição.

Mãe, espere, deixe-me reformular esta carta:

Querida Mãe,

Foi a primeira vez que sai depois de 25 dias. Não vou voltar!

Beijinhos!


Querida Ana,

Viva, estás livre. Fazes muito bem, pira-te. Não sei muito bem para onde, mas consta que o que não faltam são hotéis vazios, procura um junto de uma praia ou uma parede de escalada e diverte-te. Não te preocupes com as crianças. Segundo uma investigação do ISCTE, que li há uns anos, quando os homens ficam sozinhos com as crianças, primeiro telefonam às mães, e depois às sogras. Por isso, entre todos damos conta do recado.

Hoje também pus um pé no mundo real, fui a uma consulta a Lisboa, mas fiquei desesperada com as lojas fechadas. É que nem sequer têm nada nas montras. Roubaram-nos o recreio. A verdade é que uma vez acordado é difícil adormecer o frenesim do consumo, e dei por mim no Leroy Merlin só a andar pelos corredores. Quando um empregado, solícito, me perguntou se precisava de ajuda, respondi “Não, obrigada, estou só a ver”. “Só a ver”, Ana, o que fui dizer, ninguém pode sair de casa só para ver, “só ver” não está na lista das excepções. Corrigi-me imediatamente. Disse-lhe que precisava de uma “chave-inglesa”, sei lá eu o que é isso. Quer dizer, “sabia lá eu”, porque agora tenho uma na carteira.

Beijinhos


No Birras de Mãe, uma avó/ mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, vão diariamente escrever-se, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. Na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. Facebook Instagram.