Vera Marmelo quer unir os fotógrafos portugueses – e já tem mais de 400 nomes

A fotógrafa quer motivar colegas de profissão a não perder o ânimo durante o confinamento e facilitar o encontro com clientes. Por isso, está à procura dos fotógrafos de Portugal para criar um enorme catálogo de portefólios.

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Miguel Manso e Miguel Madeira

A fotógrafa Vera Marmelo quer reunir, num enorme catálogo digital, todos os fotógrafos portugueses. Uma ideia que estava guardava na gaveta e pôde desenvolver nos tempos livres do período de confinamento. Até à data, conta com mais de 400 profissionais inscritos na plataforma. O objectivo é facilitar o encontro entre clientes e fotógrafos, e motivar colegas de profissão a inspirar-se noutros projectos portugueses.

Talvez por causa do apelido invulgar, ou pela popularidade na Internet – com mais de 20 mil seguidores no Instagram, Vera, de 36 anos, recebia muitos, demasiados, pedidos de trabalhos que não correspondiam à sua área de especialização, a fotografia de concertos e festivais. Foi recusando, e sugerindo colegas para os trabalhos, e começou a acumular listas de nomes de fotógrafos.

Quando descobriu a plataforma Raindrop, que facilita a organização de páginas online, fez um apelo nas redes sociais para que lhe enviassem mais sites de portefólios. Em poucos dias, reuniu centenas de pessoas, e todo o tipo de trabalhos. Da fotografia de casamentos ao “grande universo” da fotografia de imobiliário. A plataforma é aberta a todos, basta enviar a hiperligação do próprio portefólio para o email de Vera.

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Vera Marmelo Tiago Gomes

Se, para uns, a partilha de contactos é um tiro no pé, como divulgação da concorrência, a fotógrafa barreirense só encontra vantagens. “Muitos fotógrafos conheceram-me por causa desta ideia, comecei a ganhar muitos seguidores nas redes sociais”, conta ao P3. “E, mais importante que isso, tenho visto fotografias e trabalhos de uma série de pessoas que não conhecia, o que só acrescenta valor ao meu olhar.”  

Vera fica “de coração nas mãos” quando percebe que alguns colegas que admira não têm uma presença online que mostre o que sabem fazer. “Dizer que estamos a promover uma marca, quando falamos de nós mesmos, parece horrível, acho que é isso que causa urticária a fotógrafos e pessoas do universo criativo. Mas temos de ignorar esses chavões foleiros e usar as ferramentas que nos são úteis.” O sentimento de culpa de muitos fotógrafos ao partilharem o próprio trabalho é característico, diz, de “um tom muito português”. Ainda que exista pudor em promover o próprio trabalho, é fundamental “saber jogar o jogo da Internet”.

Vera Marmelo fotografa há 15 anos, desde 2006. A pandemia impediu-a de capturar o que mais gosta: concertos. Por isso, reinventa-se para se manter activa. Em Fevereiro, decidiu fotografar os detalhes das ruas do Barreiro, onde mora, e publicar as imagens nas redes sociais, contando uma pequena história sobre cada sítio, porque “a partilha é a única forma de evoluir”.

Das nove às seis, trabalha na área da engenharia, em Lisboa. Antes da pandemia, saía do trabalho para algum centro cultural, fotografava os ensaios, jantava, fotografava o concerto, e voltava para casa para revelar o rolo da câmara e editar as imagens da noite. E a rotina repetia-se. Agora, em confinamento, diz inventar coisas para se manter muito ocupada, como a colecção de portefólios de todos os fotógrafos portugueses.

“Comecei a lista só para eu aprender, mas transformou-se em algo maior”, conta. “Que seja uma fonte de entusiasmo para quem agora está mais parado, ver trabalhos já feitos durante o período de isolamento”.