Sopa para Todos: uma refeição recheada de solidariedade

O projecto solidário convida as pessoas a pagarem uma sopa a quem mais precisa, ao mesmo tempo que ajuda o sector da restauração.

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Sopa para Todos

Não se chama “sopa suspensa”, mas a ideia é semelhante àquela de pagar um café ao cliente que vem a seguir. Confrontada com os estragos que a pandemia deixou nas finanças de várias famílias, Ana Baião decidiu ajudar e, para isso, criou a plataforma Sopa para Todos, uma iniciativa solidária que também pretende reerguer o sector da restauração.

O processo é relativamente simples. Quem quer ajudar, precisa apenas de encontrar um restaurante aderente e enviar dinheiro para pagar uma sopa, que, por sua vez, o restaurante confecciona e entrega a alguém que precisa. O valor da sopa pode variar de restaurante para restaurante, mas a felicidade de ajudar alguém a atravessar este período é universal.

E foi assim que pensaram os mais de 14 mil membros do grupo do Facebook do projecto, que conta já com 89 restaurantes, distribuídos por nove distritos de Norte a Sul do país. A iniciativa tem tido um “feedback muito positivo”, segundo conta Ana Baião à Fugas, havendo até “restaurantes que se reformularam para abrir portas, de forma a aderir ao movimento”.

É o caso do Gemiburguer, em Almada. Localiza-se numa rua sem saída, onde o único movimento que se regista vem da escola em frente ao restaurante. Com os alunos a voltarem para casa, a maior parte dos clientes habituais da hamburgueria dispersou-se e as duas gerentes, Paula Soares e Gina Guerreiro, ficaram, ali, “de braços cruzados, sem nada para fazer”, como descreve a primeira.

Ainda tentaram o take-away, mas sem muito sucesso. “Isto da pandemia estava a estragar-nos o negócio, porque não conseguíamos vender. Chegámos a introduzir outras coisas à nossa ementa, mas, como somos conhecidos como uma hamburgueria, não tivemos muita saída”, conta.

No entanto, tudo mudou quando se juntaram ao Sopa para Todos, há pouco mais de duas semanas. Logo no primeiro dia, o restaurante recebeu uma doação de 200 euros para confeccionar sopas para os mais necessitados, o que deixou as duas gerentes surpreendidas - “Não estávamos à espera. Desde esse dia, têm estado a chover sopas!”

Ao início, entregavam uma média de 30 por dia, mas, neste momento, este número já chega às 80 diárias. No Gemiburguer, nenhuma sopa é desperdiçada, mesmo que não consigam entregar todas através do seu restaurante. “Nós temos contacto com uma senhora que se prontificou a vir buscar as sopas que sobraram. Ela leva-as para um associação para depois serem distribuídas, à noite, pelos sem-abrigo.”

Encontrar pessoas prontas a ajudar não tem sido uma tarefa difícil para o duo. Aliás, o orçamento oriundo do projecto já é tão grande que as duas gerentes têm dado duas sopas em vez de uma a quem as procura, bem como uma sandes para completar a refeição.

Já no Porto, a adesão não tem sido tanta e o Sabores do Sebouh não é a excepção que confirma a regra. Célia Marques, umas das proprietárias do restaurante, afirma que o máximo de sopas que entregaram, num dia, foi 25, com a média diária a rondar as 15. Decidiu aderir ao projecto porque, tal como Paula, não tinha muito para fazer. “O trabalho era pouco e o tempo era muito. O restaurante está perto do Hospital São João, onde se aglomeram alguns sem-abrigo e, por isso, decidimos ajudar. Já temos algumas pessoas certas que vêm cá buscar a sopa diariamente e, às vezes, também vamos distribuir por aí”, conta.

Mesmo assim, a ajuda ainda não tem chegado a todos. “Muitas das pessoas que precisam, infelizmente, já estão com a água e a luz cortada, o que impossibilita que tenham acesso a redes sociais para saber que este projecto existe”, diz Ana Baião, criadora da iniciativa. A solução pode passar por parcerias com outras iniciativas solidárias, como o Banco Alimentar, que viu os seus pedidos de ajuda quadruplicarem, durante a pandemia, e com quem o Sopa para Todos já tem uma reunião marcada. “O que está a faltar, neste momento, é que as pessoas tenham conhecimento que existe este apoio e as redes já estabelecidas de projectos, como o Banco Alimentar, podem ajudar a chegar a estas.”

O Sopa para Todos ainda não chegou a vários distritos de Portugal, como é o caso de Viana do Castelo, Vila Real, Bragança, Castelo Branco, Viseu, Guarda, Portalegre, Évora e Coimbra. Já o Algarve, Alentejo, zona Centro e todo o interior têm poucos restaurantes associados.

Texto editado por Luís J. Santos