Desconfinar? Internamentos “ainda não voltaram aos números que permitam” pensar nisso

Confinamento não pode fazer muito mais pelos números de incidência, mas pressão hospitalar ainda está muito elevada para se pensar em desconfinar, afirma o matemático Carlos Antunes.

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José Goulão / Lusa

Os números da evolução da covid-19, divulgados neste domingo, são animadores no que toca à redução do número de novos casos positivos, mas apontam para um período de “saturação do efeito do confinamento”, que deverá começar a sentir-se durante esta semana. Ao PÚBLICO, o matemático Carlos Antunes, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, refere que estamos próximos do momento em que o confinamento “não consegue fazer mais” pelos números de incidência, uma vez que ainda “há cerca de 35% da população em mobilidade e que continua a propagar o vírus”.

Os último dados revelados neste domingo, referentes a sábado, mostram que Portugal registou mais 65 mortes por covid-19 e 1186 novas infecções por SARS-CoV-2. No que toca ao número de mortes, trata-se do número mais baixo desde 27 de Dezembro. Os novos casos não eram tão baixos desde 11 de Outubro, quando se registaram 1090 novas infecções.

A capacidade do Serviço Nacional de Saúde foi posta à prova na terceira vaga, quando se atingiu um pico de quase 6900 internados entre enfermaria e cuidados intensivos. Os números deste domingo são substancialmente mais baixos: 3954 internamentos, destes 638 em unidades de cuidados intensivos. Mas a situação “ainda não voltou aos números que permitam” o alívio da situação existente.

Com esta tendência, os números de internamentos pré-Natal “devem ser atingidos nesta semana” e nas unidades de cuidados intensivos (UCI) “no início de Março”, segundo Carlos Antunes, que diz que, “enquanto não se desanuviar a pressão hospitalar, tudo o que é outra actividade clínica não-covid fica comprometida”. Isto numa altura em que o “burnout dos profissionais de saúde não aguenta uma quarta vaga”.

No discurso ao país que o Presidente da República fez na última renovação do estado de emergência, a 11 de Fevereiro, ficou claro que os patamares para o desconfinamento estavam ainda longe de ser cumpridos. Marcelo Rebelo de Sousa disse então que Portugal tinha, até à Páscoa, “de descer os infectados para menos de dois mil, para que os internamentos e os cuidados intensivos desçam dos mais de cinco mil e mais de oitocentos, agora, para perto de um quarto desses valores [1250 internados e 200 em UCI]”. E a redução não basta: tem de envolver uma “estabilização sustentada, duradoura, sem altos e baixos [dos números]”, para não se correr o risco de ser “mais um desconfinamento entre duas vagas”, disse o Presidente da República.

De acordo com os cálculos de Carlos Antunes, estes números podem vir a ser alcançados em Março, mas “o problema são as UCI, cujos números demoram mais tempo” a voltar a esse patamar. O número “sustentável” para o total das unidades de cuidados intensivos é de uma centena e “abaixo das 300 camas só na segunda metade de Março [com a actual tendência]”.

Redução do número de internados

A redução do número de internados nos hospitais é obrigatória para dar início ao desconfinamento que se segue, ainda sem data marcada pelo Governo. Os próprios especialistas evitam apontar uma data no calendário para não criar expectativas nem levar à saturação da população. O matemático Carlos Antunes adverte que “qualquer desconfinamento vai dar espaço à nova variante e essa nova variante tem a capacidade de aumentar os números rapidamente”.

Os efeitos da vacina, olhando para o caso de Israel, só “devem começar a ser mais relevantes quando a taxa de vacinação da população for superior a 50%”, um número a atingir “provavelmente só no Verão”. Estes efeitos deverão começar a ser sentidos na redução do número de internamentos, cuidados intensivos e nos óbitos.

Nesta segunda-feira há nova reunião do Infarmed – marcada para as 14h30 –, onde Presidente da República, primeiro-ministro, presidente da Assembleia da República e os líderes partidários vão ouvir os especialistas e avaliar a situação da covid-19 em Portugal, antes de mais uma expectável nova renovação do estado de emergência.