Ministro da Saúde da Argentina criou “centro de vacinas VIP” – já se demitiu

Ginés Gonzáles Correia foi levado a sair depois de se saber que guardou 3000 doses da vacina Sputnik V para seu uso discricionário. Escândalo político pode atingir o Presidente Alberto Fernandéz.

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O ex ministro da Saúde, Ginés Gonzáles Correia, foi levado a demitir-se pelo Presidente, de quem é próximo MATIAS BAGLIETTO/Reuters

A notícia de que o ministro da Saúde da Argentina, Ginés González García, tinha um “centro de vacinas VIP” ao lado do seu gabinete e que reservou 3000 doses da Sputnik V para vacinar pessoas numa lista decidida apenas por si provocou um grande escândalo político e mesmo com a demissão de García, o caso pode afectar o Presidente, Alberto Fernandéz. Está em curso uma investigação para determinar outras irregularidades na distribuição dos imunizantes contra a covid-19.

“Foi com dor que lhe exigi a renúncia. Ginés era um grande ministro, e ainda por cima, gosto dele”, disse o Presidente – os dois eram próximos. “Mas o que fez é imperdoável”, sentenciou, citado pelo jornal Pagina 12. “A política é ética, temos de acabar com este tipo de práticas, com a cultura argentina da esperteza, do tráfico de influências.”

Há dias que se suspeitava de um forte factor político no critério da distribuição das vacinas, por exemplo, a organização La Cámpora, próxima da vice-presidente Cristina Fernandéz de Kirchner, instalou centros de vacinação em várias das suas dependências em Buenos Aires, segundo o diário espanhol El País.

Também as declarações de várias personalidades dizendo que tinham sido vacinadas levantaram suspeitas. Em Fevereiro, Beatriz Sarlo, professora e ensaísta, revelou que lhe tinha sido oferecida uma “vacina por baixo da mesa”, e que a tinha rejeitado.

Depois da declaração, jornalistas tentavam descobrir de onde teria vindo a oferta. O jornalista que acabou por esclarecer o assunto foi, no entanto, um que fez parte do clube de privilegiados: Horacio Verbitsky, 79 anos, disse na rádio que tinha sido vacinado no dia anterior, esclarecendo que o ministro da Saúde, seu “velho amigo”, lhe tinha arranjado uma vaga na sede do Ministério.

As vacinas na Argentina foram dadas com prioridade aos profissionais de saúde, e apenas a semana passada abriram vagas para os maiores de 80 anos, que têm primeiro de se registar numa página de Internet e esperar ser chamados, diz a BBC.

Várias personalidades do campo político do Presidente criticaram a vacinação do jornalista, que “parece ter tido intencionalidade política difícil de compreender”, disseram a presidente das Avós da Praça de Maio (90 anos e vacinada a convite do governo da província de Buenos Aires) como o dirigente sindical Juan Graibois, diz segundo o El País.

No seguimento do caso descobriu-se que o ministro tinha um stock de 3000 vacinas com que foram sendo vacinados políticos, familiares, e amigos, entre eles o sindicalista, milionário e presidente do histórico clube de futebol Independiente Hugo Moyano.

O procurador Guillermo Marijuan apresentou uma queixa-crime contra o ministro, o jornalista e “outras pessoas” por possível delito de prevaricação e exigiu a lista de pessoas vacinadas de forma irregular. “Trata-se de uma acção de grande gravidade institucional”, declarou.

Este foi o segundo grande escândalo com vacinas na América Latina, depois de no Peru se ter descoberto que o antigo Presidente Martín Vizcarra e a mulher, Maribel, tinham sido vacinados com a vacina chinesa Sinopharm, aproveitando um ensaio clínico. Vizcarra foi destituído em Novembro por suspeitas de corrupção, e recebeu a primeira dose da imunização em Setembro, quando ainda estava no poder.

O actual Presidente, Francisco Sagasti, disse que 487 pessoas foram vacinadas de modo “irregular” no Peru. Estas pessoas, incluindo muitos funcionários públicos, “usaram a sua posição para serem vacinadas com doses da vacina Sinopharm que chegaram além das que foram usadas nos ensaios clínicos.”

Irregularidades na Europa

A escassez de vacinas em todo o mundo, com a escala de produção insuficiente para uma vacinação alargada na maioria dos países, tem levado a muitos aproveitamentos em vários países, também na Europa.

Na Áustria, não tinha passado sequer um mês desde o início da campanha de vacinação quando foi anunciada uma investigação a possíveis vacinações irregulares, incluindo de presidentes de câmaras.

As suspeitas eram de que em vários lares tinham sido pedidas doses a mais, e estas dadas a pessoas que não estavam na lista de prioridades (as doses que sobrassem deviam ser dadas, segundo as regras em vigor, a pessoas com mais de 80 anos). Em vez disso, foram dadas a familiares de cuidadores, políticos locais e funcionários municipais. Num dos casos, suspeita-se mesmo que o lar encomendou vacinas a mais para as dar a pessoa em troca de uma doação para a instituição.

A vacinação de políticos locais e até de líderes religiosos que não estavam na lista de casos prioritários também provocou polémica na Alemanha. Num dos casos, um presidente da câmara da cidade de Halle, e outros dez membros da assembleia legislativa da cidade foram vacinados após “selecção por um gerador de números aleatórios”. Também o bispo de Augsburgo e o seu vice-vigário terão recebido a vacina antes do que seria a sua vez, diz a emissora Deutsche Welle, assim como centenas de polícias, funcionários administrativos nos hospitais, bombeiros e até estagiários nas câmaras.

Em Inglaterra, pelo menos cem trabalhadores da Agência de Saúde Pública receberam a vacina sem estar em nenhuma das categorias prioritárias, segundo o diário britânico The Guardian. Há ainda, diz a BBC, uma investigação a autoridades locais suspeitas de tentar fazer pessoas passar à frente na campanha de imunização.

Outro país a braços com várias suspeitas é a Suécia, que é considerado um dos menos corruptos e mais transparentes do mundo, como sublinha um artigo do jornal francês Le Monde. O artigo refere casos suspeitos desde responsáveis de centros de vacinação que deram as doses adicionais a familiares, uma instituição de saúde privada de Estocolmo que vacinou os seus chefes e responsáveis administrativos, e até o prestigiado hospital universitário ligado ao instituto Karolinska, que suspendeu dois médicos que integravam a sua direcção por terem tomado a vacina sem ter contacto com doentes.

Ou, finalmente, o caso de um centro de apoio a pessoas com deficiência no Sul do país em que 160 chefes e funcionários do centro foram vacinados – contra apenas 15 dos beneficiários dos serviços.