O Desterro reabre — online — para quem tem saudades das pistas de dança

Hugo Barão, ou DJ Spielberg, reconstruiu, em formato digital, a pista de dança do Desterro, uma das paragens obrigatórias da noite de Lisboa.

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O Desterro, um dos ícones da noite lisboeta, numa rua paralela à avenida Almirante Reis, migrou para o mundo digital. A entrada é gratuita e não há hora de fecho.

O programador do videojogo, e produtor da música que ouvimos na cave virtual do Desterro, é Hugo Barão, DJ nos tempos livres e médico de família a tempo inteiro. Sem qualquer experiência de programação, começou a desenhar o jogo em Março de 2020, “com muita calma”, para enganar as saudades da noite. 

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Hugo Barão

Hugo reproduziu o espaço ao pormenor, da mesa de mistura do DJ às frases escritas nas paredes das casas de banho. Tudo a partir da própria memória. “Passávamos lá imenso tempo, era como uma segunda casa”, recorda Hugo.

Esta “experiência imersiva”, como a descreve o autor, é também uma forma inovadora de lançar o novo disco do colectivo No She Doesn'tCarregada/Calibrada, também produzido, por coincidência, por Hugo Barão, sob o nome DJ Spielberg. No jogo é possível explorar a discoteca e descobrir, através de códigos QR distribuídos pelo espaço, novos artistas, visuais ou musicais. Existe, ainda, um código escondido numa sala secreta, conhecida por quem frequentava o Desterro, que oferece 40% de desconto na edição em vinil do disco Carregada/Calibrada

O No She Doesn’t é um colectivo de artistas plásticos e musicais que prioriza a igualdade, a liberdade e a diversão nas festas que organiza. “No dancefloor não interessam as diferenças entre nós, todos são bem-vindos”, garante Hugo. Antes da pandemia, o colectivo trouxe aos seus eventos nomes conhecidos da música electrónica, como DJ Boring ou DJ Seinfeld.  

Para o DJ, os apoios à cultura estão ainda “muito aquém” do que podiam ser. “Felizmente, estou satisfeito com o meu trabalho a tempo inteiro. A produção musical acaba por ser uma terapia. É como fazer vinho. É um processo longo, em que vou revisitando a música que estou a construir”, conta.

Entre as saudades de estar atrás da mesa de DJ e as saudades de dançar na pista, Hugo não consegue escolher o lado de que sente mais falta. “Gosto imenso do dancefloor”, confessa. “Mas agora resta-nos reviver digitalmente esta experiência de rave.”