Draghi para São Bento

A questão que se nos coloca em Portugal é: se em Itália foi possível, porque não o é também aqui? O que será que nos impede de procurar uma solução inclusiva?

Quem seguiu o discurso de Draghi na apresentação do programa do Governo italiano não pode deixar de sentir uma sensação de profundo alívio, à mistura, é certo, com alguma inveja. A Itália tem agora um gigante ao leme, um tecnocrata que foi, no fundo, o maior político europeu dos últimos 50 anos. Sem Draghi, não teríamos hoje o Euro; não fora a sua intervenção guiando os cegos dirigentes políticos europeus durante a crise financeira e pouco sobraria da Europa. E, com Draghi, a Itália arranca agora para uma nova fase, sem tiradas demagógicas nem promessas de vento quente.

Ao longo do seu discurso, Draghi pormenorizou o caminho das pedras, um trilho feito de exigência intelectual e de generosidade, fruto provavelmente da sua educação jesuíta. O programa que Draghi traz aos italianos, com a Europa toda à escuta, é um manifesto de modernidade de alguém que olha para o passado como um património cultural comum e para o futuro como uma urgência absoluta, uma urgência onde cada passo se deve inscrever nas próximas décadas. O discurso de Draghi abarca tudo: as reformas e a sua razão de ser, os desafios do clima e o que se espera que todos façamos, a necessidade de formação em tecnologia, a importância crucial da Europa e também o valor moral da solidariedade. O próprio final do discurso marca a diferença pois, em vez de Viva Itália ou Itália Primeiro, o que ouvimos foi: Por Amor da Itália. A força do nacionalismo é aqui um acto de dádiva, para o serviço e proveito de todos.

O que Draghi está agora a fazer é, uma vez mais, um milagre que se junta aos que já obteve para a Europa quando estava à frente do Banco Central Europeu. Para salvar a Itália, juntou esquerda, direita, centro e extremos, num exercício de unidade de forças para o bem comum, algo que afinal pode ser perseguido, em conjunto, por partidos que, individualmente, se reclamam do monopólio da verdade. É verdade que os duzentos e tal mil milhões de euros que a Europa reservou para a Itália são um argumento de peso, uma força de sedução que não distingue ideologias. Mas a solução poderia muito bem ter sido outra e o resultado completamente diferente.

A questão que se nos coloca em Portugal é: se em Itália foi possível, porque não o é também aqui? Porque será que em Portugal se continua a acreditar que uma aliança centrada no centro é perigosa pois, segundo dizem, abriria o caminho dos extremos? Porque será que em Portugal se pensa que a solução da coligação alemã não funcionaria? Será porque parte dos extremos já integram actualmente a solução governativa? Será porque o outro extremo, aquele que dizem estar à direita, não tem já a vida suficientemente facilitada com a inépcia do Governo? Será que temos solução? Não é verdade que o nosso único problema seja termos um Governo do PS, assim como também não é verdade que os anteriores governos do PSD e CDS tenham sido exemplos de competência e de serviço público. O nosso mal é mais profundo, mais geral, de falta de qualidade e de competência dos decisores. Onde estão os políticos que pensam nas questões essenciais para o nosso futuro? Onde estão os que sabem o que significam as reformas inadiáveis? Quando afinal fazer bem é possível e um exemplo que é uma excepção ocorreu quando António Costa foi buscar à Academia a capacidade para gerir com competência e eficácia o Orçamento do Estado. Os resultados são factuais e suficientes para vencer os preconceitos ideológicos.

O exemplo da Itália não nos pode ser indiferente. Portugal não tem nenhum Draghi, mas nisto estamos bem acompanhados porque o mesmo se passa nos restantes países europeus. Contudo, tal como em Itália, somos uma comunidade com vontade de sobreviver. A mesma vontade que levou Salvini, 5 Estrelas, Berlusconi, o centro e a esquerda democrática diversa a sentarem-se à mesa para reflectirem, em conjunto, como contribuir para o bem de todos. O que será que nos impede, em Portugal, de procurar uma solução inclusiva? Tal como a Itália, não temos também nós a perspectiva do precipício? À falta de Draghi, não haverá gente competente nos partidos, nas empresas, na Academia, na sociedade em geral? O que nos falta?

Merecemos melhor.