Rumores e desinformação ocupam lugar de notícias no Facebook na Austrália

Departamentos de saúde oficiais e páginas de apoio à vítima foram afectadas pelas novas restrições do Facebook às notícias australianas. Mas há desinformação que escapa.

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Desde quarta-feira que quem vive na Austrália não consegue ver publicações de páginas de comunicação social no Facebook LUSA/LUKAS COCH

Na Austrália, o vazio de notícias no Facebook está a ser ocupado, em parte, por páginas online que publicam informação errada e rumores sobre covid-19, sobre o empresário Bill Gates e sobre vacinas. E páginas oficiais de departamentos de saúde — que publicam números oficiais sobre a evolução da pandemia da covid-19 no país — foram apanhadas acidentalmente pela purga. 

Desde quarta-feira que os utilizadores australianos deixaram de poder ver e partilhar qualquer tipo de conteúdo noticioso na rede social, isto porque o Facebook decidiu barrar a visualização de notícias no país em resposta a uma proposta de lei australiana que visa obrigar a Google e o Facebook a pagar pelos excertos de notícias (título e resumo) e hiperligações que aparecem nos seus sites. O propósito do Código de Negociação dos Media é garantir que os jornalistas conseguem uma remuneração justa pelo trabalho que circula nas grandes plataformas online.

O serviço de análise de dados Chartbeat nota que o tráfego de sites de notícias australianos diminuiu 20% desde que os habitantes da Austrália deixaram de poder ver e partilhar notícias. “Infelizmente, o desaparecimento do Facebook resultou numa queda dos números de tráfego dos editores”, explica um porta-voz do Chartbeat. “Quando o tráfego do Facebook caiu, o tráfego [de notícias] não foi para outras plataformas.”

No entanto, ainda há publicações que parecem notícias a circular entre os utilizadores australianos. Uma análise da Universidade de Tecnologia de Queensland (QUT), na Austrália, nota que a proibição não afectou algumas páginas com notícias “de qualidade baixa ou dúbia”.

“Algumas páginas do Facebook [que são] altamente partidárias e são conhecidas por divulgar desinformação [permanecem na plataforma]”, sublinhou Daniel Angus, professor associado do Centro de Investigação de Media Digitais da QUT, em declarações à estação de televisão Australian Broadcasting Corporation (ABC). 

Centenas de páginas que não partilham notícias também foram afectadas pelas alterações do Facebook e não conseguem partilhar informação na rede social, nomeadamente páginas de apoio à vítima doméstica, páginas de ajuda de mães e até agências funerárias.

A SA Health, a página de Facebook oficial das autoridades de saúde do Sul da Austrália, foi uma das afectadas.

O PÚBLICO contactou a equipa do Facebook ao final da tarde de sexta-feira para mais informações, mas não obteve resposta até à hora de publicação desta notícia. 

“Ao minimizar o papel dos media neste momento, o Facebook faz com que seja difícil que as pessoas acedam a boa informação na altura em que mais precisam”, criticou Maryke Steffens, investigadora de ciências sociais da Universidade de Sydney num artigo publicado recentemente no The Conversation, um site que partilha artigos e opiniões de académicos. “O facto que organizações de saúde pública e departamentos de saúde foram apanhados nisto — e estiveram ou continuam a estar impedidos de partilhar links nas suas páginas do Facebook — é particularmente preocupante.”

O primeiro-ministro australiano Scott Morrison já disse que o governo “não vai ser intimidado” pelas acções do Facebook. E descreveu a atitude do Facebook de “remover a amizade” da Austrália como arrogante.