Critério de chamada para vacinar varia: em Lisboa é aleatório, nas outras regiões é pela idade

Direcção-Geral da Saúde não especifica como deve ser feita a selecção das pessoas a convocar em primeiro lugar. Decisão fica nas mãos das administrações regionais de saúde e dos agrupamentos dos centros de saúde.

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Daniel Rocha

Os idosos a partir dos 80 anos e as pessoas com 50 ou mais anos e patologias associadas a maior risco em caso de covid-19 já começaram a ser vacinados mas o critério de chamada não é uniforme no país. No Norte, no Centro e no Algarve decidiu-se que as pessoas devem ser convocadas pela idade – primeiro são chamados os mais velhos -, mas em Lisboa e Vale do Tejo a escolha é determinada de forma aleatória.

Em conjunto, estes dois grupos prioritários representam “mais de um milhão de pessoas”, calculam os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS), organismo central que envia as listagens dos cidadãos a vacinar nesta primeira fase para os centros de saúde. Depois de há duas semanas terem arrancado os primeiros projectos-piloto com algumas centenas de pessoas, a vacinação está agora ser alargada progressivamente a todos os centros de saúde, mas o problema é que as doses estão a chegar a conta-gotas.

Por isso é preciso definir quem é chamado em primeiro lugar. Como é que isso está a ser feito? A selecção “é feita de forma automática e aleatória na região”, sendo as as pessoas convocadas “à medida que as vacinas vão sendo recepcionadas”, adianta a Administração Regional de Saúde (ARS) de Lisboa e Vale do Tejo. “As listas de suplentes seguem o mesmo princípio”, acrescenta.

Na ARS do Norte o critério é ir “da idade maior (por exemplo, 90 ou mais) para a menor (até 80)” e, no grupo a partir dos 50 com comorbilidades, a regra é a mesma. De igual forma, na ARS do Centro a priorização nestes dois grupos “é feita por ordem decrescente de idade”. No Algarve, o critério é semelhante, mas também é levada em conta a gravidade das doenças. A convocatória é feita por ordem decrescente de idade” e “atendendo [igualmente] à gravidade das comorbilidades associadas”, precisa esta ARS.

Para a nova coordenação do grupo de trabalho (task-force) responsável pelo plano de vacinação, a idade deve igualmente ser o principal critério, mas esta orientação ainda não está escrita, até porque caberá à Direcção-Geral da Saúde (DGS) fazê-lo. “Dentro desses dois grupos, em função das doses [que vão chegando], a vacinação deve ser feita de cima para baixo”, disse ao PÚBLICO o comandante Ramos de Oliveira, porta-voz da task-force.  

Na norma sobre vacinação contra a covid-19 que foi actualizada este mês, a DGS não define uma forma de priorizar dentro destes dois grupos, deixando assim ao critério das administrações regionais de saúde a organização do processo. A DGS especifica apenas que as ARS, com o apoio dos SPMS, fazem o “mapeamento das pessoas elegíveis” e que os agrupamentos de centros de saúde (Aces) “procedem ao agendamento da vacinação e à convocatória”, tendo em conta as vacinas disponíveis.  O PÚBLICO perguntou à DGS se tenciona definir um critério uniforme, mas não obteve resposta.

“Era bom termos uma orientação geral e já houve sindicatos [dos médicos] que pediram um esclarecimento e estão a aguardar”, recorda o presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, Nuno Jacinto, que trabalha em Évora. Enquanto isso não acontece, têm sido os directores clínicos dos agrupamentos de centros de saúde ou as ARS a decidir como fazer, explica. “No meu Aces, estamos a seleccionar por idade decrescente, do mais velho para o mais novo.”

“A idade é o critério mais equitativo e transparente”, considera José Luís Biscaia, director executivo do Aces do Baixo Mondego. No seu agrupamento, a chamada começou pelos “centenários” e, no caso do grupo dos acima de 50 com comorbilidades, a opção é priorizar quem tem mais de uma patologia, combinando este critério com o da idade. Mas há excepções. “No outro dia chamei um casal, um tinha mais de 90 anos e o outro, 80.” Fazia sentido que viessem os dois. “É uma questão de bom senso”, remata.

A escolha também depende das vacinas que vão chegando aos centros de saúde. Como a da AstraZeneca só está indicada até aos 65 anos, as doses que chegam têm que ser administradas aos doentes de risco, explica Diogo Urjais, presidente da Associação Nacional das Unidade de Saúde Familiar. Já se forem vacinas da Pfizer ou da Moderna, começa-se pela idade, em “escalões etários de cinco anos”.

Localizada em Leiria, a USF de Diogo Urjais foi uma das seleccionadas para projecto-piloto desta nova etapa e têm sido testados e corrigidos os processos de agendamento e de operacionalização da vacinação. Estão a ser corrigidos alguns erros e a experiência tem-se revelado positiva, observa o enfermeiro que considera que a taxa de resposta às convocatórias até tem sido relativamente alta. Ronda os 55% no grupo dos mais idosos, o que é aceitável, uma vez que uma parte significativa não tem telemóvel e alguns nem sequer têm um número de telefone actualizado, diz.

Vacinas não são suficientes

A vacinação dos idosos a partir dos 80 anos, independentemente de terem ou não doenças, apenas foi incluída no plano nacional de vacinação há três semanas, já depois de a Comissão Europeia ter definido como meta, até ao final de Março, a vacinação de pelo menos 80% das pessoas nesta faixa etária e de 80% dos profissionais de saúde. Nessa altura, em 28 de Janeiro, o ex-coordenador da task-force, Francisco Ramos, justificou a inclusão deste novo grupo na primeira fase com o aumento da incidência de covid-19 nesta faixa etária.

O problema da priorização apenas se coloca porque as doses das diferentes vacinas disponíveis estão a chegar lentamente e já se percebeu que Portugal vai receber quase menos de metade do total que tinha inicialmente previsto no primeiro trimestre. Actualmente, a capacidade instalada permitiria administrar entre 50 a 60 mil doses por dia, especifica o porta-voz da task-force.

Tendo em conta as estimativas do total de pessoas a vacinar nestes dois grupos, facilmente se percebe que as doses que estão a chegar a Portugal não vão ser suficientes para vacinar em simultâneo uma percentagem elevada destes dois grupos até ao final de Março. Devido à escassez de vacinas, o novo coordenador da task-force já assumiu, aliás, que a primeira fase não vai terminar no primeiro trimestre, prolongando-se por Abril.