A “bazuca” e as vacinas são como o trem espanhol

A “bazuca” faz lembrar o trem espanhol que nunca se sabe quando chega. O montante anunciado vai diminuindo com o passar do tempo e a excelsa burocracia europeia nem dá conta que agora é agora e que é agora que faz falta.

A pandemia que se abateu sobre a Humanidade veio pôr à prova a capacidade de cada país e no caso europeu da UE (organização que engloba 27 países, alguns dos mais ricos do mundo) de lidar com a doença e defender as respetivas populações.

A UE, através da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou, com pompa e circunstância, no ano passado, que tinha negociado com algumas empresas farmacêuticas colossais compras de vacinas para toda a União com a marcação da hora e do dia para começar a vacinação. O marketing foi perfeito.

Entretanto, como se sabe, as farmacêuticas, por motivos ocultos, falharam o cumprimento do prazo das entregas. O atraso significará mais infeções e vítimas.

Von der Leyen, empertigada, do alto do seu poder, apareceu a lembrar aquela velha máxima do Direito Romano, pacta sunt servanda. Falar em cumprir contratos quando se sabe que unilateralmente eles não vão ser cumpridos é algo que cheira a esturro, dado que a dimensão do problema diz respeito à saúde dos europeus da UE. Seria de esperar que o incumprimento das empresas tivesse consequências suficientemente fortes para voltar a pô-las nos eixos do cumprimento a que estão obrigadas.

Em Lisboa, ao lado de António Costa, no dia 15/01/2021, Von der Leyen declarou solenemente que telefonara ao CEO da Pfizer e que ele garantira a entrega. Claro que a Pfizer vai entregar, mas fora do prazo. Um mês depois, Marta Temido deu a notícia que Portugal receberá no primeiro trimestre dois milhões e meio de doses e não quatro milhões e quatrocentas como estava acordado.

O que está em causa é a facilidade com que estas empresas incumpriram depois de terem recebido milhares de milhões de euros para investir na vacina. Ou seja, receberam o “dinheirão” e a garantia das compras. E depois jogaram na Bolsa e nos lucros e salvar vidas passou para segundo plano.

A eficiência e a competência da senhora Ursula saíram abaladas. Imagine-se o que sucederia se fosse da responsabilidade de António Costa, quantas cargas tremendistas lhe cairiam em cima; como a senhora é alemã, nada a dizer, o respeitinho é muito bonito.

A UE assemelha-se a uma enorme locomotiva com 27 carruagens em que a máquina alemã puxa no sentido de Berlim e as carruagens resvalam para os respetivos países.

Os países que vão ao pé da máquina tratam da sua economia como acham ser do seu interesse nacional. Os países periféricos endividados têm de prestar conta aos outros da frente que lhes metem à frente do nariz o défice, qual zaragatoa. Os empréstimos para fazer frente à crise contam para o défice, como convém ao pelotão da frente.

Do ponto de vista da ajuda aos países com mais dificuldades é interessante focarmo-nos nas peripécias da chamada “bazuca”. Qualquer Estado sabe que o seu futuro, no essencial, depende de si, da capacidade de unir a população e desenvolver-se. Evidentemente que fundos de coesão, de solidariedade, de cooperação ajudam se forem bem utilizados, mas é do esforço de cada país que depende o futuro.

Sendo a pandemia um terrível flagelo com devastadoras consequências económicas e sociais, era necessário que a UE respondesse coma brevidade resultante da dimensão da própria crise.

No entanto, a “bazuca” faz lembrar o trem espanhol que nunca se sabe quando chega. O montante anunciado vai diminuindo com o passar do tempo e a excelsa burocracia europeia nem dá conta que agora é agora e que é agora que faz falta face às quedas dos PIB.

O pelotão da frente irá pedalando ao sabor dos ventos da geopolítica entre Washington, Moscovo, Pequim. Portugal, adormecido pela cantilena, espera e esperará. Em Alcácer Quibir morreu um Rei português há séculos. Quem esperou pelo tal dia nevoeiro foi Portugal. Agora é a vez da “bazuca"?

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico