A digitalização do setor agroalimentar, um novo “unicórnio” português

Os países e os sectores que mais rapidamente conseguirem colocar no terreno a tecnologia digital serão aqueles que mais prosperidade e sustentabilidade conseguirão atingir na sua atividade produtiva. As startups e os unicórnios por elas gerados abraçam agora a inevitabilidade diária da humanidade, a alimentação.

O setor agroalimentar português tem vindo a ganhar relevância ao longo da última década no conjunto das atividades económicas do nosso país. Em linha com os novos desafios da União Europeia, a Confederação dos Agricultores de Portugal apresentou, perante diversas individualidades, incluindo o Presidente da República e vários membros do Governo, um documento estratégico designado “Ambição Agro 2020-30”, com um conjunto de propostas destinadas a contribuir para a recuperação da economia nacional e dar um impulso à coesão e ao progresso social, entre as quais se encontra precisamente a vertente “tecnologia e digitalização”.

Na concretização dessa estratégica, a CAP integra um consórcio de onze entidades com o objetivo de digitalizar o setor e os seus utilizadores, submetendo uma candidatura à Rede Europeia de Polos, que designou “Farm2Fork – Digital Innovation Hub”. Este ecossistema de inovação digital é dirigido a toda a cadeia de valor agroalimentar, no sentido de produzir, testar e demonstrar soluções assentes em tecnologia digital avançada, com vista à sua aplicação em ambiente empresarial, com impactos efetivos na eficiência, produtividade e valor de toda a cadeia produtiva.

A missão do “Farm2Fork DIH” é a digitalização nacional de toda a cadeia de valor alimentar, abrangendo a produção agrícola, a indústria agroalimentar e a distribuição, atuando em toda a cadeia de valor, desde a produção até ao consumidor, promovendo a transição digital rumo ao cumprimento do Green Deal. São objetivos estratégicos do “Farm2Fork DIH” oferecer soluções digitais adaptadas à realidade e às necessidades dos setores em referência, com elevado potencial de comercialização no mercado, formar e capacitar os utilizadores e as empresas agroalimentares e apoiar as empresas na procura de investimento para a sua digitalização.

Estou convicto de que este polo de inovação digital irá funcionar como um “hub” de fornecedores de tecnologia digital e utilizadores que, beneficiando da digitalização da cadeia de valor, poderão colaborar no desenvolvimento de novas soluções úteis e concretas, no sentido de responder às necessidades das empresas agroalimentares. O envolvimento de toda a cadeia de valor que este consórcio apresenta é diferenciadora e disruptiva, tendo como base os seguintes projetos estratégicos:

  • Agricultura (Farm) – agricultura de precisão disponível para todos os agricultores pela utilização diária da informação disponibilizada pela UE no âmbito dos satélites Sentinel e Copernicus. O objetivo é apoiar os agricultores a orientarem-se na paisagem digitalmente, mas também possuírem uma ferramenta digital que analisa e computa todos os esses dados para serem disponibilizados diretamente numa estação de comando agrícola, dando assim os primeiros passos na agricultura de precisão. Esta ferramenta digital terá um impacto enorme e exponencial na competitividade das empresas agrícolas, aproximando todos os agricultores da agricultura de precisão, democratizando a informação climática e de cultura, e traçando o rumo no cumprimento do Green Deal.
  • Indústria (2) – a rastreabilidade alimentar é uma necessidade de mercado cada vez mais emergente por força da necessidade de manter a qualidade e originalidade dos alimentos, algo que começa a ter cada vez mais aplicação nos diversos segmentos da cadeia alimentar. A monitorização real-time da qualidade dos alimentos é um dos projetos que o DIH irá desenvolver e implementar na cadeia de valor agroalimentar.
  • Distribuição (Fork) – Utilização das tecnologias de realidade aumentada, realidade virtual e multimédia, enquanto facilitadores da “user experience” de um consumidor numa superfície comercial, facilitando operações de “product finder”, acesso a informação, “gamificação” e suporte a ações de promoção. 

A implementação desta verdadeira revolução do sector agroalimentar vai trazer novas necessidades de postos de trabalho especializados como também imprimir uma eficiência na utilização de recursos nunca possível até agora sem o recurso à digitalização.

Na verdade, e ao contrário do que alguns ainda possam pensar, o setor agrícola já utiliza instrumentos tecnológicos com drones, posicionamento por GPS e sensores nos solos, por exemplo, mas falta articular as soluções tecnológicas com a sociedade de uma forma geral e com os consumidores em particular. Assim, se para o setor agroalimentar a adoção das novas tecnologias representa ganhos em eficiência e gestão de custos, bem como a implementação de novas oportunidades de negócio; para os consumidores, por outro lado, permitirá obter dados e informação em tempo real sobre os produtos e os modos de produção, com observação e rastreabilidade direta das condições de qualidade e segurança alimentar. 

E é exatamente esse passo que pretendemos agora dar, com inquestionáveis vantagens a todos os níveis e para todos os agentes envolvidos no processo de produção, distribuição e consumo de produtos agroalimentares.

Os países e os sectores que mais rapidamente conseguirem colocar no terreno a tecnologia digital serão aqueles que mais prosperidade e sustentabilidade conseguirão atingir na sua atividade produtiva. As startups e os unicórnios por elas gerados abraçam agora a inevitabilidade diária da humanidade, a alimentação. É esta a visão do “Farm2Fork DIH” e o nosso grande objetivo com a implementação deste projeto.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico