Tentar salvar, a todo o custo, a nossa saúde mental

Mãe, diziam que o SNS estava mal. Agora está pior que mal. Que a nossa saúde mental era sofrível. Agora estará com certeza péssima. Que a economia estava mal. Agora está de rastos. Que o pessimismo dos portugueses era endémico. Agora até eu fui por ele contagiada...

Foto
@DESIGNER.SANDRAF

Querida Mãe,

Acabei de ler um post de uma mãe que foi à urgência pediátrica com o filho, mas que quando lá chegou, disseram-lhe que estava fechada por causa da covid. Uma amiga próxima contou-me que passou a semana em lágrimas (dela e da filha), a tentar convencê-la a entrar no Zoom, a fazer os trabalhos e a cumprir com o horário das 9h às 17h. Que se deita ansiosa a pensar em como vai lidar com a manhã seguinte. A mesma mãe que já não sabe que desculpa há-de dar ao chefe porque sente que está a trabalhar pouco e mal. A mesma mãe que trata da casa, da comida e da roupa de todos os quatro.

Um amigo do meu marido está desesperado porque esteve em contacto com uma pessoa que testou positivo, e por isso não vai poder trabalhar 14 dias, sendo que se não trabalha não tem mesmo como pagar as contas.

Eu e tantas outras mães estamos com os cabelos em pé porque pior do que não podermos sair de casa é sentirmos como os nossos filhos já não querem sair de casa! É impossível convencê-los a sair, a darem mais uma volta ao quarteirão, enquanto também se queixam, como a Martinha ainda fez há momentos, “que já fiz tudo o que é possível fazer nesta casa... várias vezes. Quero é estar com a avó”.

Uma tia desespera porque o marido está nos cuidados intensivos. Outra chora de alegria porque o marido voltou para casa, embora ainda muito doente, mas não sabe como é que aguenta fisicamente mais um dia que seja a cuidar dele sozinha. Mãe, diziam que o SNS estava mal. Agora está pior que mal. Que a nossa saúde mental era sofrível. Agora estará com certeza péssima. Que a economia estava mal. Agora está de rastos. Que o pessimismo dos portugueses era endémico. Agora até eu fui por ele contagiada...

Pronto, amanhã passa-me, mas hoje só consigo ver o copo meio vazio... Ajude-me a vê-lo meio cheio!

Que coisas boas me conta?


Querida Filha,

Hum, mal o sol desaparece do céu torna-se mais difícil o optimismo. Uma vez apanhei um táxi no Porto, conduzido por uma senhora, o que era invulgar na altura, e no meio da conversa ela desabafou que a meteorologia lhe afectava muito o “psicológico”, e eu estou com ela. Senti-me muito melhor no fim-de-semana passado quando o céu brilhava azul, já se viam nas árvores aqueles rebentos verde alface que apetece trincar, e nos meus passeios vi narcisos e lírios a despontar.

Pronto, não faço poesia, mas é só que a Primavera vem mesmo aí. E se é verdade que não paga contas, nem remedeia o SNS, nem vai contribuir grande coisa para a economia, nem torna menos penoso ficar o dia inteiro em frente de um computador, é uma promessa de ressurreição. E isso faz bem à nossa saúde mental, que é aquela que a todo o custo temos de tentar salvar.

Para te dizer a verdade sinto o coração bastante mais leve desde que vocês apanharam e recuperaram da covid, alguns dos teus tios já foram vacinados, e de cada vez que ponho um “certo” à frente dos nomes dos meus amigos que sobreviveram a esta guerra.

O que não significa desvalorizar os testemunhos que a tua carta me traz. Para alguns não tenho solução, nem há penso rápido que lhes valha, mas para outros atrevo-me a pensar que podemos e devemos lutar para os resolver.

1. Chega de horários absurdos de escola online, sobretudo das escolas particulares que me parece estar a empanturrar os alunos de aulas para justificar as propinas. Percebo que seja duro para os pais pagar uma escola que os filhos não têm, e que seja impossível as escolas assegurarem mais do que um desconto de 20% (aparentemente é esta a média), quando há uma equipa que continua a precisar de receber ordenado ao fim do mês, mas mais aulas não são nem melhores resultados, nem miúdos mais empenhados.

2. Há crianças que ficaram verdadeiramente traumatizadas com a experiência escolar do primeiro confinamento. Este segundo vai acordar nelas a ansiedade que nunca ficou resolvida. Sei que os pais e os professores também não estão com muita cabeça, mas não conseguirão em conjunto inventar uma forma de contornar esta fobia de maneira a que não se torne ainda maior?

3. Quanto a passeios, que vão pelos cabelos, mas vão, façam exercício, saíam. Custa ao princípio, mas depois faz bem a tudo. E dorme-se mil vezes melhor. Ana, se voltássemos à nossa ideia de colocar ursos nas janelas, para que os miúdos lhes acenem quando passam? Inventem qualquer coisa, mas ponham-nos a mexer. Senão o copo fica mesmo vazio.

Beijos


No Birras de Mãe, uma avó/ mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, vão diariamente escrever-se, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. Na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. Facebook Instagram.