Um elefante pintado na rocha para não esquecermos as maravilhas deste mundo

A fotógrafa Ami Vitale — cinco distinções World Press Photo — quer “conservar a natureza através da arte”. A primeira peça deste projecto é um dos “seus” elefantes pintado pelo artista francês Mantra num rochedo no Quénia.

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A rocha pintada pelo artista Mantra Ami Vitale

Uma formação rochosa no Norte de Quénia em tempos usada como refúgio por caçadores de elefantes transformou-se recentemente num peça efémera do artista francês Youri Cansell aka Mantra, que usando tintas à base de água pintou um elefante de Namunyak fotografado por Ami Vitale, que criou e desenvolveu o conceito e trabalhou no projecto nos últimos cinco anos.

“É um sonho”, confessa à Fugas Ami, há sete anos em contacto com a comunidade local. “Envolveu conseguir a confiança e o respeito dos mais velhos”, sublinha a fotojornalista da National Geographic, que esteve em Portugal em 2017 como oradora do Exodus Aveiro Fest e que agora coloca no terreno o início de um projecto em que procura “conservar a natureza através da arte”. “Passei muito tempo a pensar em formas de reunir as comunidades em torno da conservação da natureza usando a forma mais antiga de contar histórias misturada com novas formas de arte”, diz Ami Vitale, que escolheu o artista e financiou todo o projecto.

Na sua conta de Instagram, Ami Vitale partilhou a colaboração com o artista e naturalista Mantra — especialmente fascinado pela entomologia, o mundo dos insectos, pelas borboletas que pinta em ambientes urbanos onde raramente são avistadas — e com os “amigos maravilhosos” no Santuário de Elefantes Reteti (R.E.S.C.U.E) que em conjunto “conspiraram para tornar este sonho selvagem em realidade”.

Reteti, sublinha a fotógrafa, é o lar do primeiro santuário de elefantes pertencente e administrado por indígenas em África. “As pinturas rupestres são a forma mais antiga de contar histórias. Os anciãos Samburu que aqui vivem guiaram-nos a um lugar que guarda um simbolismo poderoso. Esta rocha já foi usada por caçadores furtivos de elefantes, mas agora é um lugar para os membros da comunidade, idosos e visitantes se reunirem.”

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A fotografia original de Ami Vitale

Embaixadora da Nikon e fotógrafa da National Geographic, Ami já viajou por mais de cem países, testemunhando não apenas não apenas a violência e o conflito, mas também a beleza surreal e o poder duradouro do espírito humano. Em 2009, depois de contar a história sobre o transporte e a libertação de um dos últimos rinocerontes brancos do Norte do mundo, Ami mudou o seu foco para as histórias relacionadas com o ambiente e a vida selvagem.

Foi precisamente com uma reportagem fotográfica sobre uma comunidade no Quénia que protege os elefantes que a norte-americana venceu um dos cinco prémios World Press Photo da sua carreira.

“Há muitos anos que uso a fotografia e o vídeo para contar histórias poderosas desta comunidade. E há muito que queria usar outros meios como forma de inspiração para protegermos o nosso planeta e os animais com os quais convivemos”, disse à Fugas Ami Vitale, que em Março de 2018 fez uma viagem “comovente” de volta ao Quénia para se despedir do Sudão, o último rinoceronte branco do norte do mundo vivo no planeta.

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Ami Vitale em acção

Desta vez colocou nas mãos de Mantra uma “imagem bidimensional” de um elefante selvagem e pediu ao francês — Martha Cooper descreve assim o pintor autodidacta que pinta nas ruas desde 2008: “A sua excepcional habilidade técnica combinada com sua paixão pela natureza e experiência humana não só anima as nossas cidades, mas alerta-nos para questões globais urgentes” — que lhe desse vida.

“A minha ideia era criar algo na natureza que fosse significativo e efémero. A pintura não durará para sempre, mas a memória do que foi criado nesta comunidade viverá para sempre.”

Com a ajuda de um andaime, e da comunidade local, Youri Cansel terminou a sua obra num dia. Ami Vitale escreveu assim no seu Instagram: “Os milagres podem acontecer e todos nós podemos fazer mais para garantir que os nossos filhos experimentem a beleza e as maravilhas deste mundo.”