Nós, o Governo e quanto custa um seguro governamental

Para quem incumpre, a lógica do “sou livre” impera. Mas ser livre de quê? De poder transmitir ao outro uma doença altamente contagiosa que o pode levar à morte?

Por muito que se tente fazer pedagogia sobre as medidas a tomar para deter o (vírus) vulgarmente chamado covid, muitos persistem em ignorar estas últimas.

Desci ao Jardim do Campo Grande sábado e domingo passados (o passeio higiénico, por assim dizer), frente à casa em que habito.

Muitos passeantes não usavam máscaras, quanto mais manter a distância social, em pose de arrogância, desafio e impunidade. O mesmo sucedeu, aliás, nas zonas ribeirinhas e em outros jardins públicos.

Mesmo que por dever cívico, enquanto caminhava, chamasse a atenção, a resposta mínima era a indiferença, o egoísmo e, por fim, a máxima: o insulto. Quanto ao insulto, os leitores podem imaginar. No mais, respostas como “Sou livre”; “Não tem nada a ver com isso”; “É polícia?”.

Pois, justamente, polícia não se via no Jardim do Campo Grande, onde afluem muitos lisboetas, contando crianças e muitos idosos.

Onde está a fiscalização do Estado, a fiscalização municipal? Hoje possuem meios de autoridade e sancionamento que não lhes assistiam anteriormente, face à infração das regras de confinamento.

Eu considero-me, sim, um agente/polícia de cidadania face a infrações que colocam em risco a saúde de todos e a própria sociedade e a economia.

Para quem incumpre, a lógica do “sou livre” impera.

Mas ser livre de quê? De poder transmitir ao outro uma doença altamente contagiosa que o pode levar à morte? Nos EUA, por exemplo, as mortes por covid-19 em 2020 praticamente igualaram os óbitos atribuíveis a doenças oncológicas. Em todo o mundo, a disseminação da doença tornou-se disruptora da atividade económica e lançou na miséria dezenas ou centenas de milhões de pessoas.

Livre de ignorar o outro? Livre de cometer alegre e impunemente infrações que podem ter consequências letais?

Tal postura não é de Liberdade, é, no mínimo, de irresponsabilidade e de egoísmo, pois hoje ninguém ignora as consequências das infrações descritas.

A Liberdade exige Responsabilidade, esse outro lado que tantos “ignoram”, como “ignoram” que não há direitos sem obrigações, ou simplesmente não o aceitam.

Liberdades e direitos são aquisições sem as quais não existe Democracia; não as destruam, ignorando ou fazendo por ignorar que a responsabilidade e as obrigações são suportes daquela.

O momento que vivemos é particularmente frágil: a coberto da pandemia vemos desfilar condutas impróprias que passam impunes politicamente e que não seriam nunca, em tempos alegadamente normais, aceitáveis como uma boa dose de nepotismo, de falta de ética, de apropriação do aparelho de Estado. E não pode esquecer-se que, no meio de tudo isto, a pandemia também traz aspetos de que poucos falam, como a escolha silenciosa dos que sobreviverão e dos que morrerão, face à pressão sobre a capacidade do sistema de saúde, a lembrar tempos inomináveis. Ou a falta de verdade nas contas públicas, etc.

Mas com um primeiro-ministro agora mais exigente no que respeita à pandemia, a subir nas sondagens, centrado em salvar uma quase invisível presidência portuguesa do Conselho da União Europeia, gerindo politicamente (com mestria) a situação de crise.

Como não existe oposição – o presidente do maior partido da oposição é o maior seguro de vida do primeiro-ministro e o pior é que nem dá por isso –, a falta de um projeto para o País, a falta de planeamento, incluindo no que respeita à pandemia, a ausência de condições para todos acederem ao ensino, a fome que aumenta, as situações que afrontam essa base indispensável da democracia que é a igualdade de oportunidades, vão passando incólumes.

As oposições são também culpadas, pela sua inação, do bloqueamento da situação política que alimenta populismos e extremismos.

Tantos e tremendos irresponsáveis, sem sanção?

E nós, o povo soberano?

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico