Vila Morta, o vídeo que mostra Óbidos sem turistas, nem residentes

E se um dia despertássemos e não houvera, para além de nós, vivalma? Se saíssemos de casa e percorrêssemos ruas absolutamente desertas? É essa a experiência que Luís O’Neill Teixeira partilha num vídeo gravado em Óbidos, percorrendo um “labirinto desvitalizado”, em plena pandemia, sem turistas, mas também sem moradores.

O filme põe a nu a dependência de Óbidos do turismo e dos eventos. A "Vila Natal, Vila Medieval, Vila Chocolate, Vila Literária, Vila Museu" é agora a ...Vila Morta. “É uma cena onírica”, diz o autor do filme, referindo-se ao que elenca: “pousada e hotéis despojados, o alojamento, local desolado; dos turistas chineses, apressados, aos magotes, russos ou brasileiros aos pacotes, bimbas e bifas tatuadas no decote, tudo em chanatos, tudo de shorts; tuk-tuk e TikTok; desalojadas lojas, lojinhas e lojecas”.

Actualmente são menos de uma centena os habitantes que vivem intra-muralhas. A vila transformou-se num parque de diversões, em que todos os serviços estão preparados para os turistas. Na ausência deles, não havendo procura, não há oferta. E ficou a vila morta. As imagens espelham isso mesmo de uma forma crua, às quais a música de fundo dos Clash (Ghetto Defendant) e dos Stranglers (WaltzinBlack) acrescentam algum dramatismo.

Luís O’Neill Teixeira, de 55 anos, é arquitecto e reside em Óbidos há seis anos, depois de ter vivido em Lisboa e no Alentejo. Se a vila a abarrotar de turistas o desesperava, agora hesita em reconhecer se tem saudades das multidões que invadiam a rua Direita e se espalhavam pelos recantos do burgo. “É um sentimento ambíguo”, diz. “O que se passa aqui também se passa noutros sítios, mesmo em Lisboa, onde tenho dificuldade em reconhecer a cidade da minha infância”.

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