Joan Margarit, um poeta misteriosamente feliz

Joan Margarit (1938-2021) criou uma obra poética completamente bilingue (catalão e castelhano), com aquela força de quem acredita nos efeitos da poesia sobre os leitores, os quais, aliás, responderam à sua convocação em tão elevado número e com uma assiduidade a que hoje raramente a poesia, na sua condição minoritária, tem direito.

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Rui Gaudêncio

 Na última entrevista que deu, no final de Dezembro, (ao jornal El País) o poeta catalão Joan Margarit, falando abertamente da sua morte que já se afigurava iminente (por acção de um cancro), exclamava: “Tanto me da (...). Pero tengo 82 anõs y estafado no me puedo sentir”. Essa coisa que ele encarava, desde há muito (e alguns dos seus poemas comprovam-no) com um misto de sabedoria e indiferença — a morte — sobreveio na terça-feira, pouco tempo depois de ter recebido, num acto privado (por causa do confinamento foi cancelada a cerimónia pública) o Prémio Cervantes de 2019. No mesmo ano também lhe foi outorgado o Prémio Reina Sofía de Poesia Ibero-americana, coroando assim uma consagração ao mais alto nível deste poeta nascido em 1938, que foi também um poeta “popular”, no sentido em que alguns dos seus livros de poesia, sem fazerem qualquer favor à facilidade e ao gosto massificado, tiveram uma enormíssima difusão. A sua poesia, nascida de uma interioridade emotiva e da matéria biográfica, muito devedora de uma ideia de testemunho, busca a sua força nas qualidades clássicas: beleza, verdade, harmonia, rigor, exactidão. Nada de empolamento romântico e dos seus avatares vanguardistas.