Dirigente qatari não cumprimentou mulheres após final do Mundial de Clubes

Presidente da FIFA nega envolvimento no incidente. Foi a primeira vez que final de torneio internacional teve participação de árbitras.

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Edina Alves Batista (centro) e Neuza Back (à esquerda) participaram na final do Mundial de clubes Ibrahem/Alomari

Pela primeira vez na história do futebol masculino, a final de uma competição internacional da FIFA teve como participantes activas duas mulheres. Edina Alves Batista foi a quarta árbitra e Neuza Back a auxiliar de reserva: a dupla brasileira já tinha feito história numa partida anterior da mesma competição, naquela que foi a primeira vez que uma mulher foi a árbitra principal – a que se juntaram outras duas auxiliares – num torneio da FIFA. A final do Mundial de Clubes entre Bayern de Munique e Tigres tinha, assim, todos os ingredientes para que o desporto-rei voltasse a marcar golos na luta pela igualdade de género. Mas mesmo com a baliza escancarada, esse remate figurativo não encontrou a baliza e saiu direitinho para a bancada, mostrando-nos, uma vez mais, o enorme fosso que falta ainda ultrapassar.

O que aconteceu afinal? Após uma partida bem disputada e sem uma actuação polémica da equipa de arbitragem, o jogo ficou marcado pelo facto de o xeque Joaan – membro próximo da família real qatari e elemento destacado para representar o Governo nesta final – não ter cumprimentado as duas árbitras. Circularam rumores de que o presidente da FIFA, Gianni Infantino, tinha dado ordens às árbitras para não tentarem cumprimentar o xeque, notando-se no vídeo que o dirigente tem uma conversa prolongada com as duas mulheres após a entrega das medalhas de participação. Acusações que Infantino negou esta segunda-feira em comunicado.

“Dadas as mentiras que foram espalhadas online relativamente ao que disse às árbitras durante a final do Mundial de Clubes, gostaria de emitir uma clarificação. Usei a oportunidade para as parabenizar pelo excelente trabalho feito durante a competição. Isto foi um feito para a FIFA. A primeira vez que duas mulheres foram nomeadas e arbitraram numa competição de futebol masculino senior da FIFA”, clarificou o presidente do órgão desportivo em comunicado publicado no site da FIFA. Infantino relembrou ainda o trabalho feito pela instituição contra todo o tipo de discriminações e a favor da igualdade de género.

A verdade é que após a entrega da medalha, o xeque Joaan cumprimentou todos os outros membros da equipa de arbitragem com o punho fechado — gesto conhecido como “fist bump”. No caso das profissionais, o dirigente qatari nem sequer olhou para elas, ignorando a sua presença, atitude duramente criticada nas redes sociais. 

O Qatar será o anfitrião do próximo Mundial de selecções, competição marcada para o Verão de 2022. Tal como acontece na Arábia Saudita e no Irão, a participação das mulheres na vida desportiva é muito limitada. Em vários países do Médio Oriente, a presença de mulheres nos estádios é expressamente proibida, não existindo equipas ou ligas desportivas femininas. Algo que era uma realidade no Qatar, mas que, com a pressão da FIFA, começa agora a mudar lentamente. Foi criada uma selecção nacional feminina, que ficará sediada num dos estádios edificados para a competição. Também durante a qualificação para o Mundial, a FIFA teve de exercer pressão para que os jogos de apuramento do Irão pudessem ter público feminino nas bancadas. Teerão acabaria por ceder ao braço-de-ferro e o Ministério do Desporto aprovaria as exigências do órgão internacional.

No Mundial de 2022, não se prevê que existam restrições no acesso aos estádios. Para termos uma noção das “cedências” feitas pelo Governo qatari, as mais recentes notícias apontam para que os visitantes possam ter acesso a bebidas alcoólicas, algo proibido num país de costumes muçulmanos.