O ano em que A Máscara de Cortiça não sai à rua

Um ano depois da rodagem, o realizador Tiago Cerveira disponibiliza online a curta-metragem filmada em Góis. As serras e as aldeias recônditas, as quadras de escárnio e de maldizer, os bigodes e as sobrancelhas “à malandro” dos cortiços de Manuel Claro (1946-2020).

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Manuel Claro, o último ancião morreu pouco tempo após a rodagem. O filme é dedicado a ele Tiago Cerveira
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Folião nos Penedos de Góis Tiago Cerveira
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Aigra Nova, aldeia da sede da Lousitânea Tiago Cerveira

Um bigode farfalhudo de lã de ovelha, umas sobrancelhas “à malandro” e umas orelhas de elefante dão o toque final na máscara de cortiça de Manuel Claro que já ganhou um lugar entre as muitas máscaras e as ferramentas na oficina do artesão. Estes também são os protagonistas do filme A Máscara de Cortiça, rodado em dois dias de Fevereiro de 2020 nas Aldeias do Xisto de Góis, em plena Serra da Lousã e que acompanha o Entrudo nas recônditas Aigra Nova, Aigra Velha, Esporão, Pena e Ponte do Sõtão onde a cortiça é a rainha da festa.

Precisamente um ano depois — e alguns prémios depois (Avanca Film Festival, ART&TUR, CineEco e Viva Film Festival da Bósnia e Herzegovina) — o realizador Tiago Cerveira decidiu entregar “ao povo o que é do povo”, colocando online e disponível gratuitamente o seu trabalho de cerca de 15 minutos “para a malta não esquecer” as aldeias, as pessoas e as tradições. “Este tipo de manifestos perderam-se da mesma forma que se perdeu quase tudo nestas aldeias. Pelo abandono. Acho que abandono até é uma palavra agressiva demais. Pela desistência”, sublinha a determinado momento do documentário Jorge Lucas, da Lousitânea, Liga de Amigos da Serra da Lousã com sede na Aigra Nova que há 15 anos organiza esta festa que se desloca, uma reconstituição a partir daquilo que foram ouvindo contar.

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Folião nos Penedos de Góis Tiago Cerveira

Os seus membros são os “netos e filhos das aldeias”, explica à Fugas Tiago Cerveira, que começou “como folião”. “Sou sempre folião lá”, assume, orgulhoso o realizador que Jorge Lucas desafiou a pousar a máscara para gravar um vídeo de dois minutos que seria usado na candidatura às 7 Maravilhas da Cultura Popular. Fez-se o vídeo e, com os brutos, Tiago coseu uma curta documental sobre “um dia em que valia quase tudo”. Os sobreiros uniam as aldeias serranas e os velhos cortiços (colmeias feitas da casca das árvores) usados como máscaras, corriam as povoações para pregar partidas e declamar quadras jocosas.

“Diziam que era assim que o Entrudo era comemorado. Era um sinal de enxovalho, de gozo colocar nas aldeias vizinhas um Entrudo, vulgo espantalho. Fazia-se a leitura das quadras jocosas, acontecimentos bizarros de escárnio e de maldizer. As pessoas iam anotando ao longo do ano e liam naquela noite, numa espécie de julgamento na praça pública”, refere Tiago, realizador de 30 anos natural de Travanca de Lagos. “Quando os cortiços estavam obsoletos”, conta, “pegava-se na meia-lua arredondada e ornamentava-se”. Os homens vestem-se de mulher e as mulheres — que no sábado cozem o pão para o domingo gordo — disfarçam-se de homem.

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Os gaiteiros António Freire e Mauro Martins animam a corrida com o som da gaita de Coimbra Tiago Cerveira

“Voltar lá ao passado”, suspira na curta Natália Domingos. “Cada ano que passa faz uma máscara nova”, diz Tiago, que anota “um interregno muito grande na comemoração deste Entrudo, que se deve ter perdido pelos anos 70”. E o que é que acontece nestas aldeias durante o ano? “Nada”, responde o realizador. “Neste dia as pessoas revivem a mocidade”.

No filme, Paulo Silva traduz a vontade da Lousitânea: “Estamos a conseguir que as pessoas voltem a acreditar e voltem a ligar-se a uma questão cultural que desapareceu por causa da falta de pessoas”.

As contas de cabeça são de Tiago Cerveira. Serão umas 70 pessoas em Ponte de Sótão, umas 20 em Esporão, umas três em Pena e outras tantas em Aigra Velha, “uma aldeia isolada onde vivem três pessoas que não se falam”. E uma única em Aigra Nova, aldeia de Manuel Claro (1946), que morreu nos primeiros dias de Março, pouco depois da rodagem, a 22 e 23 de Fevereiro. Tiago Cerveira estava a editar quando recebeu a notícia. “Apareceu caído na quinta... um homem cheio de vida, o último ancião, a fonte de informação deles todos. Sabia tudo. Na aldeia vive a viúva Lurdes, a única habitante de Aigra Nova”.

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O realizador Tiago Cerveira

Licenciado em Comunicação Social, Tiago Cerveira foi jornalista como repórter de imagem durante cinco anos (na Centro TV) antes de fazer uma pausa de seis meses (numa gelataria na Alemanha) para “repensar a vida”. É actualmente freelancer na área de vídeo e fotografia sem nunca deixar de documentar o património de Portugal rural. O seu projecto O Meio e a Gente (tudo online) já ouviu pessoas que perderam tudo para os incêndios (15 Memórias do Fogo), sentiu o pulso ao movimento neo-rural na zona de Arganil (Wildlings), seguiu rebanhos em romaria a São Geraldo (Pagar a Promessa) e acompanhou Hortência, mãe de Tiago, no último dia de trabalho numa confecção na região de Oliveira do Hospital (Facto dos Fatos).

Neste dia as capoeiras são alvo de ataques dos foliões Tiago Cerveira
A Soltar as quadras jocosas em Aigra Nova Tiago Cerveira
O jogo do pau em Aigra Nova Tiago Cerveira
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Tiago Cerveira

Este ano, volta a não haver Entrudo nas vielas das Aldeias do Xisto de Góis. As comemorações fazem-se online e o presunto e o bacalhau, normalmente presos no topo do pau até que alguém com coragem e garra os conquiste, serão sorteados. “Este ano”, recorda Tiago Cerveira, “impõe-se o uso de outro tipo de máscara”.