A estrada que é um miradouro sobre o Lima

Das alturas da Serra Amarela à vagareza da foz em Viana, o Lima é o companheiro de uma viagem curta na quilometragem, mas rica naquilo que encerra de paisagens, de património, de boa mesa. E de bons vinhos no copo. Roteiro para uma escapada pela Nacional 203.

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Numa perspectiva quantitativa, é difícil chamá-la de “grande estrada”. Por mais voltas que se dê, os puristas dos números aí estarão para lembrar a quilometragem, medida objectiva de grandeza: de ponta a ponta, a Nacional 203 leva pouco mais de 60 quilómetros. Sessenta e seis, se contarmos a extensão a Lindoso, já sobre o piso da N304-1, que dali leva até à Galiza. É uma estrada relativamente curta. Porém, o que lhe falta em comprimento é compensado na praticidade.

Se de outras estradas se diz que são toda uma viagem em si mesmas, a N203 facilmente se “vende” como um grande passeio de ida e volta. A medida perfeita para quem só tem um par de dias para dispensar.

Do ponto de vista prático, Ponte de Lima, situada sensivelmente a meio caminho e abundante em matéria de boas mesas e bons poisos, é o melhor campo-base. Além disso, oferece também um dos acessos mais rápidos ao vale do Lima, via A3. No entanto, para um maior efeito dramático, é Lindoso que marca no mapa o ponto de partida.

O grande postal de Lindoso são os seus espigueiros, meia centena de casitas de pedra erguidas sobre estacas, algumas ainda em uso.
No centro da aldeia, uma fonte brota da pedra, transborda um tanque e segue ladeira abaixo, fazendo da rua um rio.
Nas bermas da N203 vislumbram-se ovelhas, cabras e a ocasional vaca de raça cachena.
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O grande postal desta aldeia que se tornou um dos símbolos do Parque Nacional da Peneda-Gerês são os seus espigueiros, uma visão desconcertante a quem lhe faltar o contexto. Meia centena de casitas de pedra erguidas sobre estacas, algumas ainda em uso na função para que foram criadas – o armazenamento de cereal. A disposição em desalinho fá-las parecer um rebanho de granito espalhado num pasto, em particular quando se observa das muralhas do castelo que coroa o cabeço.

Exploradas estas duas atracções principais, pode pensar-se que Lindoso está visto. Erro de principiante apressado – e quem ousar demorar-se mais um pouco e caminhar povoação adentro, passando a igreja matriz, verá que vale a pena. Caminha-se até encontrar uma fonte, que brota da pedra, transborda um tanque e segue rua abaixo. Uma rua feita rio, com pontezinhas de acesso às casas, o coração palpitante da aldeia. A natureza tão bruta quanto generosa, como é assinatura da Peneda-Gerês.

A antiga Central Hidroeléctrica de Lindoso é uma presença imponente à beira-Lima.
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O rio Lima, que será companhia constante ao longo desta viagem, forma aqui, a coisa de um quilómetro da povoação, a albufeira do Alto Lindoso, um espelho sereno que se prolonga Espanha adentro. Daqui para jusante, para onde a N203 nos leva, ganha temperamento de rio de montanha, correndo no fundo de um vale encaixado até que o aproveitamento de Touvedo o volta a represar.

O primeiro troço da estrada, ainda no alto da Serra Amarela, é marcado pela paisagem agreste, manchas de bosque de carvalho e pinheiro-bravo nas bermas, em contraste com as montanhas pontuadas por fragas de granito que espreitam da outra margem. A vontade de encostar para a ocasional fotografia é grande, porém frequentemente frustrada, sobretudo para os puristas, pela constante intromissão de cabos eléctricos. Não há muito como contorná-los, eles fazem parte da paisagem e já não é de agora. A antiga Central Hidroelétrica de Lindoso está aí para testemunhá-lo.

Para lá chegar, toma-se o desvio à saída de Paradamonte, pela M530, um carrossel de curvas que desce até ao rio em menos de cinco minutos. Da ponte em arco sobre o Lima tem-se vista limpa sobre a antiga central, tesouro da arqueologia industrial a caminho de cumprir 100 anos, enquanto aguarda transformação em museu.

Da ponte, escuta-se também o silêncio. Ou melhor, o rumor das águas que brotam da montanha, escorrem encosta abaixo e engrossam o rio. Do lado de lá, fica Soajo, visita obrigatória para quem guarde ainda vontade de ver mais espigueiros, bem como o mosteiro de Ermelo. Tanto um como o outro pedem 10 minutos de estrada para cada lado. 

Além de dar nome à vila, a ponte medieval é imagem de postal de Ponte da Barca.
O bacalhau gratinado é um dos motivos para estacionar à mesa d'O Moinho.
Quando o tempo se põe convidativo, a garrafeira Ideias Villa Velha, de Joaquim Silva, retoma as funções de wine bar.
Do adro da Igreja Matriz de Ponte da Barca, admira-se de cima a vila antiga.
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Ponte da Barca e o Lima

De volta à N203, retoma-se o caminho com o sentido no almoço. Sem pressa, contudo. Abranda-se em Entre-Ambos-os-Rios para admirar a confluência das águas do Froufe e do Tamente com as do Lima, sucessão de quadros de uma beleza inspiradora. Abranda-se para espreitar a pitoresca igreja de Touvedo São Lourenço, para reparar nas curiosas paragens de autocarro em forma de onda, para fotografar a ocasional vaca de raça cachena que pasta na berma.

Em Ponte da Barca, a estrada ganha feição de rua, por entre a mancha urbana. O centro histórico pede passeio, assim como a ponte que lhe dá nome – aliás, é imperativo atravessá-la, para admirar a vila reflectida do Lima –, mas só depois. Primeiro, segue-se a N203 até voltar a sair de Ponte da Barca. É aí, na foz do Vade, que fica o restaurante O Moinho, um clássico local para os amantes de lampreia e de vitela barrosã (o bacalhau e o polvo também têm o seu lugar na ementa), com serviço atento e vista de primeira sobre o rio.

Quem preferir a petiscada à comida de sustança pode deixar aqui o carro e seguir a pé pelo passeio ribeirinho do Choupal do Corro. Centro histórico adentro, passado o hotel Fonte Velha, dá-se de caras com a Ideias Villa Velha, garrafeira que é também wine bar quando o tempo está convidativo e permite abrir o terraço com vista. Nessa altura, tem vinhos a copo, mais uma boa selecção de referências prontas a pedir à garrafa, que acompanha com queijos, fumeiro de porco preto, enchidos regionais. A oferta de Vinhos Verdes privilegia os brancos de pequenos produtores e de winemakers consagrados. Na estação fria, mesmo sem petiscos, não deixa de merecer visita – é sempre valioso ter quem nos saiba guiar na compra de vinhos da região.

José Gomes, anfitrião e proprietário d'A Carvalheira, ostenta os 25 anos de vida do restaurante como uma medalha. Consistência é palavra de ordem.
Queijos, enchidos e outros petiscos fazem companhia a vinhos a copo, cervejas belgas, whiskies e gins, no pub Favas Contadas.
Além de museu, o Centro de Interpretação e Promoção do Vinho Verde é também uma enoteca com provas, sugestões a copo e vertente de loja.
Recomenda-se a chegada a Ponte de Lima a tempo de apanhar a hora mágica em que o pôr-do-Sol invernal tinge de laranja a ponte medieval.
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À mesa em Ponte de Lima

Ponte de Lima é a paragem que se segue. O que não significa que estes 18 quilómetros de estrada devam ser feitos sem contemplação – até porque o caminho passa junto do mosteiro de Bravães, serpenteia entre extensões de vinha (as da Quinta de Luou, por exemplo, são visitáveis) e a espaços permite vislumbrar o Lima, agora feito rio de várzea. Contudo, recomenda-se a chegada à “vila mais antiga de Portugal” a tempo de apanhar o pôr-do-Sol invernal a tingir de laranja a ponte medieval.

Ponte de Lima pede também um passeio ao sabor do acaso pelas ruas aprumadas do centro histórico. Nessas deambulações à sorte, quem entrar na Casa Barbosa Aranha – reconhecível pelo torreão acastelado, nas imediações da Câmara – não dará o tempo por perdido. Ali funciona o Centro de Interpretação e Promoção do Vinho Verde, a um tempo um museu dedicado à vinicultura na região e enoteca, onde está representado o portfólio de 47 produtores, com provas, sugestões a copo e vertente de loja.

Como o vinho tem o condão de abrir o apetite, há bom remédio a dois passos dali, no Favas Contadas. Um pub discreto, com meia dúzia de lugares ao balcão (e mesas no piso de cima), petiscos e vinhos a copo – bem como cervejas belgas, whiskies, gins. Bom tanto para uma paragem a meio da tarde como para um copo depois de jantar.

Chegada a hora da refeição, há muito por onde escolher sem sair da vila – Encanada, A Tulha e Vaca das Cordas são escolhas possíveis. Mas quem tiver a ousadia de explorar os arredores também terá a devida compensação. Fica de exemplo A Carvalheira, a 5 quilómetros do centro.

Basta tomar a N201, sentido Braga, e seguir pelo desvio à esquerda antes da ponte da A3. Quanto mais fria e inóspita a noite estiver, mais esta casa de lareira acesa saberá a porto de abrigo. A Carvalheira tem aura de sítio especial, de sítio de amigos, de casais, de famílias. É fácil sentirmo-nos bem-vindos e bem entregues nesta sala de paredes de granito, chão alcatifado e tectos de madeira. O anfitrião e proprietário José Gomes ostenta os 25 anos de vida do restaurante como uma medalha. Começou em Arcozelo, mudou-se para esta quinta há 6 anos. Com a mudança, sublinha, só a morada se alterou. A equipa manteve-se, assim como a ementa, que está praticamente na mesma desde o primeiro dia.

Consistência é palavra de ordem. São fortes os pratos de forno e de brasa, entre eles o bacalhau com broa, a posta, o cabrito, isto como sequela de um prelúdio considerável de saladinhas frias, presunto cortado com precisão milimétrica e entradas quentes em dose generosa. A carta de vinhos é também avantajada, com um capítulo de montra da região onde brilha uma glória local chamada Quinta do Ameal. Prová-lo aqui pode ser o derradeiro pretexto para rumar à origem, a menos de 20 minutos de caminho.

A Casa Grande é o centro da Quinta do Ameal. Ali fica a sala de provas, onde é servido o pequeno-almoço, bem como três das suites.
À imagem dos vinhos, elegantes e sedutores, a Quinta do Ameal tem também cinco suites de estilo depurado, conforto extremo e detalhes deliciosos.
José Luís Moreira da Silva é enólogo da Quinta do Ameal, a par dos outros projectos do Esporão no Norte: a Quinta dos Murças, no Douro, e a cerveja Sovina, no Porto.
Além da casa principal, o Ameal tem também uma casa rodeada de vinha, com duas suites.
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A Quinta do Ameal estende-se à beira-rio, num anfiteatro de vinha onde cresce em exclusivo a casta loureiro, emblema da sub-região do Lima. Contudo, “há o loureiro e o loureiro do Ameal”. O sublinhado é do enólogo José Luís Moreira da Silva, que atira responsabilidades para a localização da quinta – a proximidade do rio, a do mar (30 quilómetros em linha recta), a amplitude térmica, que tanto traz acidez como maturação, e a presença de um bosque de 8 hectares de carvalho e pinheiro-manso. Claro que os cuidados de enologia e viticultura – em linha com as políticas de sustentabilidade do Esporão, que comprou a quinta em 2019 – também não são alheios ao resultado final. Nomeadamente, o propósito com que Pedro Araújo, o anterior proprietário, pegou neste negócio de família e o revitalizou, nos anos 1990. Pretendia, sobretudo, explorar a plasticidade da casta e demonstrar um potencial de evolução do qual muita gente duvidava.

A prova cabal de que tinha razão está ali, para quem quiser ser surpreendido. À mesa do salão da casa grande, José Luís traz à prova as três referências da casa, incluindo um Escolha de 2017, que não só está em excelente forma como promete longevidade.

À imagem dos vinhos, elegantes e sedutores, a Quinta do Ameal tem também cinco suites – três na casa grande e duas numa casa em plena vinha – de estilo depurado, conforto extremo e detalhes deliciosos, como pátios privativos com chuveiro que fazem ansiar por noites estreladas de Verão. Acordar no Ameal traz ainda o encanto de um passeio ao nascer do dia, vinha abaixo, bosque adentro ou dando bom uso ao troço de ecovia que passa no limite sul da propriedade, ao longo do rio.

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Linha de chegada: Viana do Castelo

Continuemos ao longo do rio, mas já de regresso à estrada, com Viana do Castelo como destino. O cenário da N203 para lá de Ponte de Lima muda drasticamente. A segunda metade da estrada tem cara de rua principal, atravessando povoação atrás de povoação, com o Lima menos visível – mas há vários desvios sinalizados para quem tiver saudades para matar. Nas bermas já não há vacas a pastar ou igrejas pitorescas, mas, a espaços com o casario, vão desfilando extensões de vinha emolduradas por pórticos antigos de granito que lhes dão um ar grave e oficial.

A estrada termina ao entroncar na N13 em Darque, vizinha da frente de Viana do Castelo, conhecida pelos desportos náuticos e pela ventosa praia do Cabedelo. Para um melhor efeito cénico, trace-se a linha de chegada na Ponte Eiffel, um verdadeiro miradouro (ainda que em andamento) sobre a foz do Lima, enquadrada pelo recorte das gruas do porto.

Ir a Viana bem pode implicar certas “capelinhas” obrigatórias, como a subida a Santa Luzia ou a bola-de-berlim da praxe na Confeitaria Manuel Natário. Mas quando se chega com o estômago a dar horas, importa continuar a descer o Lima, até ao ponto em que este já desaparece no sal do Atlântico, e tomar lugar à mesa da Tasquinha da Linda. De olhos na água, no cais e nas embarcações que diariamente asseguram o abastecimento de pescado fresco.

O nome pode induzir no erro de esperar uma casita modesta. Pois esta tasquinha é um restaurante confortável, composto, com cadeiras que denunciam convite para ficar algumas horas à mesa. O selo Bib Gourmand à porta promete “refeições cuidadas a preço moderado”. Leia-se bem, moderado, não barato. Porque o bom peixe tem o seu preço, e tanto Deolinda Ferreira como Paulo, seu marido, sabem-no bem. Ambos cresceram neste cais, filhos de pais ligados à apanha e ao comércio de peixe (avós e bisavós também, no caso de Linda) e, a par do restaurante, têm uma empresa de exportação de pescado. O nível de conhecimento do produto, está na cara, é difícil de igualar.

Na Tasquinha da Linda, Deolinda Ferreira só serve peixe da costa de primeira, produto que conhece como poucos.
Os brancos da região dos Vinhos Verdes têm aqui o devido altar, ou não fosse o peixe e o marisco um aliado natural.
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Na carta não há pratos de carne, nem fazem falta. Há peixe da costa de primeira, apresentado no mostruário à entrada, assado em forno a carvão ou em cataplana, há variedade de marisco, arrozes de tamboril e de lavagante, enfim, frescura no prato. E, a dar as boas-vindas, rissóis de camarão e bolinhos de bacalhau daqueles que não duram na mesa.

A lista de vinhos é vasta e estudada, apetrechada tanto de vinhos para o dia-a-dia, como de outros para dias especiais e ainda alguns para quando o rei faz anos. Os brancos da região têm aqui o devido altar, ou não fosse o peixe e o marisco um aliado natural.

Na sala, Linda e Paulo conseguem manter cumplicidade com a clientela habitual, sem alhear o cliente que se estreia porta adentro. Afinal, esta é uma casa para nos sentirmos em casa. As tais cadeiras convidativas não mentem: é bom vir com tempo para passar algumas horas à mesa. As pequenas viagens, tal como as grandes, terminam em bom porto.


Esta reportagem foi publicada no n.º 1 da revista Singular. Download disponível aqui.