Fazer testes como na Dinamarca? Mais do que muito, Portugal deve fazê-lo bem (e depressa)

Não há dúvidas: tanto em Portugal quanto na Dinamarca, o pico dos testes foi perto do Natal. A diferença está nos números. Em Portugal, registou-se uma média de 4,05 testes por cada mil habitantes; na Dinamarca foram 23,71. O elevado número de testes é a chave para travar as cadeias de transmissão? “A lógica é testar, mas com racionalidade”, afirma um dos especialistas ouvidos pelo PÚBLICO.

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EPA/Demian Alday Estevez

“Uma resposta forte e agressiva” na feitura de testes: foi esta a estratégia da Dinamarca que, de acordo com o epidemiologista Manuel Carmo Gomes, devia servir como exemplo para Portugal. Durante a reunião desta terça-feira na sede do Infarmed, em Lisboa, o especialista considerou que os testes eram a “arma principal” no combate à covid-19 (ao contrário do confinamento) e que, nessa matéria, Portugal anda atrás da pandemia.

O facto é que o número de testes tem vindo a aumentar continuamente desde o início da pandemia, com o pico a registar-se perto do Natal. A 23 de Dezembro, o país teve um recorde de 59.249 testes realizados, chegando a uma média de sete dias de 4,05 testes por mil habitantes. Em Janeiro, chegou a ultrapassar a média de cinco testes por milhar de habitantes.

A Dinamarca, por seu turno, é um dos países com maior taxa de testes por milhar de habitantes. Tal como Portugal, também teve um pico de testes no Natal, mas com números de uma dimensão bem superior: atingiu a 22 de Dezembro uma média a sete dias de 23,71 testes realizados por milhar de habitantes – valor bastante superior ao de Portugal.

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Este pico aconteceu poucos dias depois de o país nórdico ter registado um aumento de novos casos, a 18 de Dezembro, com 610,94 por milhão de habitantes. Este aumento ditou um pulso mais forte durante as festas, com medidas de confinamento especiais devido ao Natal: a maior parte das lojas fecharam, assim como as escolas. As reuniões familiares foram permitidas, mas com um limite de dez pessoas à mesa, desde que fosse possível manter o distanciamento.

Os critérios para fazer testes também podem ajudar a explicar o seu elevado número na Dinamarca: uma pessoa que tenha tido um contacto de alto risco (isto é, com uma pessoa que tenha tido um teste positivo, mesmo antes de ter sintomas) deve, por norma, fazer duas vezes o teste. Na maioria dos casos, o primeiro teste é feito quatro dias depois do contacto de risco; o segundo, dois dias depois do primeiro, independentemente do resultado, lê-se nos documentos da autoridade de saúde dinamarquesa (equivalente à Direcção-Geral da Saúde portuguesa).

Em alguns casos específicos (que envolvem o contacto próximo contínuo com um infectado, como, por exemplo, um convivente que está a fazer isolamento) a mesma pessoa pode fazer três vezes o teste. O primeiro teste é feito “assim que possível”, o segundo, “quatro dias depois do contacto com a pessoa infectada” e o terceiro “dois dias depois do segundo teste” – mantendo sempre o isolamento.

“Bastante desperdício”

Será que esta é a melhor estratégia? No caso português, deve dar-se prioridade ao “equilíbrio” e à “eficiência”. No entender de Elisabete Ramos, presidente da Associação Portuguesa de Epidemiologia e investigadora do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), o elevado número de testes na Dinamarca pode ser explicado pela “política de testes livres, sem necessidade de prescrição” que o país aplicou – uma medida que pode ser usada para “diagnosticar mais cedo”, mas que tem como desvantagem ter “bastante de desperdício”, com muitos testes a serem usados em pessoas que podem não ser, necessariamente, as que mais precisavam de os fazer.

“A lógica é testar, mas com racionalidade”, afirma. É a linha que Portugal, “enquanto país que não pode desperdiçar recursos”, deve e tem seguido, defende. E, até agora, não correu mal: “Globalmente, estamos entre os países que mais testam [por milhão de habitantes na Europa], afirma a especialista.

Importa, por outro lado, não esquecer que o número de testes anda sempre de braço dado com a curva epidémica de cada país. “Sempre que temos aumento de casos vai haver um aumento dos testes, porque corresponde à testagem que se segue ao rastreio epidemiológico”, esclarece.

Carlos Martins, médico e investigador da Faculdade de Medicina do Porto, opta por salientar que a Dinamarca foi “um dos primeiros países a detectarem a nova variante do Reino Unido”, logo em Dezembro, conseguindo dar uma resposta “notável” do ponto de vista da “rapidez de acção e organização de resposta”.

“Nesta fase distanciou-se muito da generalidade dos países”, como Portugal, que seguiu “o caminho oposto”. “Tivemos notícias da nova variante em Dezembro. Já tínhamos dados de que essa nova variante tinha potencial de aumentar o Rt (índice de transmissibilidade) e em vez de se tomarem medidas resolvermos ‘abrir’ o Natal”, observa.

Testes acessíveis e maior fluidez nos procedimentos

Que lições pode Portugal retirar da estratégia dinamarquesa? Mais do que fazer muitos testes, é preciso fazê-lo bem – mas, de preferência, depressa. Neste ponto, Carlos Martins repete um velho mantra: “Para sermos eficazes no controlo desta pandemia, temos de detectar muito rapidamente as pessoas infectadas, para as isolar, fazer o rastreio dos contactos e travar as cadeias de transmissão. Não há volta a dar. Isto tem de funcionar.” E, para que isso aconteça, é fundamental facilitar o acesso aos testes, que têm de ser feitos o mais rapidamente possível – de preferência, criando um sistema que os torna “muito económicos” ou até “gratuitos”.

Na óptica deste médico, “poderá fazer sentido” fazer testes a pessoas assintomáticas, em contexto escolar, ou, por exemplo, em fábricas, tal como preconiza a nova norma da DGS anunciada esta quarta-feira, mas desde que isso não sirva como mote para baixar a guarda.

Já Elisabete Ramos acredita que, mais do que lançar novas medidas, há potencial para “melhorar alguns dos procedimentos que temos no terreno”. “Não há uma medida que seja a solução para isto tudo”, afirma. O que temos é de fazer testes de forma rápida e eficiente, “rentabilizando todos os testes”.