“Precisamos de manter confinamento por dois meses”, defende epidemiologista Baltazar Nunes

Na reunião do Infarmed, Baltazar Nunes disse que só assim é possível ter menos de 200 doentes em UCI e reduzir incidência para 60 casos por 100 mil habitantes.

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Paulo Pimenta

Portugal é dos países europeus com maior número de medidas de restrição em funcionamento, mas será necessário completar dois meses de confinamento para reduzir significativamente a ocupação em unidades de cuidados intensivos. A previsão foi deixada por Baltazar Nunes, do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, na reunião que juntou peritos e políticos no Infarmed, esta terça-feira.

“Precisamos de manter estas medidas de confinamento por um período de dois meses para trazer o número de camas ocupadas em cuidados intensivos abaixo das 200 e a incidência acumuladas a 14 dias abaixo dos 60 casos por 100 mil habitantes”, resumiu Baltazar Nunes.

De acordo com o especialista, é necessário manter o confinamento com escolas fechadas durante 60 dias para se conseguir chegar a uma incidência acumulada a 14 dias abaixo dos 60 novos casos por 100 mil habitantes e menos de 200 doentes internados em unidades de cuidados intensivos (UCI).

Mas este é o cenário com previsões de transmissibilidade com um período mais alargado. Baltazar Nunes traçou outros dois cenários de confinamento com escolas fechadas, a 30 e a 45 dias. Porém, o cenário a 60 dias “é o que consegue trazer os níveis de ocupação nas UCI para valores mais baixos”: 200 em Abril, a partir de 15/20 de Janeiro, especificou.

Na intervenção que fez, Baltazar Nunes analisou a evolução da incidência e transmissibilidade do vírus, trazendo boas notícias neste capítulo: o índice de transmissibilidade está abaixo de 1, objectivo traçado pelas autoridades de saúde, em Portugal continental e nos Açores. Na Madeira, esta incidência subiu.

“O valor do R(t) nos últimos cinco dias analisados, de 30 de Janeiro a 3 de Fevereiro, aponta para 0,82. É um valor baixo, indica a redução de incidência de forma clara. Podemos verificar que o R se encontra abaixo de 1 em todas as regiões do continente e nos Açores, estando apenas na Madeira com um valor de 1,13, que indica uma fase de crescimento. Podemos ainda verificar que a redução é clara e se iniciou perto do dia em que as medidas começaram a ser aplicadas”, detalhou o especialista, que exibiu gráficos que demonstram claramente o impacto das medidas de confinamento na redução da transmissibilidade do vírus observada nos últimos dias.

Baltazar Nunes analisou a incidência nas primeiras semanas de 2021, revelando que a análise estatística mostra que este indicador se concentrou nos jovens adultos e nas faixas etárias mais avançadas, espalhando-se para mais grupos na terceira semana do ano.

“Verificamos que a incidência toma os seus valores mais elevados nos adultos jovens, pessoas entre os 25 e os 30 anos. Verificamos também que quando olhamos para os cidadãos mais seniores, pessoas com 80 ou mais anos, a incidência toma números mais elevados. É o grupo que tem maior intensidade da epidemia. Vemos também que há grupos que estão protegidos: pessoas próximas dos 75 anos e as crianças. Vemos que na semana três e quatro [de 2021] a incidência espalha-se pelo resto da população e acaba por ser elevada entre todos os indivíduos entre os 25 e os 50 anos. Há uma dispersão da incidência por outros grupos etários”, relatou o especialista do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge.

“Portugal é o país com uma redução de mobilidade mais acentuada na UE”

Baltazar Nunes fez uma análise à evolução de um indicador em particular, o da mobilidade no país desde o início do ano, explicando que nos primeiros dias de 2021 o país estava na lista dos países com maior mobilidade. Com a introdução das medidas de confinamento e restantes restrições às viagens, Portugal passou para o outro lado do espectro, sendo, no seio da União Europeia, o território que mais reduziu a mobilidade nas últimas semanas.

“No dia 1 de Janeiro, Portugal estava entre os países com maior mobilidade. A 15 de Janeiro, reduz um bocado, mas ainda está nos países com maior mobilidade. Neste momento, os países com mobilidade mais reduzida são Áustria, Reino Unido, Holanda e Irlanda. Mais recentemente, a partir de 19 de Janeiro – quando as medidas são introduzidas – começámos a ver que Portugal passa para os países com redução de mobilidade e, actualmente, Portugal é o país com uma redução de mobilidade mais acentuada na União Europeia, com uma diminuição na ordem dos 66%”, adiantou Baltazar Nunes.