PS – um debate que diga alguma coisa aos portugueses

Metade do Governo e uma parte significativa da estrutura do partido não conseguem encaixar no perfil que se exige a quem trabalha com Costa. Perante a “guerra” que vivemos, todas as fragilidades se revelaram. Não é, porém, o tempo de mudar peças e fazer “compras de inverno”.

Pedro Nuno Santos tem razão: o espaço político do socialismo democrático e da social-democracia devem fazer-se representar em todas as eleições presidenciais. Porém, uma mera proclamação não é bastante, importa que se apresentem candidatos que, pela sua história de vida, possam representar esse mesmo espaço político. Nas eleições de janeiro, o país não tinha um candidato que cumprisse os mínimos exigidos pelo espaço da esquerda democrática.

A preparação do decisivo congresso da primavera deveria levar os socialistas a discutir o país, o partido, o futuro, não se fixando em leituras proparoxítonas sobre a (não) comparência socialista nas presidenciais. Façamos o caminho que importa.

Com curtas interrupções, o Partido Socialista está no poder há 25 anos. Um quarto de século é muito tempo e implica, determinantemente, na forma como os seus dirigentes olham e entendem os portugueses.

No país, assistimos a um afastamento da realidade que se foi aprofundando com a crise económica e financeira do início da segunda década e está a acentuar-se com a crise sanitária, económica e social deste início da terceira década.

No partido, verificamos o afastamento de uma parte enorme das elites políticas da realidade dos poderes intermédios, em especial dos autarcas. O sentimento gregário que sempre existiu no PS, mesmo nos tempos difíceis dos finais das décadas de 1970 e 1980, está, por estes dias, muito danificado.

Até ao final do século XX, a construção dos poderes centrais, no país e no partido, era resultado de muitas vindas de outras partes, neste século os poderes que contam foram-se transferindo para uma geração de “Lisboa-cêntricos” que, na maioria das situações, conhecem mais capitais europeias (o que se impõe no mundo atual) do que capitais de distrito (o que se lamenta por obrigação histórica).

Há, mesmo no espaço de certas academias, uma repulsa pela vinda dos territórios interiores, porque não comungaram da mesma escola pública elitista, porque não frequentaram o mesmo colégio privado, porque não beberam uns copos no Bairro Alto e aí construíram a cola que os salvará para sempre. Neste processo de segregação, nem o Porto conseguiu salvar-se. Ser de fora de Lisboa só garante, no tempo de hoje e mesmo a um potencial prémio Nobel, o acesso a um lugar subalterno.

Quando olhamos para o povoamento português, para os usos e costumes, para as portas abertas ou fechadas a quem chegou ao longo dos séculos, percebemos que há mais do que um Portugal, e que só poderá liderar, comandar, mostrar um amanhã a todos, portugueses e socialistas, quem conseguir entender esses vários países.

As administrações públicas estão recheadas de pessoas que pensam da mesma maneira, que não tiveram vida para além de um mundo reduzido e saudável, sem confrontos; as opções pelas políticas vão todas num único sentido – impor um “homem novo” que não tenha em conta a realidade ancestral de Portugal. O “animalismo” atacou o PS, e não tarde, se não o travarmos, fará dele um partido de nicho.

Nestes últimos 25 anos, o Partido Socialista foi autor ou transigente com o que de melhor e de pior se fez na política portuguesa. Teve três líderes partidários que contaram de forma indestrutível para o progresso, mas também, mesmo que involuntariamente, para o aumento dos enquistamentos. Tem hoje um líder que é primeiro-ministro e que é tão-só o único político no ativo com condições para fazer frente ao pior tempo da nossa democracia, para nos levar a uma outra realidade que se afaste da angústia e da morte.

António Costa escolheu as suas equipas, mas muitos dos escolhidos não conseguiram entender as razões das escolhas. Este nosso primeiro-ministro tem duas características que são únicas: não limita a ação (1); quer conhecer a lógica de cada decisão (2). Ora, metade do Governo e uma parte significativa da estrutura do partido não conseguem encaixar no perfil que se exige a quem trabalha com Costa. Perante a “guerra” que vivemos, todas as fragilidades se revelaram. Não é, porém, o tempo de mudar peças e fazer “compras de inverno”.

Por outro lado, o PS deixou de ser um partido de camadas para ser um partido de poderes fáticos. Estes dois partidos não se juntam, não se entendem, não simpatizam. Mas há um problema relevante para o Partido Socialista de cima – o PS de baixo é essencial para que um projeto se mantenha e cresça. Não há um só político que consiga vencer se seguir pela via burocrática, administrativa ou por uma sucessão monárquica. Já tivemos disso e foi horrível.

É perante este cenário que o PS vai realizar o seu congresso. Será uma reunião diferente, pulverizada, fruto das imposições sanitárias. Mas vivemos um tempo em que devemos negar o conforto, devemos questionar as sondagens, devemos perguntar-nos quem somos. Este congresso não pode ser o tapete rubro do poder, não pode ser a passagem arrogante de umas tantas personalidades que entraram tarde no comboio vermelho de Mário Soares e se alcandoraram a postos históricos.

A reunião magna da primavera deveria ser o espaço dos académicos de 40 anos que discutem as diversas soberanias no século XXI; o momento dos professores do futuro que discutam a sua importância na sociedade e partilhem as novas formas de transmitir conhecimento em tempo da velocidade da informação; dos financeiros de 30 anos que discutam sustentabilidade e ética; dos engenheiros do mundo novo que contestem o (des)equilíbrio entre desenvolvimento e território; dos sindicalistas que sabem bem que há novos problemas na relação do trabalho/capital; dos empresários que não querem viver num emprego das nove às cinco e apostam em criar riqueza, sim, porque o PS nunca foi o partido dos que se nivelam por baixo numa subsidiodependência endémica, rejeitou sempre a inveja nativa que nos fez atraso.

Este congresso não pode deixar de ser o congresso da liberdade e da equidade. Liberdade de querer ser avaliado pelo mérito, de poder ter opinião; equidade no acesso a bens públicos, a uma vida decente em territórios esquecidos, sejam eles nos bairros das metrópoles, sejam nas aldeias que teimam em sobreviver.

Este congresso não pode deixar de ser o congresso em que nos perguntamos se faz sentido continuarmos a não prestar contas, a comportarmo-nos como se fôssemos uma casta, como se não houvesse outros, melhores, para os nossos lugares. Se faz sentido vivermos numa certa esquizofrenia constitucional que vem do topo. Se faz sentido, quando questionam as nossas ações e comportamentos incorretos, respondermos que é argumentário populista.

próximo congresso do PS tem a sorte de se reunir em volta de um líder que entende tudo isto que aqui dizemos, mas que tem as limitações que se revelam na endogamia governativa e partidária. António Costa precisa de gente livre, de gente que pode ter opiniões divergentes, mas de gente que não se limita a uma pobre rotina do ser em vez da elevação do fazer.

O congresso da primavera só poderá ser o congresso em que os autarcas se façam valer. Não na perspetiva de em três dias despacharem um qualquer manifesto para as eleições locais de setembro, mas valer na sua importância política e também na sua realidade institucional. E neste olhar não pode desmerecer uma atenção à progressiva “caudilhização” do poder local a que temos de fazer frente. E deve ser o congresso onde devemos ponderar sobre as razões de estarmos a ser um partido em que deixaram de caber a maioria dos mais jovens, incapazes que somos de abandonar o “analógico” da mensagem.

A tarefa é hercúlea, mas já tivemos enormes desafios e vencemo-los. E não podemos perder o sentido do que somos – o partido central do sistema político, o partido da soberania social, o partido da igualdade de oportunidades onde o Estado é coadjuvante, mas não é pai.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico